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Um inverno em Maiorca

por Miguel Bastos, em 03.09.25

sand.jpg 

Por conselho médico, a escritora George Sand rumou a Maiorca. Procurava um inverno ameno, mas também uma nova relação com a natureza - mais próxima e romântica. O filho tinha passado mal o inverno, mas o namorado ainda tinha passado pior. O namorado era o compositor e pianista Frédéric Chopin. Um casal apaixonado, numa ilha tropical... Estão a ver o filme? Talvez não. Sobretudo, se tiverem lido o livro "Um inverno em Maiorca". A aventura começa mal e continua pior. A família é mal recebida pela população local - que estranha a presença de Chopin, os modos da escritora e as roupas dos filhos - a casa que alugam é fria e húmida, Chopin não consegue ter o seu piano, o seu estado de saúde agrava-se, a população teme que a doença seja contagiosa e obriga-os a afastarem-se.
Acabam a viver na cela de um mosteiro, semiabandonado, perdido no meio das montanhas. George Sand vai-se vingar no livro, descrevendo os habitantes de Maiorca como ociosos, rudes, ignorantes. Pouca gente se salva, no retrato de Sand - exceto a natureza generosa da ilha. Foi essa natureza que atraiu George Sand, mas, quatro meses depois, concluiu que "o homem não foi feito para viver com as árvores, com as pedras, com o céu puro, com o mar azul, com as flores e com as montanhas, mas sim com os homens, seus semelhantes". Pelo tom do livro, percebe-se que a escritora não reconhece os maiorquinos como seus semelhantes. Descreve que, quando chegou ao barco francês que os iria levar de regresso a casa, teve a "sensação de ter dado a volta ao mundo, abandonado os selvagens da Polinésia e estar de volta ao mundo civilizado". Apesar do tom - e sem referir o nome de Chopin (é "o nosso enfermo") - a verdade é que o livro acaba por eternizar a passagem da escritora e do compositor pela ilha. Hoje, é possível visitar o local onde o casal viveu durante esse inverno, em que Chopin ("o nosso enfermo") compôs os seus famosos prelúdios. Parece que, com o passar dos anos, os "selvagens" se tornaram magnânimos e perdoaram os excessos da escritora, sorrindo.
Releio que o homem não feito para viver "com o mar azul". Olho para o mar azul, para os selvagens e sorrio, também.

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Viagem ao Peru

por Miguel Bastos, em 10.02.25

machu picchu.jpg 

Vou dizer uma banalidade (é uma das minhas especialidades): gosto muito de viajar. Quando eu era mais novo, tinha muitos amigos que trocavam as férias por trabalhos que lhes permitiam pagar as roupas da moda, ou, mais tarde, a entrada para um carro em segunda mão. Eu fiz o contrário: troquei as roupas e o carro, pelas férias e pelas viagens. O dinheiro, curto, dava sempre para qualquer coisa excitante.
 
A Ana Jordão e a Joana Ferraz têm um programa sobre viagens, na RDP Internacional, e convidaram-me para falar sobre uma viagem que me tivesse marcado. Escolhi o Peru. Uma viajem que se previa gloriosa, até ao Machu Picchu. Onde, em vez de chegar como um conquistador, cheguei como um moribundo.
 
A conversa, animada, (obrigado Ana e Joana!) pode ser ouvida aqui:

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Centro Pompidou

por Miguel Bastos, em 22.01.25

pompidou.jpg 

Paris. Lembro-me que chegámos, excitadíssimos, ao Centro George Pompidou. As 10 horas ainda não tinham chegado e a manhã já era quente, luminosa e barulhenta. O edifício revelava-se a escultura pós-modernista das fotografias: vidro, metal, túneis de teletransporte, tubos de todas as cores. E o melhor estava para vir: Kandinsky (eia!), Matisse (hum!), Picasso (uau!), Miró (fuuu!). Depois de uma sanduíche leve, e breve, mais telas, mais esculturas e instalações, e mais "uaus!" de alegria e espanto. As horas foram passando, as pernas começaram a pesar, a barriga a reclamar que a arte não puxa carroça. Já não respondemos, com excitação, às instalações de Yoko Ono e bordejámos, exaustos, o urinol de Duchamp. Saímos, cilindrados, da nave espacial - a sentir os efeitos do "jet leg" no corpo. Eram, novamente, 10 horas. Só não eram da noite, como nesta fotografia, porque estávamos no verão. O Pompidou foi uma experiência do outro mundo. Creio que ainda é.

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Paris, sempre

por Miguel Bastos, em 14.03.23

paris.jfif 

Gosto muito destes dois vizinhos: tão diferentes, tão iguais. Comecemos pelas capas. Parecem daqueles discos baratinhos, que se vendiam nas margens do Sena, a turistas apressados, na cidade dos clichés: "a cidade luz", "a capital do amor". "Ah, Paris!"; "Ah, o Arco do Triunfo!"; "Oh, a Torre Eiffel!". Na realidade, o disco original de Michel Legrand chama-se "I Love Paris" e não tem esta capa. Começa com o tema-título, o clássico de Cole Porter, e equilibra-se, ao longo do disco, entre visões "de fora" e "de dentro" sobre Paris. Os compositores vão de Jerome Kern a Offenbach. As orquestrações, de Legrand, respiram "jazz" e "chanson", em doses generosas.
 
