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O mestre e a obra-prima

por Miguel Bastos, em 21.11.22

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"Não se deve confundir", diz a expressão, "a obra-prima do mestre, com a prima do mestre-de-obras". "Por este rio acima" é uma obra-prima e acaba de fazer 40 anos. Baseado nas viagens de Fernão Mendes Pinto, as letras do disco são um mergulho nas profundezas dos descobrimentos. Por vezes, o mergulho exige apneia: cheira a morte, a doença, a carne queimada e esventrada. Não há, aqui, qualquer exaltação ao lado bravo, guerreiro e conquistador - apenas, o lado escuro dos descobrimentos. A riqueza das letras é tão grande que acabou por secundarizar, involuntariamente, a riqueza das canções, dos arranjos, dos instrumentos. As percussões tradicionais portuguesas, mas também as tablas e as baterias; a guitarra portuguesa e o cavaquinho, mas também o alaúde e a viola de gamba; o piano acústico e os sintetizadores; as cordas e os instrumentos de sopro; tantos instrumentos que acompanham a voz e a viola acústica de Fausto, omnipresentes, que, ora nos levam para paisagens exóticas e longínquas; ora nos trazem de volta a Portugal, com ritmos e melodias que nos são familiares. Obra-prima.
 
"Por este rio acima" é um álbum duplo, denso, conceptual, com um pequeno "libreto" ilustrado no interior. A viagem cresceu para trilogia, de forma tão avassaladora que (porventura) acabou por se sobrepor à obra integral de Fausto, que pode/deve ser (re)descoberta. Estamos perante um caso em que não se confundiu "a obra-prima do mestre, com a prima do mestre-de-obras", mas em que, por causa da obra-prima, se poderá terdeixado de reconhecer, devidamente, o mestre que a criou.

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Dia de greve

por Miguel Bastos, em 18.11.22

A coisa que eu mais gosto, num dia de greve, é a quantidade de vezes que se ouve a palavra "inalienável".

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Portunhol

por Miguel Bastos, em 29.10.22

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"Não falo espanhol nem portunhol". Foi desta forma que o candidato Jair Bolsonaro resolveu responder à pergunta do jornalista Pedro Sá Guerra. O Pedro falou-lhe em português - a língua oficial do Brasil - o candidato fingiu não perceber a sua própria língua. Quis-se mostrar arrogante, mas acabou por se mostrar analfabeto. "Quem diz é que é" - uma das frases mais sábias que guardo da infância - pode ser aplicada aqui. 

A reportagem pode ser vista aqui:

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/bolsonaro-replica-a-pergunta-da-rtp-que-nao-fala-espanhol-nem-portinhol_v1443531 

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Janela p'ro mar

por Miguel Bastos, em 20.07.22

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"Na boca da barra e mesmo defronte / Daquela janela virada pr'ó mar". Lembrei-me do Tristão, neste dia feliz.

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Chéquia

por Miguel Bastos, em 26.05.22

Estamos a aderir à substituição da designação "República Checa", por "Chéquia".
Convenhamos, Chéquia não parece o nome de um país.
Parece o imperativo do verbo "to check", em português do Brasil.
Mesmo assim, podia ser pior. Por exemplo, "Verifique-a".

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Dia da língua portuguesa

por Miguel Bastos, em 05.05.22

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Palavras, no dia da língua.
 
"Tu tens de aprender a guardar as coisas de pensar. Se souberes escrever, as folhas de papel serão caixinhas onde podes arrumar com palavras tudo aquilo que não queres esquecer. E as folhas de papel, tão planas e aparentemente vazias, adquiriam fundura, uma dimensão inesperada, porque se eu soubesse escrever pirilampo, para sempre um pirilampo estaria ali, talvez até de cauda acesa, à minha espera. Meu, sem ir embora. Eu disse: é a minha palavra preferida. A minha mãe respondeu: eu sei."
 
Valter Hugo Mãe, Contra mim, 2020

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Ficção e realidade

por Miguel Bastos, em 07.03.22

- Hoje à noite, vou a partir a tua casa toda.
- Oh, que horror! E, agora, para onde é que eu vou?
- Podes ir para minha casa. Lá estarás em segurança.
- Obrigado.
Este diálogo parece ficção portuguesa, de má qualidade.
Infelizmente, é realidade ucraniana, de triste atualidade.
Se fosse uma obra de ficção, chamava-lhe "Cinismo sem limites".
Assim, não sei como é que lhe hei de chamar.

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Botar sotaque

por Miguel Bastos, em 08.02.22

"Eu vou botar um pouquinho de sotaque, um pouquinho só", disse Vinicius de Moraes, antes de oferecer, a Amália, o fado "Saudade do Brasil em Portugal". Foi registado, em 1970, num disco conjunto. Passaram mais de 50 anos, e Caetano (um eterno apaixonado por Amália e pelo fado) repete a gracinha. Bota um sotaque para cantar "Você-Você", com a maravilhosa Carminho - que já cantou o tema de Vinicius e está habituada a cantar com os deuses. A canção está aqui, com um vídeo a registar o momento, mas o disco "Meu coco" merece ser ouvido, de fio a pavio. Começa por nos cantar que "O português é um negro dentre as eurolínguas", para (espero não estar a dar com a língua nos dentes) nos levar aos mais variados "brasis", até desembarcar em "Você-você". Não é, no entanto, o fim da viagem. Depois de um "quase fado", com o bandolim a fazer de guitarra portuguesa, chega a certeza de que "Sem samba não dá". A chegar aos 80 anos, o mais jovem de todos nós, dá-nos um "best off" de inéditos: intemporal e contemporâneo, ousado e familiar. Caetano dá-nos uma obra prima. A obra prima do mano. O mano Caetano.

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Mais Palavras Cruzadas

por Miguel Bastos, em 19.01.22

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E aqui estou eu, a fazer Palavras Cruzadas com a Dalila Carvalho na Antena 2.

(Para ouvir, clicar na imagem ou aqui)

https://www.rtp.pt/play/p8296/e593110/palavras-cruzadas

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Palavras cruzadas

por Miguel Bastos, em 19.01.22

Gosto de palavras. Palavras escritas. Palavras Ditas. Gosto de ouvir palavras. Do som das palavras. A Dalila Carvalho tem um pequeno e delicioso programa, na Antena 2, chamado "Palavras Cruzadas". O genérico é um excerto de uma canção de Vitorino. A canção original tem palavras de António Lobo Antunes, que não se ouvem porque, a cada programa, são substituídas por outras. Neste caso, pelas minhas. A Dalila gostou de as ler e quis conversar comigo sobre o assunto. Hoje, as minhas palavras cruzam a programação da Antena 2: às 9h50 e às 18h50.

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