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Os velhos

por Miguel Bastos, em 21.12.20

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A Rita abria os braços e corria para o televisor, a sorrir: "SA-RA-MA-GO!" A menina não tinha, ainda, 2 anos e não entendíamos a razão de tanto entusiasmo. Com o Nobel, Saramago tinha passado a aparecer muito no ecrã. Mais tarde, percebemos que a pequena Rita gritava "SA-RA-MA-GO!" sempre que via um senhor velhinho na televisão. Concluímos que, habitualmente, não há muitas pessoas de idade na televisão. Se não tivesse crescido, talvez, hoje, a Ritinha gritasse "LOU-REN-ÇO!" - outro velhinho excecional, recentemente falecido. Ontem, muita gente ficou muito entusiasmada com a capa do jornal Público. O próprio autor das imagens da capa, Adriano Miranda, confessava, no dia anterior, que estava tão excitado, que não sabia se iria dormir. Na capa do jornal, não estava um escândalo político, nem uma vitória desportiva, nem sequer um velhinho excecional: estavam velhos. E uma pergunta, inquietante, no interior: "Porque escolhemos não ver os velhos?" E um texto, assombroso, da escritora Dulce Maria Cardoso, que, a dada altura, refere: "Todas as crianças são parecidas entre si, os velhos são velhos cada um à sua maneira". Tínhamos, então, velhos no jornal - o grupo mais afetado pela pandemia. Muitos velhos. Mas, cada um com o seu nome, a sua idade, a sua profissão. Cada um "à sua maneira". Só isto: que é tanto.

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Livros para não ler

por Miguel Bastos, em 20.11.20

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"Puta”. “Meretriz, queria a senhora dizer”. “Pois sim, senhor subchefe, também pode ser isso”. Cito a "Crónica dos bons malandros", de Mário Zambujal: um homem do jornalismo, da rádio, da televisão, dos livros. Pode-se ser isso tudo: alternada ou simultaneamente. Haja talento. Vem isto a propósito de um livro que tem, no título, a profissão referida. Ao que parece, o livro já esgotou a primeira edição - apesar de só sair hoje.
 
Há uns anos, num encontro de escritores, Rui Zink - que muitos conhecem da televisão - queixava-se do facto de um concorrente de um 'reallity show' estar em primeiro lugar no top de vendas de livros. Entre as regras desse programa, referia Rui Zink, estava a proibição de ler. Na altura, pareceu-me uma alegoria de Saramago (que também estava no encontro): as pessoas que não leem, andam a escrever livros, para pessoas que também não leem. Sendo assim, porque é que estas compram esses livros? Creio que compram por impulso e que alimentam a esperança (sincera) de que um dia os irão ler. Quero reconfortar estas pessoas: não se martirizem por não lerem esses livros. Lembrem-se que aquelas pessoas, das capas dos livros, também não leem e algumas nem sequer os escrevem.

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De Malraux a pior

por Miguel Bastos, em 15.05.20

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Mal começou a epidemia, as pessoas correram às livrarias para comprar "A peste", de Albert Camus, e o "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago. "Que escolha estranha!", pensei, "para ler sobre desgraças, basta abrir os jornais". De modo que pensei em algo mais leve. E peguei no livro "A Condição Humana", de André Malraux, cuja leitura estava adiada há muito. Para não perdermos muito tempo, vou já para o final da história. Um dos protagonistas morre, estilhaçado, vítima da bomba com a qual pretendia matar um líder político. Outro morre, queimado, depois de ser atirado para uma fogueira. E outro, ainda, suicida-se, recorrendo à ingestão de cianeto. Eu devia ter suspeitado que - ao contrário do que eu pensava - "A Condição Humana" não era um livro de auto-ajuda. Até porque o primeiro homicídio ocorre na terceira página. Mas, o que é que hei-de fazer? Pensei que a condição humana iria melhorar! Penso sempre, aliás. Só que, às vezes, engano-me.

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Guterres e os parvos

por Miguel Bastos, em 05.10.16

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No meio do entusiasmo à volta de candidatura de Guterres à liderança da ONU, houve conjunto de pessoas “cosmopolitas” que resolveu criticar os “patrioteiros”. É verdade, o futuro de Portugal não depende da eleição de Guterres. Ter Guterres, como secretário-geral da ONU, não vai provocar a recuperação das finanças públicas, nem o crescimento económico, nem vai baixar o desemprego. Não vai aumentar a qualidade da governação, nem da oposição. Não vai acabar com o crescimento da extrema direita na Europa. Não vai decidir as eleições nos Estados Unidos. Não vai acabar com as brincadeiras perigosas da Coreia do Norte. Nem com a guerra na Síria. Mas se for búlgaro, alemão ou russo, também não.

 

Os “cosmopolitas” não acham relevante ter, pela primeira vez, um português à frente das Nações Unidas. O que é importante é que ganhe o melhor. Mas não dizem qual é o melhor. Não importa se Cristiano Ronaldo é português. Nem Pessoa, Camões, Amália, Saramago, Damásio, Vasco da Gama. Porque o mundo é um só. Porque são “cosmopolitas”. Os “cosmopolitas” não são bem cosmopolitas. São apenas parvos.

 

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António Costa, António Costa

por Miguel Bastos, em 26.10.15

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“Estás a ler o livro do António Costa? Ah, ah, ah!”. “Qual é problema?”, perguntei. “António Costa, António Costa!”, foi repetindo o meu filho, com um riso trocista. O meu filho fez-me lembrar uma menina que corria a chamar “Saramago”, quando via um velhinho na televisão. O ancião tinha, na altura, acabado de ser agraciado com um Nobel e aparecia muito na televisão. E a televisão, concluí, não mostra muitos velhinhos. De modo que, quando aparecia um, só podia ser o Saramago.

 

Ora, o meu filho sabe que eu gosto de livros e de política. Portanto, não devia achar estranho eu estar a ler um livro sobre o António Costa. De onde virá a sua surpresa? Por ser um político de agora? Por achar que ainda não é suficientemente importante? Será que ainda não merece um livro? Será que o meu filho não gosta do líder do PS?

 

Tentei perceber. Perguntei-lhe porquê. Mas ele encolheu os ombros e respondeu “sei lá”. Depois, voltou a perguntar: “Mas, porque é que estás a ler um livro do António Costa?”. Ainda tentei responder, mas ele foi repetindo “António Costa, António Costa!”.

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