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- Bons olhos o vejam!
- Pois, não tenho aparecido.
- Até já tinha perguntado, aqui no café, se estava doente.
- Tive uma coisa da idade.
- Então?...
- Um problemazito com a próstata, mas já fui operado.
- Ahhh, então está explicado. E, agora, está tudo ok?
- Estou impecável. Até estou mais novo.
- Ai, sim?
- É, fiz uma operação plástica.
- A sério? Onde?
- À cabeça.
- À cabeça?
- Sim, uma circuncisão. Impecável.
Não há nada como almoçar fora.
Estou a olhar para este recibo da farmácia. De um valor total de 288 euros, o Estado comparticipa 227. Ora aí está um exemplo prático, para responder ao "pagamos impostos para quê?" Sim, é para isto. Mesmo assim, o utente vai ter de pagar 61 euros. E mesmo que - à primeira vista - pareça um valor residual, provavelmente, vai ter dificuldade em fazê-lo. Sim, em Portugal os salários são muito baixos e as reformas ainda mais. E muitos dos clientes das farmácias, são pessoas de idade. E muitos utentes dos centros de saúde e dos hospitais também. E, muitas vezes, são mal atendidos - porque os hospitais estão "num caos" e o "SNS está em falência". Não está. Tem dificuldades, sim. Mas acolhe, sempre. E é, por isso, que um líder partidário pode usar várias instituições de saúde em dois dias e seguir em frente - com as câmaras atrás - a falar do "caos" e da "falência". E a ser ouvido, porque há muita gente a passar mal. E o mal não passa com "percentagens", com "convergências", com "o funcionamento das instituições". Mas também não passa sem elas.
Podemos (e devemos) ser mais exigentes com os governantes, com os partidos, com as instituições públicas. Mas exigir é diferente de dinamitar. Até porque, na ânsia de demolir, arriscamo-nos a ficar debaixo dos escombros.

O episódio, de hoje, do Portugalex tem "Brunas da memória", "Boletins com cheiro a gasóleo" e "Médicos em 'tigress'", que me deixaram à beira das lágrimas. (Obrigado, Patrícia Castanheira!).
Chama-se "A cor dos boletins e outras prioridades do SNS".
Apetecia-me fazer algumas considerações, mas não faz o meu género.
Para ouvir, aqui:
https://www.rtp.pt/play/p293/e809066/portugalex
- Fui ao médico e ele assustou-me.
- Então porquê?
- Tenho as análises todas avariadas. O médico não gostou do eletrocardiograma, nem do raio x, nem do raio que o parta.
- Mas o que é que diziam os exames?
- Colesterol, ácido úrico, diabetes, tensão alta, arritmia...
- Bem, não te falta nada!
- Foi o que o médico me disse.
- E o que é que ele te receitou.
- Uma data de medicamentos, exames e mais exames, e uma dieta rigorosa.
- Pois...
- Nada de fritos, nada de assados, nada de cerveja, nada de digestivos. Só me deixa beber um copo de vinho e fumar dois cigarros por dia.
- Quando é que voltas ao médico?
- Daqui a duas semanas. O médico era para me fazer uma prova de esforço...
- E não fez?
- Não e não me queria dizer porquê.
- Como assim?
- "Ah, deixe lá isso" e tal. E eu "Então, doutor, não vou fazer a prova de esforço". E o tipo "Ah, temos tempo".
- Se calhar, quer ver o resultado dos outros exames e da dieta.
- Foi o que ele me disse, mas eu voltei a insistir.
- E ele?
- Ele, depois de lhe ter perguntado mais duas ou três vezes "porquê", vira-se para mim e disse: "Ó, homem, se você faz uma prova de esforço, agora, fica-me estendido no chão, com um ataque cardíaco". Estás a ver o sacana?!
- Então, tu perguntaste, ele respondeu!
- Eh, pá, mas não precisava de dizer daquela maneira! "Fica-me estendido"?! Sacana do gajo, pá!
- Acho que é típico desta geração.
- Se calhar...
- São muito focados nos estudos, mas, depois, esquecem tudo o resto.
- Pois...
- São muito pouco desenrascados e faltam-lhes competências sociais.
- Tenho reparado nisso.
- A minha irmã, por exemplo, quando está a estudar, não faz mais nada. Percebe? Eu, quando era estudante, andava na Associação de Estudantes, saia à noite, fazia as coisas de casa... Não sei, no nosso tempo...
- No "nosso tempo"?!
- Bem, o Miguel deve ser um bocadinho mais velho do que eu.
- Só um bocadinho. Podia ser seu pai.
- Ah, agora é que estou a ver a sua idade, na ficha clínica. Desculpe.
- Ora essa, obrigado por me incluir "no seu tempo".
Nem na doença sou "cool". Sempre fui assim. Lá em casa, por exemplo, a televisão a cores demorou a chegar. Quando, finalmente, chegou, tentei partilhar a minha excitação com os meus amigos. Mas, não vi ninguém. Estava tudo a alugar filmes no videoclube. Quando cheguei ao VHS, estavam todos a migrar para o DVD. Quando cheguei ao DVD estavam todos no "streaming". Comprava vinil, quando todos compravam CD. Compro CD, quando o vinil volta a ser "cool", mesmo que continuem a ouvir música no telefone. Ah, estou com Covid. Eu sei, cheguei atrasado. Uma vez mais. Tenho a certeza de que já há doenças muito mais "cool", por aí.

Coisas que se encontram no lar da minha mãe. Saúde e Lar. Saudinha é o que é preciso.
O Serviço Nacional de Saúde faz anos, hoje. É mais novo do que eu. Eu sei, não parece. Mas, isso, é porque ele me trata da saúde. Há 43 anos.