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Dia de Portugal

por Miguel Bastos, em 10.06.22

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Dia de Portugal. Este dia, que já foi da raça, é, agora, das Comunidades. O Presidente vai ao encontro delas, espalhadas pelo estrangeiro. Todos os anos, voa para um sítio diferente. Mas há, também, novas comunidades a nascer. Pessoas que vieram de fora, mas que, também, já são de cá. Falam português, comem bacalhau e têm filhos que, por vezes, são tão (ou mais) portugueses do que dos países dos pais. E que se sentem tão portugueses, como os meninos que são filhos de pais que nasceram na Beira, no Minho ou no Alentejo. Hoje, ouvi meninos a cantar a história de Portugal e das suas várias regiões. Varri o palco, com o olhar, e vi meninos de várias origens. Pensei nos que têm origens na Rússia, na Bielorrússia ou na Ucrânia. E pensei que Portugal é um Dia Bom.

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Paula Rego

por Miguel Bastos, em 09.06.22

O que pintaria, hoje, Paula Rego? Não sabemos. Nunca saberemos. Sabemos, no entanto, o que pintou Paula Rego, depois de ter visto a lei do aborto ser arrastada para um referendo e depois da maioria dos portugueses ter optado por não votar. Nessa altura, Paula Rego revelou que recorreu ao aborto clandestino quando era estudante de artes, no Reino Unido dos anos 50. Voltou a lembrá-lo, recentemente, quando a reversão do aborto voltou a ser discutida nos Estados Unidos. Hoje, em Portugal, volta-se a discutir a lei da eutanásia. Há quem volte a usar os mesmos argumentos: a discussão foi muito apressada; é preciso convocar um referendo. O marido de Paula Rego morreu, há mais de 30 anos. Viveu 20 anos com esclerose múltipla. Sobreviveu a uma tentativa de suicídio, mas não à doença. Paula Rego morreu, ontem, aos 87 anos. Não sobreviveu, no entanto, à imortalidade.

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Timor, 20 anos

por Miguel Bastos, em 19.05.22

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Timor-Leste a caminho dos 20 anos. A jornalista Rita Colaço a fazer (belíssimas) reportagens, na Antena 1. Esta manhã, entrevistou José Ramos-Horta que, amanhã, toma posse como presidente da República. Releio este parágrafo, sobre o golpe de Estado na Indonésia, que, em 1965, instalou Suharto no poder: "Ao todo, foram mortas pelo menos 500 mil pessoas (...) Numa zona do país, os rios ficaram tão repletos de cadáveres que a água deixou de correr." Não é de admirar que um governo, que nasceu com esta violência, não tenha tardado a impor essa mesma violência aos vizinhos mais próximos. 20 anos, Timor. Foi quase um milagre. É quase um milagre.

A entrevista pode ser ouvida aqui: https://www.rtp.pt/play/p517/e618147/espaco-das-10

O parágrafo pertence ao livro "A Guerra Fria", de Odd Arne Westad.

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Sexta vaga?

por Miguel Bastos, em 13.05.22
A Covid existe. Existe, independentemente de juízos de valor. Existe, e não se extingue por decreto, nem por vontade, nem por fadiga. Portugal pode estar à beira de uma sexta vaga da Covid-19. Ontem, a área Covid, do Hospital de São João, ficou cheia. O índice de transmissibilidade ronda 1,17. Voltou a ser ultrapassado o número de 20 mil casos, num só dia. (Os dados vão ser atualizados, hoje.) A linha SNS 24 recebeu perto de meio milhão de chamada, nos últimos dias. O governo vai antecipar o reforço da vacinação para maiores de 80 anos, a partir de segunda-feira, e admite o regresso dos testes gratuitos nas farmácias. Vários especialistas consideram que o fim das máscaras, nos locais de trabalho, está a provocar um excesso de contágios. O regresso dos grandes eventos dá uma ajuda. Enquanto os números sobem, os meios de combate à pandemia foram ou estão a ser desmobilizados. O problema não é, apenas, nacional. Esta semana, os especialistas da União Europeia deixaram de recomendar o uso de máscara, em aviões e aeroportos. Neste jogo do "tira e põe", uns sugerem mais medidas de proteção, outros o regresso "à vida normal" - como se este pudesse ser realizado por decreto.

