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A voz

por Miguel Bastos, em 12.07.22

the doors.jpg

A bateria começa, marcial. "Daqui ninguém sai vivo", dispara a voz .
- Esta voz é péssima, pai.
- Achas?! Esta é das melhores vozes da história do rock!
- Estás a brincar, pai? O tipo não sabe cantar!
- Vou-te pôr o "Love Street". Quando quer, este tipo é um Sinatra.
- Ó pai, isto não é rock!
- Está esquisito, o menino!
- Desiste, pai. Não gosto.
- Não desisto. Por cada janela que se fecha... abrem-se portas.
- É ao contrário, pai.
- Era uma piada. The Doors... Percebes?
- Ahhh, posso trocar o disco?
- Não. Vamos ouvir.
- A sério, pai...?
- A sério.
Not to touch the earth... Not to see the sun...

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Duran in Rio

por Miguel Bastos, em 27.06.22

duran duran.jpg

Parece que é consensual: os melhores discos dos Duran Duran são os dois primeiros ("Duran Duran" e "Rio). Há quem junte o terceiro ("Seven and the Ragged Tiger"). E, depois, há dois singles fundamentais ("Wild Boys" e "A View to a Kill"). Para muitos, a banda morreu aqui: em 1985. Segue-se um "Rise and Fall" (sem "Ziggy Stardust") de várias décadas: o álbum "Notorious" dividiu os admiradores; os dois seguintes foram considerados uma desgraça. Porém, em 1993, voltam a ter dois clássicos ("Ordinary World" e "Come Undone"). Segue-se uma nova queda livre, de três discos. Até que, em 2004, a banda reagrupa a formação original e edita "Astronaut". O disco não é grande coisa e o guitarrista sai da banda, que insiste em derrapar. Em 2013, o produtor Mark Ronson (Adele, Amy Winehouse) anuncia aquele que deveria ter sido o sucessor de "Rio". A banda edita "All you need is now" e volta a ser "cool". Segue-se "Paper Gods", que lhes volta a dar um grande sucesso ("Pressure off"), e, finalmente, "Future Past".
 
Apesar dos altos e baixos, dizer que a banda acabou em 1985 não faz sentido. Mesmo nos discos menos inspirados, os Duran Duran têm boas canções. Enquanto os fãs e os outros discutem se o espetáculo do Rock in Rio foi o melhor ou o pior de sempre, eu olho para o alinhamento e abro a boca de espanto. É uma mistura de canções do último disco, com os sucessos até 85. Com, apenas, 3 exceções. Como se os Duran Duran dessem razão a quem lhes reduz a carreira à primeira metade dos anos 80 e lhes reduz a música a meia dúzia de clichés. Que pena!

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Vira o disco

por Miguel Bastos, em 06.06.22

ian anderson.jpg

Com a morte recente de Vangelis, voltei a ouvir "Friends of Mr. Cairo" - disco em parceria com Jon Anderson, dos Yes. E, depois, este "Walk into Light", de Ian Anderson, dos Jethro Tull. Sempre associei os dois discos: juntam dois cantores veteranos do rock progressivo (com nomes quase iguais, ainda por cima), com dois mestres da eletrónica - Vangelis e Peter-John Vettese. Os dois discos afastam-se do progressivo e enveredam por territórios pop, com uma sonoridade mais próxima de nomes como os Kraftwerk ou Ultravox. No caso de "Walk into Light", até os temas das letras se aproximam a estas bandas, com um certo gosto pela modernidade e pela tecnologia ("End Game", "User-Friendly") ou por uma certa ideia romantizada da Europa ("Different Germany"). Já não ouvia "Walk into Light" - com os seus sintetizadores, samples e caixas de ritmo - há muitos, muitos, anos (10? 15? 20?). E a verdade é que se ouve muito bem. Para já, vai ficar mais alguns dias a tocar no prato.

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Terra mar

por Miguel Bastos, em 17.05.22

O treino foi em terra, que havia tempestade no mar. O barulho da chuva - ora vai, ora vem - lembrava o som das ondas. Tudo se tornou monótono. "Vou pôr música, para animar", disse-nos o nosso capitão. A música dos Clash espalhou-se pelo pavilhão. Senti a metamorfose: de "índio da meia-praia", a "punk" da meia-idade.

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Empregado do mês

por Miguel Bastos, em 18.04.22

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Joe Jackson é um artista surpreendente. Começou na ressaca do punk, com uma mistura de pop, rock e reggae. Uma receita que o colocou perto de Elvis Costello ou dos Police. Ao quarto disco, porém, Joe Jackson deixou toda a gente de boca aberta, ao abordar standards do jazz e do swing, em "Jumpin' Jive". A seguir, numa altura em que as guitarras dominavam a pop britânica alternativa, manteve um certo tom "jazzy" e mergulhou na soul, no funk e na música latina. E, depois, na música clássica e contemporânea, novamente no jazz, e, mais tarde, regressou às guitarras. É difícil desenhar-lhe o percurso. Porque não é uma estrada. É mais o organograma exibido neste "Best of", de 1990. Com um organograma destes, voto em Joe Jackson para empregado do mês.

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Dois melómanos

por Miguel Bastos, em 24.03.22
pedro adão e silva.jpg
- Se bem percebi, vai ver os Divine Comedy.
- Vou, hoje à noite.
- Eu vou vê-los amanhã, em Lisboa.
- "Vê-lo". Vai ser um concerto de voz e piano.
- Ai, sim? Não sabia. O que é que achou dos últimos discos?
- Menos bons.
- Para mim, o "Victory For The Comic Muse" foi uma deceção.
- Também achei. Mesmo assim, tem o ...
- "A Lady Of A Certain Age"
- Exato, uma obra-prima.
- Isto, hoje, foi um bocado chato. Não achou?
- Um bocadinho técnico, mas...
- Mas já valeu a pena, para falar um bocadinho de música.
Dois melómanos, à conversa. Um deles, acaba de ser nomeado ministro da Cultura.
 
