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O normal

por Miguel Bastos, em 30.06.22

pedro nuno santos.jpg

Claro que há um dado novo: o primeiro-ministro trava a decisão sobre o novo aeroporto, anunciada pelo ministro da tutela.
Quanto ao resto - a discussão do aeroporto tem 50 anos, com apresentações, contestações, localizações e demissões - nem por isso.
Lembram-se do novo normal? Não vai acontecer. Temos o normal, de novo. [Fotografia: Tiago Petinga/LUSA]

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A Rússia e as fronteiras

por Miguel Bastos, em 22.06.22

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George Friedman faz-me lembrar Durão Barroso. A dada altura, Durão disse que iria ser primeiro-ministro - só não sabia quando. Friedman disse que iria haver guerra na Europa - só não sabia onde. Mas deu várias hipóteses. Chamou-lhes "Focos de Tensão". Um dos focos identificados foi "A Rússia e as suas fronteiras", com o autor a descrever uma Ucrânia composta por uma população dividida entre as influências russa e ocidental. Afirma o autor: "Divisões como esta tornam a Ucrânia um terreno fértil para manipulações por parte de quem estiver interessado nela. Os russos estão cientes desta vulnerabilidade porque há muito que eles próprios têm vindo a manipular a Ucrânia. Por isso, os russos interpretarão qualquer envolvimento exterior como manipulação e ameaça potencial aos interesses fundamentais naquele país." Friedman parece que é bruxo. Mas, garantem-me que não é.

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Ficha técnica

por Miguel Bastos, em 17.06.22

No fundo, no fundo, um livro é um conjunto de letras pretas imprensas em papel branco. Claro que precisa de conteúdo. Claro que precisa de ser bem escrito. E de ser revisto e paginado. E de (...), e de. Mas, se compararmos com o cinema, por exemplo, necessita de recursos muito escassos. Quando vou ao cinema, gosto de ver a ficha técnica para ver a quantidade de pessoas envolvidas: realizador, atores, produtores, figurantes, aderecistas, caraterizadores, carpinteiros, eletricistas, iluminadores, câmaras, iluminadores, engenheiros de som, sonoplastas... São dezenas e dezenas - às vezes, centenas e centenas - de pessoas. Eu fico, ali, a ver: por respeito e curiosidade, e, também, porque a banda sonora vem sempre no fim. Mas, há livros que parecem filmes de Hollywood, como "A Guerra Fria", de Odd Arne Westad. O livro é uma obra de fundo com mais de 700 páginas, divididas por mais de 20 capítulos. É uma grande produção espalhada pelos vários continentes, com investigadores, tradutores ou revisores de texto nesses/desses países. O autor precisou de 5 páginas, para agradecimentos, 15 para índice remissivo, mais de 30 para acomodar cerca de 600 referências. Claro que li tudo até ao fim, como no cinema. E (também aqui) a banda sonora chegou no fim. A última referência do livro é a citação de uma canção dos Depeche Mode - "Two Minute Warning" - que é, também, o título de um filme de Hollywood. Já agora, a canção - marcada pela ameaça da guerra nuclear - é das poucas canções que Alan Wilder escreveu nos Depeche Mode (uma banda que escolheu o nome de uma revista de moda francesa). Acho que já tinha feita a referência: gosto de fichas técnicas.

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Morte soviética

por Miguel Bastos, em 14.06.22

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Brejnev morreu em 1982, depois de ter governado a União Soviética durante 18 anos. Há muito, que estava velho e cansado. O sucessor foi Andropov. Mas, este, estava velho e doente. Morreu, dois anos depois. Seguiu-se Chernenko. Morreu, passado um ano. Parece uma história, fantasiada por García Márquez; mas é a História, sintetizada por Odd Arne Westad (A Guerra Fria, 2017). Escreve o historiador: "Um amigo meu que vivia em Moscovo na altura contou que o filho de seis anos se habituou de tal maneira a ouvir a marcha fúnebre de Chopin na televisão que julgou ser o hino nacional soviético". Chopin não era soviético. Morreu novo.

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Paula Rego

por Miguel Bastos, em 09.06.22

O que pintaria, hoje, Paula Rego? Não sabemos. Nunca saberemos. Sabemos, no entanto, o que pintou Paula Rego, depois de ter visto a lei do aborto ser arrastada para um referendo e depois da maioria dos portugueses ter optado por não votar. Nessa altura, Paula Rego revelou que recorreu ao aborto clandestino quando era estudante de artes, no Reino Unido dos anos 50. Voltou a lembrá-lo, recentemente, quando a reversão do aborto voltou a ser discutida nos Estados Unidos. Hoje, em Portugal, volta-se a discutir a lei da eutanásia. Há quem volte a usar os mesmos argumentos: a discussão foi muito apressada; é preciso convocar um referendo. O marido de Paula Rego morreu, há mais de 30 anos. Viveu 20 anos com esclerose múltipla. Sobreviveu a uma tentativa de suicídio, mas não à doença. Paula Rego morreu, ontem, aos 87 anos. Não sobreviveu, no entanto, à imortalidade.

