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Ver, sem crer

por Miguel Bastos, em 19.04.24

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Patti Smith e Robert Mapplethorpe eram tão pobres, tão pobres, que iam, à vez, a museus, galerias ou cinemas. Um entrava, o outro ficava à porta, à espera. O primeiro tinha como missão contar o que viu, ao segundo. A capacidade de chegar ao objeto artístico, dependia da capacidade do primeiro contar o que viu; e do segundo de imaginar o que o primeiro teve oportunidade de ver. Patti conta esta história (e muitas outras) no livro "Apenas Miúdos". Fiquei muito sensibilizado pela história. Porque revela cumplicidade, generosidade, partilha. Porque me lembro de fazermos isso, em casa: por falta de dinheiro, de tempo, de idade. Porque me lembro de conseguir ver filmes, museus, cidades, concertos, nas palavras dos meus irmãos ou dos meus amigos. Porque  tenho pena que, cada vez mais, se insista em mostrar tudo, em ver tudo - apenas, para não ver nada.

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O agora

por Miguel Bastos, em 04.04.24

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Os Duran Duran pediram-lhe que produzisse uma canção. Mark Ronson ofereceu-se para produzir um álbum inteiro. Queria oferecer - à banda, aos fãs e a si próprio - um digno sucessor do álbum "Rio". Nessa altura, os Duran Duran já tinham tentado de tudo. Nem sempre, com sucesso. Por vezes, com fracassos gigantescos. Em 2004, depois de reunirem a formação original, editam o álbum "Astronaut". O disco não é grande coisa, mas a digressão foi um sucesso. Infelizmente, o guitarrista Andy Taylor saiu da banda e o álbum seguinte passou (novamente) despercebido. Daí, a importância deste "All you need is know" (um piscar de olho aos Beatles - "All you need is love" - ao passado da prória banda, mas também uma afirmação do presente). É um dos melhores discos dos Duran Duran. Tem músculo (na canção-título), tem dança ("Safe (In the Heat of the Moment)" e "Girl Panic"), tem baladas intimistas ("Leave a Light On") e momentos épicos ("Before the Rain" e "The Man Who Stole a Leopard"). Apesar de terem vários discos menos inspirados, os Duran Duran nunca deixaram de fazer boas canções. A diferença é que, neste disco, abundam as canções excelentes e o disco é bom, do princípio ao fim. Por mim, fica junto aos dois primeiros - como o fã Mark Ronson desejou. E conseguiu.

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Miúdos

por Miguel Bastos, em 25.03.24

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Sim, este livro tem sexo, drogas e rock and roll. Tem muito de tudo isso. Mas não foi isso, que mais me marcou. Foram outras coisas, como o desejo de ser artista (sem saber, ainda, de que arte) e a ternura entre os dois aspirantes a artista. Este livro é (mesmo!) sobre dois miúdos: os seus gostos, desejos, aspirações, sonhos. E é, sobretudo, sobre a relação entre os dois. Por isso, o maior êxito na carreira de Patti Smith (a canção "Because the night", escrita em parceria com Bruce Springsteen) é despachado em duas linhas. Já uma simples prenda de Robert para Patti pode espreguiçar-se por várias páginas, com descrições pormenorizadas sobre uma camisa em segunda mão, comprada por tuta e meia, numa loja manhosa, mas embrulhada num papel especial e amarrada com uma fita de um tecido raro. Esta ternura é uma espécie de flor, a romper na dureza da selva urbana. "Apenas miúdos" tem a beleza e a dureza das coisas nuas e cruas.

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Discos perdidos

por Miguel Bastos, em 01.03.24

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Há 20 anos, Agnetha Fältskog, dos ABBA, editou o disco "My colouring book". O título remete para os livros de colorir, da infância. O disco remete para as canções e os cantores que Agnetha ouviu na infância e que lhe moldaram o gosto. Encontramos, aqui, "crooners" dos anos 50, pioneiros do rock and roll e estrelas da pop dos anos 60. E canções de um tempo em que os autores não eram, necessariamente, os intérpretes. Em que as canções eram partilhadas por diferentes cantores. Em que as canções viajavam entre países, eram traduzidas, recebiam letras novas ou arranjos novos para se adaptarem aos intérpretes - por vezes, tão diferentes, que pareciam canções novas.

E é, assim, que encontramos "Fly me to the moon", em ritmo bossa nova, numa versão mais próxima de Julie London do que de Franka Sinatra. Ou "Love me with all of your heart", original dos cubanos Los Hermanos Rigual, que Agnetha canta num registo próximo da versão de Petula Clark , mas que a generalidade dos portugueses conhece na voz de Marco Paulo (Sempre que brilha o sol naquela praia... sinto o teu corpo vibrar dentro de mim...). E é, assim, que ouvimos "What now my love", canção de Gilbert Bécaud que tem dezenas de versões (não estou a exagerar) e que o mundo anglófilo conhece nas vozes de Shirley Bassey, Sinatra (ele, de novo) ou Elvis Presley. Grande parte dos arranjos de "My colouring book", são típicos da época das canções. Mas, na última canção ("What now my love", precisamente), a sonoridade é mais contemporânea. Ao ponto de ter procurado a ficha técnica, pensando que iria encontrar os U2 ou, pelo menos, a dupla Brian Eno / Daniel Lanois.

Infelizmente, o mundo, sempre atento a mais uma compilação dos ABBA, não reparou em "My colouring book". Mais um disco perdido. Mas pronto para ser descoberto.