Se a Paris, de Legrand, é moderna e cosmopolita, a Paris, de Dimitri from Paris, é pós-moderna. Não rejeita um só cliché. Pelo contrário, assume-os todos: absorve-os, acentua-os e devolve-nos os clichés, de forma diletante e divertida. Inventa um personagem: o sargento Bill T. Hawthorne que terá desembarcado na Normandia, para libertar Paris, onde uma tal Monique lhe prendeu o coração, em Montmartre. Mostra o "Monsieur Dimitri", na sua "pied à terre", na Riviera francesa. A música, entrecortada por vários interlúdios, mistura rimos latinos, "house" e "funk", com música de bar de hotel e filmes de espiões. Uma delícia. No final, ouve-se alguém a dizer: "Ah, Paris sera toujours Paris". Será. Paris será o que cada criador quiser. Será o que cada um de nós quiser.

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Terroristas

por Miguel Bastos, em 07.02.23

turquia.jpg

- Ai credo, que ainda vamos num avião cheio de terroristas!
De capacetes, coletes e calças com bolsos laterais, botas militares, e um conjunto de artefactos: pistolas, martelos, cordas, arneses, lanternas, ferramentas diversas. Um sem-fim de objetos e acessórios.
- Devem ir num avião à parte.
Não foram. A minha amiga voltou a arrepiar-se, quando os viu a entrar no avião. No nosso avião. O jornal, acabado de distribuir, sossegou-a e desassossegou-a, ao mesmo tempo: "sismo na Turquia". Os "terroristas" (japoneses, pelo aspeto) chegavam à Europa, para participarem em operações de resgate. Os "terroristas" mudaram de aspeto. Eram, agora, generosos, valentes, solidários. Tão diferentes dos outros: imaginados.

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Peru

por Miguel Bastos, em 21.12.22

peru.jpg 

- Olha, um peru!
- Como é que lhe chamaste?
- Peru. Em português, este animal tem o nome do teu país.
- Não acredito!
- Acredita, que é verdade.
O Peru volta a estar em crise. Estou chateado que nem um peru.
A Consuelo não vai perceber a expressão, mas, talvez, acredite.

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No fim do mundo

por Miguel Bastos, em 06.09.22

pomarao.jpg

Os portugueses foram até ao fim do mundo. Ainda vão. E continuam a deixar fins do mundo, atrás de si. No outro dia, estive num fim do mundo. Foi lá, a sul, numa varanda sobre o rio, que conhecemos Judy (chamemos-lhe assim): a serpentear por entre as mesas, a espalhar sorrisos e a sussurrar sotaque. Perguntamos-lhe pela origem do sotaque. Pergunta-nos pela origem do nosso. Respondemos. "Então, somos todos do norte", diz a sorrir, enquanto nos leva até à dona da varanda, "mas ela é da mesma terra que vocês". E, assim, recordamo-nos que o mundo é uma pequena aldeia. Uma aldeia repleta de fins do mundo.

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Exóticos

por Miguel Bastos, em 25.07.22

Em Tóquio, um grupo de jovens quis tirar uma fotografia connosco. Foi em Shibuya - um bairro da moda, onde os jovens se costumam juntar. "You're so exotic", dizia a rapariga japonesa de cabelo cor-de-rosa, top com purpurinas, mini saia leopardo, meias de renda e sapatilhas. "Exotic? Quem, nós?!", perguntámos. Nós, exóticos pela primeira vez. E tirámos uma foto. Uma "purikura" (foto tipo passe, autocolante), que o tempo ainda não era de "selfies" e os telemóveis ainda não eram inteligentes. Eramos exóticos, sim: europeus, do sul - baixos, morenos, cabelos ondulados, narizes grandes. Aos nossos olhos, eles também eram, claro. Olhos que, por sua vez, eles consideravam do mais "exotic" que há. Lembro-me que, nessa noite, fomos dançar para uma discoteca que passava, sobretudo, música de inspiração brasileira: samba e bossa nova, misturada com jazz e música eletrónica de dança. Dançámos, juntos, com os jovens modernos de Shibuya. Eles porque era "exotic". Nós porque - pela primeiro vez, em vários dias - nos sentíamos em casa, estando no centro de Tóquio. O que, também, acaba por ser exótico.

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Igrejas

por Miguel Bastos, em 08.06.22

bucarest.jpg

- E, ali, é uma igreja.
- Ali, onde? - pergunto.
- Ali, do lado esquerdo.
- Não vejo nada.
- Ali, no meio dos prédios.
- Mal se vê - insisto.
- Era aí que eu queria chegar. Durante muitos anos, os comunistas tentaram que as pessoas abandonassem a religião.
- Sim...
- Mas, como não conseguiram, mandaram esconder as igrejas no meio dos prédios.
- Isso é tão surreal.
- É, mas é muito romeno.
[Fotografia: Daniel Mihailescu / AFP]

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