Canção aqui: https://www.youtube.com/watch?v=7e7tWw00FoM

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Não há cura

por Miguel Bastos, em 15.03.22

cave.jpg

Chegámos ao Porto, plenos de excitação. Íamos ver o Nick Cave, ao vivo. O Carlos veio-nos esperar de carro. "Podemos pôr uma musiquinha?", perguntou ele, "não tenho é Nick Cave, em cassete". Nesse tempo, copiavam-se os discos de vinil, que tínhamos em casa; para cassetes, para ouvir no carro. Os que tinham carro, claro. O Carlos roda a chave e um solo de sax, meloso, espalha-se pelo interior do Uno. Franzo o sobrolho. "Foi o mais parecido que encontrei". Reconheço a voz rouca de Leonard Cohen e continuo a estranhar o paralelismo. Naquela altura, para mim, Cohen era uma velha glória dos anos 60, que estava a envelhecer de uma forma duvidosa, como tantos outros da sua geração. Mesmo assim, o Carlos insistia: "acompanhem-me no refrão" e o Unu, em uníssimo, passou a gritar "There ain't no cure / There ain't no cure / There ain't no cure for love". O Uno, de vidros abertos, a serpentear pelas ruas da baixa. O Uno a espalhar amor e música e poesia e tabaco, pela cidade do Porto. Depois, entrámos no Coliseu para ver e ouvir o nosso herói. Mas, Leonard Cohen não me saía da cabeça. Ao ponto de achar, na altura, que também estava na cabeça de Nick Cave. De resto, continuo a achar.

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Alvalade

por Miguel Bastos, em 09.03.22

Os meus amigos andavam doidos com o Sporting. Com os golos do Jordão e do Manuel Fernandes. Eu bem tentava, mas não conseguia partilhar o entusiasmo.
- Não gostavas de ir ao Estádio de Alvalade? - perguntava-me o João Manuel.
- Claro que sim - respondia.
Punha-me a pensar na viajem, longa; na cidade, esmagadora; no estádio, monumental. Uma aventura, que fazia com que o jogo, em si, me parecesse menos penoso. E, com um bocado de sorte, haveria tremoços e pevides.
- Se calhar, vou com o meu pai. E tu podes vir connosco.
- Uau, isso é que era!
Eu tentava mostrar entusiamo, quando fui surpreendido pelo anúncio: o Júlio Isidro ia trazer os Fischer-Z a Portugal, ao Estádio de Alvalade. Encontrei o João Manuel:
- Olá Jomané, como é que está aquilo de irmos ao Estádio?
- O meu pai diz que está à espera de um jogo que valha a pena.
- Achas que dava para irmos ver os Fischer-Z?
- Quem?
- É uma banda de rock.
- O meu pai gosta é do Jordão!
- Isso é porque nunca viu os Fischer-Z, ao vivo!
Acho que nunca chegou a ver. Nem eu. Mas fui ao Estádio de Alvalade, ver concertos de rock. E, vendo bem, não me importava de ter visto um golo do Jordão, ao vivo. Desde que houvesse tremoços e pevides.

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Palavras ao vento

por Miguel Bastos, em 13.01.22

Jarvis Cocker, a voz dos Pulp, tem ouvido de tísico e "olho de Balzac". No seu disco mais recente, "Chansons d'Ennui", o personagem transgressor da britpop assume o papel de uma estrela pop francesa. Em "Paroles, paroles", Cocker faz de Alain Delon, a contracenar com Dalida (papel desempenhado, aqui, por Lætitia Sadier). É a canção em que um Delon, sedutor, diz coisas como "Tu és o ontem e o amanhã" ou "Tu és como o vento que faz cantar os violinos e espalha o perfume das rosas" e Dalida reponde "Caramelos, bombons e chocolates" ; "Podes dá-los, a outras que amem o vento e as rosas". Ele insiste: "Não percebo". Ela explica, no refrão: "Palavras, palavras, palavras" ; "Palavras que semeias ao vento".
Dalida resiste, portanto, à canção do bandido. Lætitia também. Eu não. E Jarvis Cocker é um ótimo bandido.

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Bowie 75

por Miguel Bastos, em 08.01.22

bowie.jpg

Ter dois amigos ou familiares, que não se gostam, na sala de estar, é das coisas mais embaraçosas que existem. Tendencialmente, achamos que, se a pessoa A gosta de nós e a pessoa B também, elas devem-se gostar entre si. Infelizmente, descobrimos que, muitas vezes, não é assim. E passamos a ter que convidar um ou outro, alternadamente. Passa-se o mesmo, com os nossos heróis.
No livro "Verdade tropical", Caetano Veloso escreve acerca da surpresa que teve, ao descobrir que o seu herói, João Gilberto, não gostava de Chet Baker. Confesso que também fiquei surpreendido. E, mais ainda, ao descobrir, no mesmo livro, que o meu herói, Caetano, não gostava de David Bowie. Não dá a entender, diz, preto no branco, que não gosta. Sem se importar com os meus sentimentos. Bowie também é o meu herói (com Caetano e Godinho, compõe, talvez, a minha "Santíssima Trindade"). Bowie faria, hoje, 75 anos. Hoje, vou juntá-lo, na minha sala, com Caetano. Pode ser que resulte. Nem que seja "Just for one day". Veremos.

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