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- Ei, você!
(Olho para um lado e para o outro).
- Você, do carro da RTP.
- Eu? Diga.
- Tenho aqui uma coisa para lhe mostrar.
- Se for rápido...
- Sabe, eu tenho um vício tramado...
(Noto que tem sinais de vício, mas não digo nada)
- ... gosto de andar à cata de coisas velhas.
- Aahhh
- Veja, aqui, o que é que eu encontrei!
(Era um documento, antigo, plastificado, de uma estação de rádio. Dizia "Serviços técnicos". Usava-se para dar acesso a recintos como estádio, pavilhões, teatros, etc.)
- Tem um carimbo daqueles com relevo, aqui tem outro, aqui está assinado.. isto é uma relíquia, não é?
- Acho que sim.
- Eu mostrei isto ao tipo dos autocarros, mas ele não ligou nenhuma.
- Pois...
- E depois vi o seu carro e pensei "Aquele, ali, deve dar valor a isto".
- E dou. Isso é muito interessante.
- Isto é de 1978. Eu ainda não existia, veja lá. Nem você, se calhar...
- Eu, já, mas ainda não trabalhava na rádio.
- Ai você é da rádio? Pensei que fosse da televisão.
- Não, não sou.
- Então ainda dá mais valor, aqui, à minha relíquia!
- Dou. O que é que vai fazer com isso!?
- Vou guardar na minha caixa dos tesouros!
(E lá foi, estrada fora, com sua "relíquia" - depois da minha validação rigorosa).
- Quem é que é a coisa mais linda do seu pai?
- Sou eu.
- Pois és, filho.
- És um pai cheio de sorte.
- Acho que sim.
- Já o teu pai não pôde dizer o mesmo.
- Ah, que engraçadinho!
- Vês, pai? Mais uma qualidade. Para mim, não basta ser bonito!
"Maldita a hora que eu a levei às piscinas do Siza", disse a curadora. Inês Grosso sabia que a artista alemã andava interessada no tema das piscinas, quando sugeriu uma visita à Piscina das Marés, de Álvaro Siza. Entusiasmada, Anne Imhof sugeriu a instalação de uma piscina de 20 metros no jardim, em aço, junto ao Museu desenhado pelo arquiteto, em Serralves. E, ainda, a construção de uma estrutura, no mesmo material, com duas plataformas de salto para a piscina, no interior. A exposição aborda o tema da industrialização da cultura e do lazer, no século XX. E deixa-nos de boca aberta, em pleno século XXI.


Saio de casa, à pressa. A guardar as chaves de casa, num bolso. A procurar as chaves do carro, noutro bolso. A certificar-me se tenho tudo: telefones, carteira, mochila, garrafa de água. Cabeça já sei que não tenho. Já nem a procuro. "Desculpe, senhor..." - um homem, nos seus 50/60, de ar abandonado, esquecido - "sei que está com pressa". Adivinho o que se segue: "Por acaso, não me podia ajudar?". "Por acaso, não", respondo, "não tenho dinheiro nenhum. Entre rifas para a escola, para o futebol, para a associação disto e daquilo, não me sobrou nada". "Não faz mal", diz, "se tivesse, agradecia, mas se não tem, não faz mal". "Tudo o que tenho é uma carteira vazia, quer ver?" O homem, assustado, dá um salto para trás: "Ó senhor, não faça isso!" Pois, não se faz isto. Mas eu fiz. De repente, vejo um euro, a espreitar no porta-moedas. Fico feliz. "Afinal, ainda tenho qualquer coisa". Entrego o euro ao senhor, que me agradece e ainda fica preocupado comigo: "Mas, assim, fica sem nada". "Não se preocupe", digo-lhe, "eu tenho onde ir buscar mais". Desejo-lhe um bom Natal e ele também. Seguimos, rumo a vidas diferentes.
E aqui está o meu conto de Natal. Não é Dickens, eu sei. Mas é meu. Escrevi-o esta manhã, depois de encontrar este senhor e (pasme-se!) a cabeça.
Os doces vinham de Santa Iria de Azóia. Os refrescos também. Os sabonetes vinham de Santa Iria de Azóia. E os desodorizantes e os champôs. O detergente da roupa vinha de Santa Iria de Azóia. Bem como, o pó para a cozinha; o creme para a casa de banho; o líquido para os vidros. Na minha cabeça, a procurar palavras e a decifrar enigmas nas embalagens dos produtos domésticos, Santa Iria da Azóia era um oásis de coisas boas, para comer e cheirar. Um farol de modernidade. O que havia de mais parecido com Nova Iorque, em Portugal. Eu queria ir a Santa Iria de Azóia. Até que fui. E não, não é parecido.