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Camarada Paulo

por Miguel Bastos, em 06.11.22

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Estávamos todos preparados para a febre de sábado à noite, quando a notícia chegou: Paulo Raimundo vai ser o novo secretário-geral do PCP. Um segredo de polichinelo. Já todos sabíamos que ia ser o Paulo. Todos - exceto meia dúzia de jornalistas, comentadores, políticos (em geral) e militantes do PCP (em particular) que tiveram de ir ao Google.

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Isto ainda não é a Ucrânia

por Miguel Bastos, em 04.05.22

Por um lado, faço um esforço por estar, cada vez mais, atento à atualidade. Por outro, aprecio, cada vez mais, a minha "distração". Há pouco, apercebi-me que hoje não tinha passado os olhos pelo Diário de Notícias. Agora, acabo de me aperceber que estou a ler o jornal de segunda-feira. Não lamento. Pelo contrário. Acabo de ler a coluna do jornalista Paulo Baldaia "Isto ainda não é a Ucrânia". Alerta o autor que a presença da embaixadora da Ucrânia no desfile "alternativo" do 25 de Abril, protagonizado pela Iniciativa Liberal, e a sugestão da ilegalização do PCP, por parte do presidente da Associação dos Refugiados Ucranianos, são muito questionáveis. Num tempo de trincheiras, Paulo Baldaia recorre a uma expressão que associo à tropa que não fiz: "à vontade não é à vontadinha". Lembra, a seguir, que, em Portugal, não está em curso qualquer "processo de descomunização". E, depois, defende a liberdade. A mesma liberdade que usa, para criticar o PCP. A mesma liberdade que usa, para apoiar o povo ucraniano. A mesma liberdade: para criticar o governo russo ou o governo ucraniano. A liberdade devia ser igual para todos. Mas sabemos, todos, que não é.

Pode ler o artigo aqui:

https://www.dn.pt/opiniao/isto-ainda-nao-e-a-ucrania-14816661.html

 

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A mocidade

por Miguel Bastos, em 14.02.22

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Vejam lá, como ela é moderna! Que nem precisa "de ver a RTP, a SIC, porque, com o Twitter, ficamos a par do que se está a passar, e com mais rigor do que quando é filtrado por alguém". Portanto, Zita Seabra só lê coisas à roda dos 140 carateres, mas gosta do expor o ego ao Sol, em 6 longas páginas. Um ego fresco e jovem, que anuncia a morte do PCP, do PSD e do CDS. E que exaspera com um Portugal envelhecido, que parece um museu. Zita sabe do que fala, porque ela também já foi muito velha. Lembro-me dela, em comícios e debates, com o seu ar de professora de liceu, de saquinho de cabedal a tiracolo, a apontar o dedo a jovens reformistas, como Mário Soares e Cavaco Silva. Mas, entretanto, Cavaco deu-lhe a mão e Zita aproveitou para fazer um "reset". E, depois, um "restyling" completo, com muito liberalismo e Vox e Chega e Salvini e os tweets de Donald Trump. Que bonita, a mocidade Zita!

Pode ler a entrevista aqui, ou na imagem

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Dissolução

por Miguel Bastos, em 05.11.21

marcelo dissolve.jpg

Desculpem o "politiquês" e o "juridiquês", mas, em situações de grande complexidade, é inevitável recorrer a uma linguagem mais técnica: "Em Portugal o Presidente tem um poder do caraças". António Franco, antigo Chefe da Casa Civil do Presidente Jorge Sampaio.

[José Pedro Castanheira (2017), Jorge Sampaio, Uma Biografia, ıı volume - O Presidente, pag. 701]

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Nuvens negras

por Miguel Bastos, em 29.10.21

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Por estes dias, trocam-se acusações entre a esquerda e a direita; entre os vários partidos de esquerda; e entre os militantes dos partidos da direita, que vão para eleições internas. Portugal vai para eleições porque, supostamente, precisa de uma clarificação. Antes da clarificação, porém, as coisas vão ficando mais negras.

