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O caos e a falência

por Miguel Bastos, em 19.05.25

farmacia.jpg 

Estou a olhar para este recibo da farmácia. De um valor total de 288 euros, o Estado comparticipa 227. Ora aí está um exemplo prático, para responder ao "pagamos impostos para quê?" Sim, é para isto. Mesmo assim, o utente vai ter de pagar 61 euros. E mesmo que - à primeira vista - pareça um valor residual, provavelmente, vai ter dificuldade em fazê-lo. Sim, em Portugal os salários são muito baixos e as reformas ainda mais. E muitos dos clientes das farmácias, são pessoas de idade. E muitos utentes dos centros de saúde e dos hospitais também. E, muitas vezes, são mal atendidos - porque os hospitais estão "num caos" e o "SNS está em falência". Não está. Tem dificuldades, sim. Mas acolhe, sempre. E é, por isso, que um líder partidário pode usar várias instituições de saúde em dois dias e seguir em frente - com as câmaras atrás - a falar do "caos" e da "falência". E a ser ouvido, porque há muita gente a passar mal. E o mal não passa com "percentagens", com "convergências", com "o funcionamento das instituições". Mas também não passa sem elas.

Podemos (e devemos) ser mais exigentes com os governantes, com os partidos, com as instituições públicas. Mas exigir é diferente de dinamitar. Até porque, na ânsia de demolir, arriscamo-nos a ficar debaixo dos escombros.

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Nheca nheca

por Miguel Bastos, em 06.05.25
"Um debate nada nheca nheca" foi o título escolhido para o primeiro jornal de campanha, da Antena 1.
Há onomatopeias que valem mais do que mil palavras.
O "zig-zag" soou requentado. Mas, o "nheca nheca" soou-me a "pumba".
 
"Vamos a votos"? Vamos. "Vrum, vrum".
 
Para ouvir, aqui:
 

 

 

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A sesta

por Miguel Bastos, em 10.06.24

- Eu percebi bem?
- O quê?
- Há um partido chamado "Se acabó la Siesta"?
- Não. Chama-se "Se acabó la Fiesta".
- Ah..
- É um partido de extrema-direita.
- Isso eu tinha percebido. Só que tinha ouvido "la Siesta".
- Não, "la Fiesta".
- Assim, faz sentido.
- Porquê?
- Porque a extrema-direita gosta mais de nós a dormir.

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Aula sobre democracia

por Miguel Bastos, em 24.04.23

cravos.jpg 

O presidente da República fez mais de 500 quilómetros para assinalar os quase 50 anos de democracia, em Portugal. Recorreu à sua vocação de professor e aos seus dotes de comunicador, para dar uma espécie de aula sobre democracia, num auditório repleto de jovens. O presidente foi recebido com grande entusiasmo. Os jovens bateram palmas e assobiaram, com a excitação reservada às celebridades. Depois, o presidente começou a falar e a juventude esmoreceu. Quando começou a distinguir a monarquia e a república, a Rita resolveu mergulhar no "Instagram". Quando abordou a guerra colonial, o João decidiu fazer uma guerra "online" com o colega do lado. A reflexão sobre a natureza dos partidos políticos foi ofuscada pelas imagens dos guerreiros de "wrestling" do telemóvel do Hugo. E a emergência do populismo não resistiu ao livro do Harry Potter (na realidade, o Harry Potter também não resistiu ao "TikTok" - pois não, Mafalda?"). Bem sei que estava na fila de trás (local onde se costumam sentar os jornalistas e os maus alunos). Bem sei que, nas filas da frente, havia alunos interessados e participativos. Mas, foi uma espécie de constatação "in loco" de algumas das assimetrias sublinhadas pelo presidente: na política ou na educação "há muito bom e há muito mau". O presidente exortou os jovens: "participem", "envolvam-se", "manifestem-se". Uma parte significativa não respondeu, porque estava demasiado ocupada, a bocejar, no ciberespaço. A dada altura, o presidente contou uma história para ilustrar a importância das pessoas se manterem independentes dos cargos políticos: "Eu tinha colegas meus, jovens, que tinham acabado de sair da faculdade e foram convidados para secretários de Estado. Quando saíram do governo não sabiam o que fazer. Achavam que, depois de terem sido secretários de Estado, só podiam ser ministros ou presidentes de um banco". "O que é que achas que eu devo fazer?", perguntavam-lhe. "Eh, pá! E se fosses trabalhar?", respondia-lhes. A resposta (como é evidente) não é válida, apenas, para ex-secretários de Estado. No final - de novo - as palmas e os assobios, reservados às celebridades. E uma selfie (claro!), para partilhar no ciberespaço.

