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Gira, a seleção!

por Miguel Bastos, em 24.11.22

pauleta.jfif 

- Portanto, vamos ver futebol...
- O que é que achas? Hoje, é a seleção!
- Jogamos em casa?
- Isto é o Mundial, Ana, ninguém joga em casa! Só a equipa organizadora.
- Certo, certo. Somos os de vermelho?
- O que é que achas?
- Sei lá! Às vezes, jogamos de outra cor.
- Isso é quando jogamos com o equipamento alternativo.
- E como é que eu sei se estamos com o equipamento normal ou o alternativo?
- Sabes, conhecer os jogadores ajuda!
- Então, ajuda-me.
- Aquele é o Sérgio Conceição...
- Giro, não conhecia! E este?
- Vítor Baía. É o guarda redes.
- Hum, interessante... Aquele é o Figo...
- Estás a ver? Afinal, conheces alguns jogadores.
- A minha mãe compra a Caras, Manel. E ele é giro...
- Pois, diz que sim...
- E não é o único, o que é que se passa com os nossos jogadores?
- Como assim?
- Eram horríveis, com aqueles bigodes e as cabeleiras...
- Nem todos.
- Tu não tinhas bigode, mas aquele cabelinho atrás...
- Mas, depois, cortei. E fiquei todo giro!
- Mais ou menos. Desde que deixaste o futebol, ganhaste uns 20 quilos.
- Nunca estás satisfeita.
- Podias ser como aquele.
- Quem, o Pauleta? Não joga nada.
- Isso não sei. Mas é giro que se farta!
- Adoro ver futebol contigo, Ana.
- Eu também, amor.

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Eucaliptos

por Miguel Bastos, em 14.10.22

eucaliptos.jpg 

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901
 
"- Oh, Zé Fernandes, quais são as árvores que crescem mais depressa?
 - Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de eucaliptos... "
 
Já não falta tudo. Os grandes Incêndios, na região centro, foram há cinco.

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Mário Barreiros

por Miguel Bastos, em 11.10.22

MARIO BARREIROS CASA MUSICA.png

"Que engraçado", pensei, "o tipo dos Jáfu'mega anda a tocar jazz com o António Pinho Vargas". Na minha cabeça, Mário Barreiros tinha trocado a guitarra pela bateria, e o rock pelo jazz . Afinal, (soube depois) a coisa já vinha de trás e manteve-se à frente. Reencontrei Mário Barreiros na banda de Rui Veloso e em várias formações de jazz. Antes, mesmo, de se transformar num produtor omnipresente em Portugal, com a sua marca e o seu vasto talento em discos de Pedro Abrunhosa, Clã, Ornatos Violeta, Silence 4, David Fonseca, Blind Zero, Da Weasel ou Xutos e Pontapés. Mário Barreiros continua a tocar bateria. Amanhã (não faço ideia) poderá estar a tocar com os The Gift. Hoje, de certeza que não: tem dois quartetos, para levar à Casa da Música.

https://www.rtp.pt/noticias/cultura/mario-barreiros-vai-apresentar-ao-vivo-novo-disco-dois-quartetos-sobre-o-mar_a1438846

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Grande e pequeno

por Miguel Bastos, em 30.09.22

Portugal é um país grande e pequeno, ao mesmo tempo. Isso, deixa-nos confusos. Às vezes, queixamo-nos da nossa pequenez: somos mais pequenos do que uma cidade americana ou asiática. Outras vezes, somos muito grandes: é, por isso, que é tudo muito longe. Essa dualidade reflete-se em discussões como a localização do novo aeroporto de Lisboa ou a colocação de médicos e professores no "interior" (no fundo, tudo o que seja a mais de 50 km da costa). Portugal é um país muito centralista. O conceito está interiorizado, mesmo naqueles que têm um discurso descentralizador.

Trabalho numa empresa que tem Portugal no nome. Que tem muitas das qualidades e defeitos dos portugueses. Mas, que faz um esforço (nem sempre conseguido, reconheça-se) para descentralizar. É, por isso, que tem vários jornalistas espalhados pelo país. Para que possam relatar os factos da região onde estão. Mas que possam, devam e reportem realidades de outras regiões ou outros países. E fazem-no, frequentemente. São jornalistas, de corpo inteiro.

Ontem, por razões técnicas e logísticas, os noticiários da Antena 3 foram emitidos a partir de Coimbra. Haverá quem ache isso extraordinário e quem ache que isso não é assunto. Por mim, acho graça que o tipo de Aveiro - que, habitualmente, trabalha a partir do Porto - vá ali, a Coimbra, fazer uns noticiários para todo o país (para todo o mundo) numa emissão que, habitualmente, é feita em Lisboa. Pequeno e grande, ao mesmo tempo.

