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O que é que se passa

por Miguel Bastos, em 15.06.20

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Racismo, violência policial, pobreza, desemprego, manifestações: eis o que o irmão de Marvin Gaye encontrou nos Estados Unidos, ao regressar da guerra do Vietnam. Marvin inspirou-se nesse regresso para escrever novas canções e acrescentou os seus dramas pessoais: a morte da cantora Tammi Terrell, a instabilidade do seu casamento ou a relação difícil com a sua editora. Com o debate racial, de novo, em cima da mesa tive vontade de regressar a "What's going on". Poderia ser um disco escuro, amargo e violento. Mas, curiosamente, Marvin Gaye canta sobre a morte das pessoas ou do planeta, com a sua voz doce de sempre e sobre um tapete sonoro elegante, sensual e sofisticado.

Marvin Gaye assinou a sua obra prima, há quase 50 anos. O disco permanece, surpreendentemente, actual: pelas melhores e pelas piores razões.

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Jarabe de Palo

por Miguel Bastos, em 09.06.20

Morreu Pau Donés, cantor dos Jarabe de Palo. A banda espanhola/catalã (pouco conhecida em Portugal) dedicou-se a misturar pop, rock e blues, com música latina e rumba catalã. Por estes dias, em que o racismo voltou a ser falado pelas piores razões (e é sempre pelas piores razões) lembrei-me muitas vezes deste tema: "En el puro no hay futuro" mistura vários estilos musicais, numa canção que enaltece a mistura racial. Diz o refrão :

"Señores, en lo puro no hay futuro
Señores, la pureza está en la mezcla
Señores, en la mezcla de lo puro
Señores, que antes que puro fue mezcla"
 
O resto da canção também é uma delícia. O Jarabe (Xarope) é que está menos doce.

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O Lãzinha

por Miguel Bastos, em 19.02.20

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"Eu aplaudo os golos dos jogadores negros" é a nova versão do "eu até tenho amigos negros". Claro que todos os benfiquistas aplaudiram os golos do Coluna, todos os sportinguistas aplaudiram os golos do Jordão, todos os portistas aplaudem os golos do Marega. Não é aí que está a questão. A questão está em saber como é que a generalidade de portugueses lidam com os golos marcados pelos adversários negros. Ou como é que os portugueses lidam com os golos falhados pelos jogadores negros da sua equipa.
 
Eu também tive um amigo negro. Andava na minha escola, foi da minha sala e, ainda por cima, marcava imensos golos. Chamava-se Rui. Todos queriam ser da equipa dele. A rapidez, o passe, o drible e a ginga do Rui eram metade do sucesso da equipa onde ele jogasse. O Rui vinha da Guiné: era magricela, tinha a pele escura, o sorriso branco e um cabelo que parecia um novelo de lã. Chamávamos-lhe o "lãzinha". Mas, às vezes, chamavam-lhe "preto da guiné": bastava que o Rui marcasse um golo ao adversário ou que falhasse um golo a favor da sua equipa. Calculo que ficasse triste. Perguntei-lhe algumas vezes se ficava triste. Ele encolhia os ombros e dizia que não. Chutava para canto. Podia falhar um remate, mas o Rui era incapaz de marcar golos na própria baliza.

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O bom gigante

por Miguel Bastos, em 18.02.20

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Um dia, não aguentou mais. O jogador, com cerca de 2 metros de altura, pegou num banco sueco, com cerca de 3 metros, e fê-lo rodar, varrendo a bancada de onde vinham os insultos. Aquele gigante negro provocou, em mim, uma explosão de emoções: surpresa, espanto, medo, riso, alívio, redenção. Eu estava na barricada certa, mas na bancada errada. Aquele bom gigante estava a ser vítima de um tratamento indigno, que me deixou envergonhado, enojado, revoltado. Aquele banco a rodar sobre os infames pareceu-me a reposição da justiça, digna de um filme. Habitualmente doce e amável, o gigante negro, agora acossado e ferido, transformava-se em super-herói, à nossa frente, para gáudio de todos nós.

Foi há quase 40 anos, num jogo de basquetebol, da segunda divisão. Esta coisa não é nova, não é portuguesa, nem é do futebol. Isto é coisa da guerra. A guerra atrai milhares de pessoas aos recintos desportivos. E, na guerra, vale tudo: não se limpam armas, não se olha a meios, não se olha a gente. 
 
[Foto Hugo Delgado]  

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É o raça

por Miguel Bastos, em 12.07.17

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Lá em casa, tivemos sempre  problemas com o "raça". Assim mesmo, com artigo masculino. Perante a minha irrequietude, a minha mãe dizia: "o raça do rapaz não pára quieto". Ou "o raça do rapaz nunca está calado". O "raça", portanto. O "raça", dizem os dicionários mais nobres, é uma expressão popular para exprimir descontentamento, irritação, contrariedade.