Sim, eu também sou "contra" a Covid. Mas o vírus não quer saber nada disso.

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Dia da língua portuguesa

por Miguel Bastos, em 05.05.22

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Palavras, no dia da língua.
 
"Tu tens de aprender a guardar as coisas de pensar. Se souberes escrever, as folhas de papel serão caixinhas onde podes arrumar com palavras tudo aquilo que não queres esquecer. E as folhas de papel, tão planas e aparentemente vazias, adquiriam fundura, uma dimensão inesperada, porque se eu soubesse escrever pirilampo, para sempre um pirilampo estaria ali, talvez até de cauda acesa, à minha espera. Meu, sem ir embora. Eu disse: é a minha palavra preferida. A minha mãe respondeu: eu sei."
 
Valter Hugo Mãe, Contra mim, 2020

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Os Sobreviventes

por Miguel Bastos, em 04.05.22

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50 anos, faz este disco, 50. Meio século deste disco, de uma vida. A minha. Foi o Júlio quem mo deu. Primeiro, emprestou-mo. Ouviu-o de um lado e do outro, depois do outro lado e do outro e do outro. Tem dois lados, eu sei. Quem diria. Quando achei que já o tinha ouvido de todos os lados, depositei-o nas mãos do Júlio. "Fica com ele", disse-me. "Nem pensar". "A sério", insistiu, "tu gostas mais dele, do que eu". "Até pode ser, mas é teu". "Esquece, eu gosto mais de rock". "Mas, este, até tem um bocado de rock", digo-lhe. "É, mas tem demasiado Bob Dylan. E eu sou mais Rolling Stones". Certo. Dos Rolling Stones, o Júlio passou para os Metallica e para bandas que nem gosto, nem conheço. Eu fui para outros lados, mantendo o Godinho por perto, deixando o Júlio fugir para longe. Este é um disco de viagem. De tantas viagens. Os Sobreviventes.

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Abril

por Miguel Bastos, em 26.04.22

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Abril, na mão do mais novo. Abril, sempre novo.

 

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A tia

por Miguel Bastos, em 17.03.22

"No outro dia, estive na estalagem." A tia arqueou as sobrancelhas. "Na estalagem, onde trabalhou." Acenou com cabeça. "É muito bonita. A entrada, com aqueles azulejos, pequeninos, pintados à mão." Sorriu. "A salinha do café, com aquelas cadeiras de pele, baixinhas." Sorriu, de novo. "Não cheguei a ir à sala de jantar." Silêncio. "É bonita?" Encolheu os ombros. "A sala de jantar", insisti. "Nunca lá entrei", respondeu. "A sério? Trabalhou lá tantos anos!" "O pessoal da cozinha", disse, num fio de voz "não podia ir à sala." "Nem quando estava vazia?" Abanou a cabeça. Não. A nenhuma sala. Era, assim, o Portugal dos pequeninos. Dos pobrezinhos, do respeitinho. Gostava de ter ido à estalagem, com a tia. Não fui. Fecharam, as duas, há vários anos.

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Morreu Lauro António

por Miguel Bastos, em 03.02.22

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Lauro António morreu, hoje. Tinha 79 anos. Reproduzo, de cabeça, uma entrevista que lhe fiz, há uns anos.
 
- Como deve imaginar, já me fizerem essa pergunta dezenas de vezes.
- Como deve calcular, vou-lhe fazer várias perguntas que, provavelmente, já lhe fizeram anteriormente.
- Certo. E a pergunta era...?
- Qual é que é o filme mais importantes da sua vida?
- Eu diria, talvez, o "Bambi".
- Mas sabe que já escolheu outros: "Citizen Kane", de Orson Wells; "O Leopardo", de Visconti... a sua escolha depende de quê?
- Depende do meu estado de espírito. Hoje, pode ser um filme; amanhã, pode ser outro.
- Portanto, hoje é um dia "Bambi". É um dia bom?
- Hoje, é um dia bom. Estou aqui, a falar de cinema.
 
E a responder às minhas perguntas banais, com uma enorme elegância. Obrigado, Lauro António.
 

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Insondagens

por Miguel Bastos, em 31.01.22

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Portanto, se bem percebi: são insondáveis os caminhos deste senhor.

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