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O guarda Serôdio fala uma mistura de "burocratês" com "policiês". Diz coisas como "a autoridade não pode ter calma, a autoridade tem de ser impraticável". E põe um "re" antes dos verbos: põe e "repõe", sei e "ressei", cacei-te e "recacei-te". Há muito que o guarda Serôdio se reformou. Deixou de ser o responsável pelo cumprimento do MCPP. "Vós sabeis, ao menos, o que é o MCPP?" Sim: "É o M_anual das C_oisas P_roibidas no P_arque". Serôdio voltou ao parque, para homenagear o homem que o criou, na Feira do Livro do Porto. Para evitar a neblina da manhã, a nortada da tarde ou a morrinha da noite, puseram-no resguardado na biblioteca. Parece-me um excesso de zelo. Estive com ele. Pelo que pude perceber, ainda dá um bigode a muita gente. Que idade terá Serôdio? O seu criador, Sérgio Godinho, faz 80 anos. E ele? Quantos faz? Faz e "refaz".
Canto-lhe Sérgio Godinho ao ouvido, enquanto o chocolate se derrete na minha boca: "A minha cachopa sabe a chocolate". E traz-me chocolate, a cachopa: da Bélgica, sobretudo. E foi da Bélgica que a minha cachopa me trouxe esta cantora, que, até há poucos dias, desconhecia. Angèle tem cara de anjo e voz de chocolate. Volto à canção de Godinho: "Falta ao respeito com uma gargalhada / Fala de nada / E tudo / Deixa-me embasbacado e mudo". De que fala, então, Angèle? Do que os outros falam: "Eles falam como animais / Falam mal de todas as mulheres". E, depois, lamenta: "É, eu não vou passar na rádio". E promete: "Serei educada para a TV". E admite: "As minhas palavras não são amáveis". E atira: "Vai-te f… hum-hum-hum-hum". E isto, logo na canção de entrada ("Balance Ton Quoi"), enquanto nos engana com a sua cara de anjo e voz de chocolate, e nos faz dançar com acordes gentis e ritmos contagiantes. Fiquei "mudo", cachopa. Cachopas.

Nuno Pacheco assinala a coincidência, hoje, no Público,: "no mesmo ano em que Manuel Alegre escrevia esta sua trova ['Trova do vento que passa'], 1963, era editada do outro lado do Atlântico mais uma canção a falar do vento, 'Blowin' in the wind'".
A coincidência é destacada no livro "Canções da Liberdade, a Política Cantada em Portugal e no Mundo (1964-1974)". Nuno Pacheco evoca, depois, outros livros que abordam o tema da canção política: entre eles o recente (e excelente) 'A Revolução antes da Revolução', de Luís de Freitas Branco.
Outra coincidência: este texto está nas costa de outro, também no Público, 'À volta da aparelhagem', onde Miguel Esteves Cardoso reflete sobre a falta de discussão dos mais jovens, à volta do prazer de ouvir música e ver televisão, em conjunto, lamentando que já ninguém o faça.
Terceira coincidência: escrevo este texto, enquanto tento adivinhar o que Capicua estará a conversar, no estúdio que fica debaixo dos meus pés, com o autor de um disco que se chama, precisamente, 'Coincidências': Sérgio Godinho.
Coincidências. Que as há, há. Felizmente.
Por norma, não gosto de sequelas. Mas desta gostei. O "Namoro II", dos Trovante, é uma sequela do "Namoro", do Fausto, que eu conhecia dos concertos, do Godinho. "Aí, Benjamim", gritávamos nós, da plateia, para que o Sérgio, no palco, nos ouvisse. Para perceber melhor a letra do "Namoro II", ouvi, vezes sem conta, o "Namoro" que o Godinho gravou (com o Fausto na guitarra, curiosamente) no álbum "De pequenino se torce o destino". Finalmente, 3 anos depois do "II", eis que Fausto grava, finalmente, o "seu Namoro", no álbum "A preto e branco" - o mais africano dos seus discos. Em vez de escolher um namoro, em vez de afirmar que não há amor como o primeiro, fico com os três. Fico com um tríptico, ao gosto de Fausto.
"Como à espera do comboio
na paragem do autocarro"

- Pai, ainda falta muito para chegarmos?
- Um bocadinho.
- Podemos fazer qualquer coisa, para passar o tempo?
- Podemos fazer rimas.
- Começas tu?
- Pode ser: Vamos para o norte / Ou vamos para o sul
- Ahhhh... hummm...
- Desculpa, filho, não deve haver muitas palavras a rimar com "sul".
- Já sei. Podes repetir?
- Sim. Vamos para o norte / Ou vamos para o sul.
- Vamos para a praia / Ou para a swimming pool.
Viu, Godinho? Se um dia destes, precisar de alguém para ajudar nas letras...
(que, como sabemos, não é o seu forte...)
É, acho que começo a gostar desse tal de Godinho.
Ainda a propósito da genialidade do vídeo de homenagem ao Sérgio Godinho.