 

Lá em casa, o "raça" da torneira não funcionava, apesar dos esforços do meu pai. O "raça" do vizinho estacionava a camioneta à nossa porta. E o "raça" do forno queimava o assado de domingo. O "raça" levava sempre com a culpas. A raça também.

 

No livro "Brasil: Uma biografia", as historiadoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling contam-nos que, no século XIX, o "raça" dos brasileiros estavam preocupados com a raça. Para "purificarem" a raça brasileira, "ameaçada" pela sobrevivência dos índios e pela proliferação dos negros, os brasileiros queriam importar pessoas brancas e louras da Europa. Que "raça" de ideia!

 

Na Bósnia dos anos de 1990, a coisa foi mais difícil. Sem negros, nem índios, era preciso distinguir o "raça" de um eslavo do sul, do "raça" de outro eslavo do sul. Neste caso, a religião, explica Tim Butcher no livro "O Gatilho", serviu para dividir o que Deus uniu. E, depois de divididos, foi o "raça". Chamaram "limpeza étnica" à matança mais suja, levada a cabo na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial.

 

"Raça" é isto: na Cova da Moura ou na cidade de Mossul. E é o raça.  

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Ó tio, ó tio

por Miguel Bastos, em 10.07.17

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Há um mês, celebrámos o 10 de Junho. Em tempos, foi o dia da raça. Já não é, e ainda bem. Sobrinho Simões começou o seu discurso, por aqui. Não temos pureza de raça - disse ele, mas somos especiais. Temos uma herança genética, que acolhe e dissemina os genes da humanidade. Porque temos genes europeus, ameríndios, africanos. Porque temos uma herança judaica e árabe. Porque navegámos, colonizámos, emigrámos. E, com isso, espalhámos genes e (até) doenças.

 

Somos especiais - disse Sobrinho Simões, no Dia de Portugal. Porque temos dado passos de gigantes: na educação, na saúde, na ciência, na inovação. Formámos novas elites. Mas, o privilégio - considera, tem de ser acompanhado de responsabilidade. Temos que ser exemplares, de cima para baixo.

 

Uma semana depois do discurso do médico, professor, investigador e patologista, começaram os fogos em Pedrógão Grande. Fiquei a pensar em Sobrinho. É preciso ouvir Sobrinho, neste país em que andamos sempre “ó tio, ó tio”.

 

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São todos iguais?

por Miguel Bastos, em 22.11.16

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"São todos iguais! Querem é tacho! Só pensam neles! Só falam connosco para pedir votos! Eu não voto! Não quero saber! São todos iguais!" Não é verdade. Os políticos não são todos iguais. É verdade que são parecidos. E, às vezes, são tão parecidos, que parecem iguais.

 

O fim do império soviético e da guerra fria, e a vitória do capitalismo, fez-nos dispensar a Política e tornou os políticos ainda mais iguais. Durante um tempo pareceu que se devia tomar decisões, apoiadas, apenas, na técnica. Cresceram os mercados e os tecnocratas. Diminuiu a lei, o Estado e a política. Desapareceu a ideologia.

 

E foi crescendo a demagogia, o populismo, que descamba, facilmente, para o racismo e a xenofobia. Os políticos não são todos iguais. Basta olhar para Trump, Farage, Boris Johnson, Marine Le Pen, Putin, Viktor Orbán. O que me deixa triste é que eu sempre achei que as pessoas mudariam de opinião, com os bons exemplos. Não mudaram. Ao menos, que mudem com os maus.

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Os outros

por Miguel Bastos, em 03.09.15

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Durante as férias, temos mais tempo para conversar. Com a nora do Senhor Rodrigues, por exemplo. A conversa passou por Londres, onde a senhora viveu. Foi  emigrante.

 

Alguém falou do ambiente cosmopolita de Londres: diferentes etnias, religiões, cores de pele, orientação sexual, línguas, sotaques. O postal turístico de uma grande cidade europeia. Mas, rapidamente, a coisa evoluiu para os que não se querem integrar, que não trabalham, que vivem da segurança social, que se reproduzem como coelhos, etc. Numa altura em que o Eurotúnel está entupido e Calais rodeado de arame farpado, eis o emigrante, com um discurso racista.

 

Infelizmente, não surpreende. Há uns anos vi emigrantes portugueses em França, numa manifestação de apoio à Frente Nacional. “Então mas os senhores apoiam um partido que é contra os emigrares?”, perguntava um repórter da RTP. “O Le Pen gosta dos portugueses. Ele não gosta é dos ‘magrebes’, que vêm para cá e não querem trabalhar”. Pois, é sempre assim. São sempre os outros.

 

Será que a imagem de uma criança morta a dar à costa, na Turquia, muda alguma coisa?

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