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"Na década de setenta a Venezuela vivia o apogeu da riqueza do petróleo: o oiro negro brotava do seu solo como um rio inextinguível. Tudo parecia fácil; com um mínimo de trabalho e relações adequadas as pessoas viviam melhor do que em qualquer outro lugar; o dinheiro corria a jorros e era gasto sem pudor numa folia sem fim: era o povo que mais champanhe consumia no mundo". Isabel Allende descreveu, assim, a Venezuela no livro "O meu país inventado". Já o tinha feito num outro livro de características autobiográficas: "Paula". A Venezuela, de Allende, é muito parecida com a Venezuela, da minha infância. Onde se comiam laranjas da Califórnia e se vestiam camisas da Florida. Onde as mulheres desciam decotes, subiam saias e saltos, mas temiam raptos e violações. Onde os homens subiam a pulso, mas usavam o relógio do lado direito, para conservarem o pulso. Era uma forma de prevenirem assaltos, por esticão, e de evitarem que a navalha saltasse da mola, na hora de ponta. Isabel pergunta para que servia a emancipação das mulheres, a brilharem de batom e blush, se depois se trancavam em casa, a olhar o sol, atrás das grades, que cobriam as janelas do décimo andar. A Venezuela era muitas coisas: alternadas e simultâneas. Ainda é. Um país que, se não existisse, teria que ser inventado. Mas existe. Existe, para além de todas as invenções.
"Dizem-me que a Dinamarca está na Gronelândia, há cerca de 300 anos, com um barco", diz o presidente dos Estados Unidos, "Mas, nós, também lá estivemos com barcos. Tenho a certeza." Adoro as certezas de Donald Trump. Ele tem muitas. Eu tenho poucas. Mesmo assim, tenho a certeza que, há 300 anos, os Estados Unidos não existiam. E, há 300 anos, a Florida - onde o presidente fez esta declaração - era espanhola. A Florida (adjetivo - que está em flor; coberto de flores, no Dicionário infopédia da Língua Portuguesa [em linha], Porto Editora) foi comprada, anexada, separada, reconquistada e só foi integrada, nos Estados Unidos, há pouco mais de 150 anos (metade dos 300, portanto). Claro que Donald Trump também não existia, mas se existisse seria alemão ou escocês, ou algo do género. Portanto o "nós", referido, não faz sentido nenhum. É, só, uma coisa que se inventa - a ver se cola.
O 25 de Novembro foi, também, um confronto de modelos económicos. No final, ganhou a economia de mercado. Fui ao mercado. Comprei tomates, nabos, alhos, cebolas, brócolos, rabanetes e ovos, a bom preço. Com o que poupei, no mercado, comprei um 25 de Novembro.
Um artigo, jornalístico, que é quase uma tese académica. Em vésperas dos 50 anos do 25 de Novembro, a Visão levanta 10 questões sobre a data histórica e procura dar respostas sobre as mesmas. Foi um golpe de esquerda ou de direita? Quem foram os protagonistas? Quem ganhou? Quem perdeu? O 25 de Novembro foi contra o 25 de Abril? Ou foi a consolidação do mesmo? Deve ser celebrado? Antes de dizer "sim" ou "não", a "favor" ou "contra", convém saber o "quê", "quem", "quando", "onde", "como", "porquê". Enfim, aquelas coisinhas que fazem parte de uma coisa maior chamada jornalismo, que a Visão continua a defender - com as dificuldade que são conhecidas. Obrigado, Filipe Luís.
Por fora do Chega, vê-se um partido unido em torno do seu líder - contra tudo e contra todos.
"Por dentro do Chega", lê-se um partido profundamente dividido - com todos contra todos.
Escreve o autor: “Chamar ao Chega partido fascista ou de extrema-direita contém alguma verdade, mas está longe de ser toda a verdade”. Para compreender melhor o Chega, o jornalista Miguel Carvalho mergulhou, a fundo, no caldeirão político e social onde o partido germinou e estudou, a fundo, as pessoas e os movimentos que estão na sua fundação e implementação. Podemos, assim, perceber melhor como é que tantas pessoas, com ideias e práticas tão diferentes, se juntam no mesmo partido - mas, também, porque é que se separam.
O livro está dividido em quatro partes: Deus, Pátria, Família e Trabalho. André Ventura foi buscar as três primeiras palavras ao salazarismo e acrescentou uma quarta - Trabalho. Talvez porque, como Miguel Carvalho descreve no livro, o Trabalho - e, sobretudo, a falta dele - desempenha um papel importantes entre apoiantes, militantes e dirigentes do Chega.
Para compreender o Chega (e “compreender” não significa justificar, muito menos concordar), Miguel Carvalho aproveitou o conhecimento que já tinha da extrema-direita e do populismo, para se lançar à estrada e partilhar “horas e dias” com muitos que o insultaram e ameaçaram, mas que acabaram por lhe confiar “documentos e revelações”. Escreve o autor: “Talvez porque, independentemente de todas as diferenças e propósitos, foi possível definir um local de encontro civilizado”. Parece pouco, mas, nos dias que correm, apetece-me exclamar: “Parece impossível!”
Obrigado, Miguel, e parabéns!
Os heróis não existem. Ou, então, existem - na nossa cabeça - porque precisamos deles. Precisamos de figuras de referências, que nos sirvam de exemplo, mas, também, de garantia de segurança, de porto de abrigo. Francisco Pinto Balsemão não era um herói, mas parecia. Fundador da democracia e do PSD. Fundador de Expresso e, depois, de um império de comunicação social. Desaparece numa altura em que a democracia está ameaçada. Numa altura em que o jornalismo e a comunicação social estão em crise. Numa altura em que o seu próprio grupo de comunicação dá sinais de fragilidade. Numa altura em que precisamos de heróis - que não existem (já sabemos) mas que continuamos a precisar.