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Sexta vaga?

por Miguel Bastos, em 13.05.22
A Covid existe. Existe, independentemente de juízos de valor. Existe, e não se extingue por decreto, nem por vontade, nem por fadiga. Portugal pode estar à beira de uma sexta vaga da Covid-19. Ontem, a área Covid, do Hospital de São João, ficou cheia. O índice de transmissibilidade ronda 1,17. Voltou a ser ultrapassado o número de 20 mil casos, num só dia. (Os dados vão ser atualizados, hoje.) A linha SNS 24 recebeu perto de meio milhão de chamada, nos últimos dias. O governo vai antecipar o reforço da vacinação para maiores de 80 anos, a partir de segunda-feira, e admite o regresso dos testes gratuitos nas farmácias. Vários especialistas consideram que o fim das máscaras, nos locais de trabalho, está a provocar um excesso de contágios. O regresso dos grandes eventos dá uma ajuda. Enquanto os números sobem, os meios de combate à pandemia foram ou estão a ser desmobilizados. O problema não é, apenas, nacional. Esta semana, os especialistas da União Europeia deixaram de recomendar o uso de máscara, em aviões e aeroportos. Neste jogo do "tira e põe", uns sugerem mais medidas de proteção, outros o regresso "à vida normal" - como se este pudesse ser realizado por decreto.

Sim, eu também sou "contra" a Covid. Mas o vírus não quer saber nada disso.

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Isto ainda não é a Ucrânia

por Miguel Bastos, em 04.05.22

Por um lado, faço um esforço por estar, cada vez mais, atento à atualidade. Por outro, aprecio, cada vez mais, a minha "distração". Há pouco, apercebi-me que hoje não tinha passado os olhos pelo Diário de Notícias. Agora, acabo de me aperceber que estou a ler o jornal de segunda-feira. Não lamento. Pelo contrário. Acabo de ler a coluna do jornalista Paulo Baldaia "Isto ainda não é a Ucrânia". Alerta o autor que a presença da embaixadora da Ucrânia no desfile "alternativo" do 25 de Abril, protagonizado pela Iniciativa Liberal, e a sugestão da ilegalização do PCP, por parte do presidente da Associação dos Refugiados Ucranianos, são muito questionáveis. Num tempo de trincheiras, Paulo Baldaia recorre a uma expressão que associo à tropa que não fiz: "à vontade não é à vontadinha". Lembra, a seguir, que, em Portugal, não está em curso qualquer "processo de descomunização". E, depois, defende a liberdade. A mesma liberdade que usa, para criticar o PCP. A mesma liberdade que usa, para apoiar o povo ucraniano. A mesma liberdade: para criticar o governo russo ou o governo ucraniano. A liberdade devia ser igual para todos. Mas sabemos, todos, que não é.

Pode ler o artigo aqui:

https://www.dn.pt/opiniao/isto-ainda-nao-e-a-ucrania-14816661.html

 

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Divórcio

por Miguel Bastos, em 21.04.22

macron le pen.jpg

Estou a ver o noticiário, na televisão. Em rodapé, anuncia-se o novo filme de António Pedro Vasconcelos, sobre o tema do divórcio. Olho para ecrã. Sóbrio e elegante, um casal de meia idade senta-se, frente a frente. Discutem os problemas que os apoquentam. Separam-nos umas mesinhas, pequenas, e um mundo, imenso: as contas do gás, da eletricidade, a economia doméstica, e a russa que se meteu entre eles. "Eu sou uma mulher livre", diz ela. "Pronto, está consumada a separação", penso em voz alta. Mas, subitamente, pinta um clima. Sim, um clima. "Quem lá ver...", penso, de novo, em voz alta. "Você é uma climo-cética!", atira ele. "E você é um climo-hipócrita", responde ela. O ambiente não está nada bom. Desligo o televisor.

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As reformas

por Miguel Bastos, em 11.04.22

De acordo com Cavaco Silva, António Costa terá "um grau de coragem política muito baixo". Esta manhã, Cavaco assina duas página de coragem, no Público, para concluir que "não se detetam sinais de um ímpeto reformista" no atual programa de governo.



Sejamos justos, as reformas foram sempre uma marca política de Cavaco Silva. Tanto que, quando teve que optar entre o salário de presidente da República e as reformas, optou, corajosamente, pelas reformas.

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Do contra

por Miguel Bastos, em 07.04.22

Esta tarde, o governo vai apresentar o programa do governo. O Chega já anunciou que vai votar contra o programa do governo. O Livre acaba de anunciar que vai votar contra o voto contra do Chega. Não se sabe, ainda, se alguém vai votar contra o voto contra, do voto contra.


 

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