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Pedir o orçamento

por Miguel Bastos, em 26.10.21

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"Pago já", dizia o cartaz, "ou é melhor pedir um orçamento?" Todos se riram, menos eu. Não percebi a piada. Explicou-me um dos candidatos da lista C: o atendimento, no bar do liceu, estava cada vez pior; os preços estavam sempre a mudar; o pré-pagamento obrigatório era uma descriminação. Daí a piada: "percebeste"? "Mais ou menos", respondo. Faltava-me perceber a palavra "orçamento". "Acho que é a fatura", dizia o Zé. "Não, acho que é a senha", dizia o João. "Não é a mesma coisa?" "Não, porque a fatura pagas depois". "E a senha?", insistia o Zé. "A senha pagas antes". "E o orçamento?", perguntei. "Então, o orçamento..." Continuava sem perceber o significado, mas já dava para ver que não era o único. "A ideia", insistia a consciência política do grupo, "é gozar com a burocracia do bar, percebeste?" "Acho que sim", disfarcei. Agora, tinha mais uma palavra para descobrir no dicionário: "burocracia". Agora, que é como quem diz. Agora, estava demasiado entretido com um pastel de carne, ainda quente, acabado de sair do forno. Continuava sem saber o que era o orçamento. Mas percebi, logo, que era algo que não se devia decidir a quente.

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Orçamento

por Miguel Bastos, em 25.10.21

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O destino é dado a ironias. Esta tarde, apanhou-me num banco de jardim, a ler umas coisa sobre o pântano. Lembram-se do pântano? Foi quando Guterres saiu do governo e Portugal entrou numa fase gloriosa da sua história: um governo de Durão Barroso; uma cimeira com o "George" nas Lajes; uma ida para o Iraque; outra para Bruxelas; um governo de Santana; outro de Sócrates; outro, ainda, mais do mesmo - mas (ainda) mais arrogante; o regresso de Cavaco; uma troika; um governo para além da troika. Ai, saudades do futuro! Esta tarde - dizia eu - estava a ler umas coisas sobre o pântano e o telemóvel alerta-me para a conferência de imprensa do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, para reagir ao chumbo anunciado do Orçamento, depois das tomadas de posição do Bloco e do PCP.

E estou eu a olhar para o telemóvel, quando passa por mim um grupo de jovens ativistas, vestidos de preto da cabeça aos pés. Os tempos estão difíceis e os jovens são o futuro. Ah, os jovens! Gritam, a plenos pulmões, palavras de ordem que não consigo decifrar. Seguem-se outros jovens que, primeiro, dançam a Macarena, e, depois, colocam-se de gatas, porque os tempos são de solidariedade e integração. "O país está de tanga", dizia Durão. Agora está de gatas, mas de máscara. A integração segue as normas da DGS, indiferente ao Orçamento. Os jovens são o futuro, negro. Vai ficar tudo bem. E vamos sair mais fortes. Para onde? Não se sabe, talvez em direção ao pântano. Ai, saudade!

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Trabalhar, mas é!

por Miguel Bastos, em 08.09.21

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Entusiasmado pelo calor da campanha, António Costa resolveu criticar o desempenho dos autarcas do PCP, dizendo: "Nós estamos aqui para trabalhar. Nós não estamos aqui para reivindicar que os outros trabalhem, por conta de nós". Eu, que tenho muito respeito pelos trabalhadores por conta de outrem, estranhei o tom. Fez-me lembrar o "deixem-me trabalhar", exigido por um antecessor de Costa. Ele há tiques...

[Foto: Tiago Petinga / Lusa]

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Fada do lar

por Miguel Bastos, em 06.12.20
Primeiro, foi um curso intensivo sobre Marquês de Pombal, com o autor da mais recente biografia de Sebastião José de Carvalho e Melo.

Depois, uma conversa com Adriana Calcanhoto, sobre poesia e música, a política brasileira e a realidade portuguesa.

E, ainda, a memória de Eduardo Lourenço, a análise ao congresso do PCP e a morte do antigo presidente francês, Valéry Giscard d'Estaing.

Tudo isto, enquanto fazia a lida da casa. Se continuar assim, acabo uma fada do lar: com uma pós-graduação em História, um mestrado em Políticas Culturais e um doutoramento em Relações Internacionais.

Preciso de um rádio, uma vassoura e pouco mais.

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