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Shane MacGowan

por Miguel Bastos, em 01.12.23

Esta foi, talvez, a canção que mais vezes ouvi dos Pogues. Não é um hino, como "Dirty Old Town". Não provoca a exaltação de "Fiesta". Nem nos visita, todos os natais, como "Fairytale of New York" - o "Last Christmas" dos "alternativos". "Summer In Siam" combinava com o meu verão de 1990. Alimentou o meu imaginário, com um cenário de bar de hotel decadente, num oriente longínquo. Na rádio, com o seu piano elegante, a percussão subtil e o saxofone envolvente (credo, tantos clichés!), era a canção ideal para eu passar do Godinho à Aretha Franklin, do Caetano ao Marvin Gaye, do Nick Cave ao Sakamoto. Que canção! Ontem - depois de ter sido conhecida a notícia da morte de Shane MacGowan - celebrou-se a música celta, o espírito punk , a rebeldia e, também, a embriaguez (que sempre me deixou triste). Sim, percebo a homenagem. Mas, a mim, apeteceu-me recato. Apeteceu-me casa. Apeteceu-me "Summer in Siam".

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Quem?

por Miguel Bastos, em 28.11.23

- Esta semana, vamos ter os GNR no programa.
- Quem?
- GNR. Sabes quem são?
- A Polícia de Segurança Pública?!
- Não. Eu estava a falar da banda. Não conheces?
- Não. Eu não sou muito de bandas.
 
Eu, pelos vistos, também não. Destas bandas, pelo menos.

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Ser alemão

por Miguel Bastos, em 06.11.23

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A questão é identitária: como ser alemão, depois do nazismo e da destruição da Alemanha, no final da Segunda Guerra Mundial? Qualquer afirmação identitária, no final dos anos 60, fazia soar o alarme e ressuscitar fantasmas. De resto, ainda faz. O livro de Uwe Schütte sobre os Kraftwerk fala, abundantemente, sobre o assunto. Nascidos na Alemanha Ocidental, na cidade Düsseldorf, em plena região industrial do Reno-Ruhr, os Kraftwerk queriam fazer um tipo de música que se inspirasse e refletisse a cultura alemã. Começaram por negar todos os clichês da música pop-rock anglo-americana: os cabelos compridos, as calças de ganga, os casacos de cabedal, as poses "sexy", as guitarras. De seguida, assumiram a ideia estereotipada dos alemães: frios, disciplinados, eficientes, burocráticos. Visualmente, pareciam cientistas ou engenheiros ou académicos ou gestores. Definiram-se - não como artistas ou músicos - mas, como "trabalhadores". Era tudo tão exagerado, que alguns perceberam logo que havia um lado profundamente irónico e subversivo. Outros não perceberam, ou demoraram mais tempo a perceber. Exploraram temas relacionados com a ciência e a tecnologia, desenvolvendo (e personificando) a relação homem/máquina. E fizeram-no, buscando inspiração em várias referências artísticas alemãs, da República de Weimar: do cinema, da fotografia, do design ou da arquitetura. No fundo, defende Uwe Schütte, os Kraftwerk foram buscar muitas das ideias de futuro, nesse passado: fosse no cinema de Fritz Lang, ou no design da Bauhaus. Essa opção artística ajuda-nos a perceber porque é que, ao fim de mais de 50 anos, ainda faz sentido um livro com este título "Kraftwerk: Future Music from Germany". Porque é que os Kratfwerk ainda são futuro.

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Más línguas

por Miguel Bastos, em 20.10.23

 

- Esta música está-me a incomodar. É fraquinha, ou é impressão minha?
- Bem, depende dos gostos.
- Mas é alguma coisa de jeito?
- Costumam dizer que esta é a maior banda de rock do mundo.
- Quem é que diz isso?
- As más línguas. E as boas, também.

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Rádio gaiteira

por Miguel Bastos, em 28.09.23

Esta manhã, fez uma chamada para a corresponde em Londres.
A seguir, passou este "London Calling".
Só para chamar a atenção. Está toda gaiteira, a minha rádio.

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Estar morto

por Miguel Bastos, em 29.08.23

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"It's The Who, man!", escreve Phil Collins, a dada altura. Se eles o tivessem convidado para abandonar os Genesis, para se tornar o baterista da banda, ele tê-lo-ia feito. Nessa altura, Phil Collins estava quase no auge da popularidade, com os Genesis quase a conquistar o mundo e Phil quase a arrancar com a sua carreira a solo.
 
Em "Not dead yet", o comportamento de Phil Collins alterna entre a estrela consagrada e o fã dedicado. Viaja de limousine e de jato privado, anda de iate, priva com as celebridades, presta vassalagem à família real britânica, mas, ao mesmo tempo, admite que deixaria tudo, para substituir Keith Moon, nos The Who, e deixa a entender que faria o mesmo, para substituir John Bonham, nos Led Zeppelin. Phil vive anos e anos atormentado por não ter aparecido no disco de estreia de George Harrison, apesar de ter colaborado nas gravações. E adora tocar com Eric Clapton, um herói da sua juventude, que, entretanto, se tinha transformado em vizinho de casa e de bar.
 
Phil foi uma das maiores estrelas do mundo, usufruiu dos benefícios de ser uma das maiores estrelas do mundo, mas, mesmo assim, procurou sempre o reconhecimento dos seus pares: fossem eles Eric Clapton ou Robert Plant. E lamenta nunca ter tido o reconhecimento que a imprensa deu, por exemplo, ao seu amigo Peter Gabriel - a quem dirige sempre palavras amáveis.
 
"Not dead yet" ajuda-nos a perceber que Phil teve uma vida musical antes dos Genesis, e a perceber melhor as opções musicais que foi tomando, durante e depois dos Genesis.

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