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A democracia

por Miguel Bastos, em 29.12.22

pns.jpg 

Há uns anos, uma jornalista muito habituada a ser notícia queixava-se - em direto, na televisão - de ser alvo de censura e de haver falta de liberdade de expressão, em Portugal. Apresentou argumentos, vitimizou-se, apontou o dedo a vários políticos, atacou. Um comentador, em estúdio, discordou. Se havia censura, como é que a jornalista estava a ter tantos minutos de "tempo de antena", num jornal televisivo, em horário nobre? É preciso usar as palavras, com cuidado. A democracia faz-se com palavras. Que as palavras sejam usadas: para elogiar, para criticar. E, "com cuidado" não significa "com cuidadinho". Significa ter algum rigor na sua utilização. Ser alvo de censura e falar em direto no telejornal das oito é uma contradição evidente.
 
Os acontecimentos políticos, dos últimos dias, trouxeram os discursos populistas da praxe, com críticas à democracia e alusões, mais veladas ou mais explicitas, a outras formas de regime. Ora, o que está a acontecer é a democracia: com os seus defeitos, com as suas virtudes. Uma secretária de Estado tinha saído da administração da TAP, com uma indeminização que chocou a generalidade das pessoas. O presidente da República fez perguntas e declarações públicas. A oposição pediu responsabilidades e a cabeça de responsáveis. As demissões sucederam-se. Os partidos multiplicam-se em declarações e iniciativas, entre elas, uma moção de censura e o pedido de eleições antecipadas.
 
Os portugueses podem e devem criticar o governo: este governo, qualquer governo. É isso, a democracia. Felisberto Desgraçado, personagem inventado por Herman José, defendeu que “A democracia foi feita para ter um único partido. Se Deus quisesse que a gente tivesse mais partidos tinha-nos feito aos bocados”. Winston Churchill afirmou que "A democracia é o pior dos sistemas, com exceção de todos os outros.” Desculpa, Desgraçado, mas vou pelo segundo.
 
[Fotografia: António Cotrim/LUSA]

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Isto ainda não é a Ucrânia

por Miguel Bastos, em 04.05.22

Por um lado, faço um esforço por estar, cada vez mais, atento à atualidade. Por outro, aprecio, cada vez mais, a minha "distração". Há pouco, apercebi-me que hoje não tinha passado os olhos pelo Diário de Notícias. Agora, acabo de me aperceber que estou a ler o jornal de segunda-feira. Não lamento. Pelo contrário. Acabo de ler a coluna do jornalista Paulo Baldaia "Isto ainda não é a Ucrânia". Alerta o autor que a presença da embaixadora da Ucrânia no desfile "alternativo" do 25 de Abril, protagonizado pela Iniciativa Liberal, e a sugestão da ilegalização do PCP, por parte do presidente da Associação dos Refugiados Ucranianos, são muito questionáveis. Num tempo de trincheiras, Paulo Baldaia recorre a uma expressão que associo à tropa que não fiz: "à vontade não é à vontadinha". Lembra, a seguir, que, em Portugal, não está em curso qualquer "processo de descomunização". E, depois, defende a liberdade. A mesma liberdade que usa, para criticar o PCP. A mesma liberdade que usa, para apoiar o povo ucraniano. A mesma liberdade: para criticar o governo russo ou o governo ucraniano. A liberdade devia ser igual para todos. Mas sabemos, todos, que não é.

Pode ler o artigo aqui:

https://www.dn.pt/opiniao/isto-ainda-nao-e-a-ucrania-14816661.html

 

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Do contra

por Miguel Bastos, em 07.04.22

Esta tarde, o governo vai apresentar o programa do governo. O Chega já anunciou que vai votar contra o programa do governo. O Livre acaba de anunciar que vai votar contra o voto contra do Chega. Não se sabe, ainda, se alguém vai votar contra o voto contra, do voto contra.


 

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Insondagens

por Miguel Bastos, em 31.01.22

costa.jpg

Portanto, se bem percebi: são insondáveis os caminhos deste senhor.

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Estacionamento

por Miguel Bastos, em 07.11.21

Desempregados do meu país: não se iludam. Amanhã, quando forem ao centro de emprego, têm mesmo que estacionar nos locais assinalados e pagar o parquímetro. Aquilo de galgar ciclovias e estacionar em cima dos passeios, só é possível em situações muito excecionais, como, por exemplo, eventos partidários. Nesse caso, pode-se estacionar à vontade e dizer que é em nome do interesse nacional.

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