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Jogaram para vencer. E vencerem. Mesmo assim, houve prolongamento. Chamaram-lhe encore. A Orquesta Sinfónica Simón Bolívar regressou ao palco, pintada com as cores da Venezuela. Gustavo Dudamel deu o tiro da partida. A Orquestra começou a tocar e, pouco depois, a dançar Ginastera. A plateia britânica respondeu, com palmas, em uníssono e em êxtase. E, então, deu-se uma invasão: do palco, para a plateia. Querem conquistar o mundo? É assim que se faz.
"Na década de setenta a Venezuela vivia o apogeu da riqueza do petróleo: o oiro negro brotava do seu solo como um rio inextinguível. Tudo parecia fácil; com um mínimo de trabalho e relações adequadas as pessoas viviam melhor do que em qualquer outro lugar; o dinheiro corria a jorros e era gasto sem pudor numa folia sem fim: era o povo que mais champanhe consumia no mundo". Isabel Allende descreveu, assim, a Venezuela no livro "O meu país inventado". Já o tinha feito num outro livro de características autobiográficas: "Paula". A Venezuela, de Allende, é muito parecida com a Venezuela, da minha infância. Onde se comiam laranjas da Califórnia e se vestiam camisas da Florida. Onde as mulheres desciam decotes, subiam saias e saltos, mas temiam raptos e violações. Onde os homens subiam a pulso, mas usavam o relógio do lado direito, para conservarem o pulso. Era uma forma de prevenirem assaltos, por esticão, e de evitarem que a navalha saltasse da mola, na hora de ponta. Isabel pergunta para que servia a emancipação das mulheres, a brilharem de batom e blush, se depois se trancavam em casa, a olhar o sol, atrás das grades, que cobriam as janelas do décimo andar. A Venezuela era muitas coisas: alternadas e simultâneas. Ainda é. Um país que, se não existisse, teria que ser inventado. Mas existe. Existe, para além de todas as invenções.
A música orquestral deve ser interpretada, em palco, por pessoas de meia idade, para uma plateia de gente culta, em países envelhecidos e ricos. Dificilmente, rapazes e raparigas jovens terão lugar numa orquestra como deve ser. Sobretudo, se forem pobres e latinos. Essa gente veste fato de treino, e é boa para bater palmas e tocar batuques, mas não para tocar numa orquestra. Por favor, não vejam isto até ao fim. Ainda vos dá vontade de dançar e, depois, lá fica o "comsommé" entornado.
Dizemos, muitas vezes, que uma música ou um artista nos salvou a vida. É, obviamente, uma metáfora, um exagero. Mas, para o maestro José Antonio Abreu, salvar a vida era mais do que uma figura de estilo: transformou-se numa missão. Abreu fundou o "El Sistema": um sistema para salvar as crianças pobres da Venezuela, através da música. Uma rede de escolas, orquestras e coros que se foi espalhando pelo país. Centenas de milhares de crianças e jovens, saíram de meios de pobreza extrema - ligados à droga e à criminalidade - e chegaram aos maiores palcos do mundo. E apaixonaram os maiores maestros do mundo. E geraram um dos maiores maestros do mundo: Gustavo Dudamel.
Ei-los a celebrar "Mambo", de Leonard Bernstein. O tema faz parte do musical West Side Story: uma variação de "Romeu e Julieta", em que dois grupos rivais de jovens delinquentes (um deles latino) se digladiam nas ruas de Nova Iorque. No fundo, o meio de onde vieram os músicos e a música que estão em palco. "Mambo", no Dia Mundial da Música, a salvar a vida: a deles, mas também a nossa.