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SNS

por Miguel Bastos, em 15.09.22

O Serviço Nacional de Saúde faz anos, hoje. É mais novo do que eu. Eu sei, não parece. Mas, isso, é porque ele me trata da saúde. Há 43 anos. 

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Aldeamento de luxo

por Miguel Bastos, em 28.07.22

pines.jpg

Ao saber que as chamas rodeavam o aldeamento de luxo, o comentador questionou a importância do ordenamento da floresta. Sim, defendeu, porque o empreendimento estava bem ordenado, cuidado e limpo e, mesmo assim, estava a arder. Não sei dizer se estava, ou não, bem ordenado. Vamos partir do princípio que sim. Isso não invalida nada. Pelo contrário. O que aconteceu é que o fogo chegou à zona ordenada, alimentado e robustecido por vários quilómetros de floresta desordenada, habitada pela tradicional monocultura de espécies exóticas. E os problemas da floresta (como todos os outros) não se resolvem com condomínios de luxo, que não nos protegem de coisa nenhuma. Às vezes, pode ser injusto. Mas, o contrário também seria.

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Lesboa

por Miguel Bastos, em 21.07.22

lesboa.jpg

- Lesboa? Lesboa?! Ó pai, a avó diz "Lesboa"!
- É natural, filho, a avó viveu muitos anos em Lisboa.
- E... ?!
- E, em Lisboa, há muitas pessoas que dizem "Lesboa".
- E porque vivem em Lisboa, podem dizer mal "Lisboa"?
- É como com a família...
- Com a família..?
- Sim, nós podemos dizer mal, mas não admitimos que os outros falem mal da nossa família.
- Ai é? Nós podemos falar mal da nossa família?
- Sim, mas não te estiques, senão...
- Senão, o quê? Mandas-me para Lesboa, é?

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Dia de Portugal

por Miguel Bastos, em 10.06.22

portugal.jpg

Dia de Portugal. Este dia, que já foi da raça, é, agora, das Comunidades. O Presidente vai ao encontro delas, espalhadas pelo estrangeiro. Todos os anos, voa para um sítio diferente. Mas há, também, novas comunidades a nascer. Pessoas que vieram de fora, mas que, também, já são de cá. Falam português, comem bacalhau e têm filhos que, por vezes, são tão (ou mais) portugueses do que dos países dos pais. E que se sentem tão portugueses, como os meninos que são filhos de pais que nasceram na Beira, no Minho ou no Alentejo. Hoje, ouvi meninos a cantar a história de Portugal e das suas várias regiões. Varri o palco, com o olhar, e vi meninos de várias origens. Pensei nos que têm origens na Rússia, na Bielorrússia ou na Ucrânia. E pensei que Portugal é um Dia Bom.

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Paula Rego

por Miguel Bastos, em 09.06.22

O que pintaria, hoje, Paula Rego? Não sabemos. Nunca saberemos. Sabemos, no entanto, o que pintou Paula Rego, depois de ter visto a lei do aborto ser arrastada para um referendo e depois da maioria dos portugueses ter optado por não votar. Nessa altura, Paula Rego revelou que recorreu ao aborto clandestino quando era estudante de artes, no Reino Unido dos anos 50. Voltou a lembrá-lo, recentemente, quando a reversão do aborto voltou a ser discutida nos Estados Unidos. Hoje, em Portugal, volta-se a discutir a lei da eutanásia. Há quem volte a usar os mesmos argumentos: a discussão foi muito apressada; é preciso convocar um referendo. O marido de Paula Rego morreu, há mais de 30 anos. Viveu 20 anos com esclerose múltipla. Sobreviveu a uma tentativa de suicídio, mas não à doença. Paula Rego morreu, ontem, aos 87 anos. Não sobreviveu, no entanto, à imortalidade.

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Timor, 20 anos

por Miguel Bastos, em 19.05.22

timor.jpg

Timor-Leste a caminho dos 20 anos. A jornalista Rita Colaço a fazer (belíssimas) reportagens, na Antena 1. Esta manhã, entrevistou José Ramos-Horta que, amanhã, toma posse como presidente da República. Releio este parágrafo, sobre o golpe de Estado na Indonésia, que, em 1965, instalou Suharto no poder: "Ao todo, foram mortas pelo menos 500 mil pessoas (...) Numa zona do país, os rios ficaram tão repletos de cadáveres que a água deixou de correr." Não é de admirar que um governo, que nasceu com esta violência, não tenha tardado a impor essa mesma violência aos vizinhos mais próximos. 20 anos, Timor. Foi quase um milagre. É quase um milagre.

A entrevista pode ser ouvida aqui: https://www.rtp.pt/play/p517/e618147/espaco-das-10

O parágrafo pertence ao livro "A Guerra Fria", de Odd Arne Westad.

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