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Socialismo dentro de casa

por Miguel Bastos, em 15.04.23

mau maria.jpg 

"A tua vontade, justiça, igualdade / Não chega aqui dentro de casa", canta a Mariazinha, que se vai tornar Marta, numa das melhores criações de José Mário Branco. Sempre foi das minhas canções preferidas. Fala da mulher, dos direitos da mulher, esquecidos na agenda do homem que, por mais de esquerda que fosse, tinha outras preocupações e prioridades. "E fico à espera que me socializes", canta Maria (zinha), já em transformação para Marta. Lembro-me de ouvir a canção a pensar nas mulheres. Como é que é possível que alguém que se queixa do patrão, que luta pelos seus direitos, não se aperceba que, em casa, reproduz o que lhe fazem fora de casa? Sim, muitas vezes, o socialismo fica à porta de casa. Porque não sai de nós próprios, não sai para os outros, é um socialismo só para nós. O que é, obviamente, a negação do socialismo. Pensei, muitas vezes, nesta canção. Extrapolei-a, para pensar que todos nós, explorados, somos, tantas vezes, exploradores dos que nos rodeiam. Mas, hoje, apetece-me voltar a fechar o foco. Porque há um homem, visto como farol da esquerda, que está a enfrentar um processo de assédio sexual em praça pública. Não sei (não sabemos, ainda) se as suspeitas têm fundamento. Mas sei que, em 1972, José Mário Branco já escrevia sobre mulheres que se transformaram em Martas. Martas que cantam: "Sei aquilo que fui e que jamais serei".

Canção aqui: https://youtu.be/Av-bxaTtkYs

Letra aqui: https://genius.com/Jose-mario-branco-aqui-dentro-de-casa-lyrics?fbclid=IwAR1-c6nkKXxyhk6j2fIMKaV58dcoMmWFqYG8nGrDZs1G0HPwQ8V2aVug27E

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O mundo: dentro e fora

por Miguel Bastos, em 15.01.22
 
 20220115_100534.jpg

 

"(...) os homens não falam entre si. Nas famílias, as palavras estão entregues às mulheres. Os homens gerem silêncios, aqui e ali entrecortados." Apanho a frase, na revista do Expresso. É da semana passada. Já devia, portanto, ter ido para o lixo. Mas não foi. Demora-se sempre mais tempo do que é suposto: na secretária, na prateleira, ao lado da cama. A revista ficou, ali, aberta: pronta para ser lida. Às vezes, não chega a ser. Os jornais dão-nos mais, muito mais, do que conseguimos ler. São um caleidoscópio do mundo, que esperamos ordenar. Mas acabam, eles próprios, espalhados e desordenados: pela casa; pelo mundo.
A frase inicial é de Davide Enia - um escritor italiano, da Sicília, que desconheço e que não sei "se e quando" vou conhecer. Perguntaram-lhe se escrevia sobre os naufrágios de Lampedusa. Respondeu que tinha escrito o livro ("Notas de um naufrágio") para salvar a relação com o seu pai. É, os jornais dão-nos o mundo: por fora e por dentro.

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Beleza pura

por Miguel Bastos, em 23.09.21

Rita Redshoes disse, no Jornal 2 da RTP, que, durante muito tempo, ficava incomodada com o facto de evocarem, repetidamente, a sua beleza. Sentia que o seu trabalho era desvalorizado. Lena d'Água também disse que "era tão gira, que as pessoas só falavam de mim e esqueciam-se da música".

Ora, Rita é, há muito tempo, uma das compositoras, cantoras e instrumentistas mais inspiradas (e inspiradoras) em Portugal. E, sim, é linda. O que não retira nenhum valor ao seu trabalho. Pelo contrário, só acrescenta. Agora, parece-me evidente que ainda temos - todos nós - muito a aprender sobre a forma como abordamos a beleza: a nossa e a dos outros.

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Os talibãs

por Miguel Bastos, em 25.08.21

burca.jpg

Ah, os talibãs: sempre a aterrorizar as mulheres! Desde sempre, em tantos tempos e sítios diferentes.

"Dias depois de Capitine ter emigrado para a Beira Maniara decidiu, também ela, sair da aldeia. Ia juntar-se ao marido. Sendo mulher, contudo, ela estava interdita de se meter sozinha pela estrada. Infelizmente essa regra nunca mudou. Uma mulher que viaja sozinha é uma criatura que caminha despida. Os homens estão autorizados a fazer com ela o que quiserem.

Mais grave do que viajar sozinha era, nesse tempo, uma mulher entrar na cidade sem ser na companhia do marido. Maniara decidiu desobedecer a esse destino."

Mia Couto, O Mapeador de Ausências
[Foto: Peter Cook/Getty Images]

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César

por Miguel Bastos, em 23.07.21

mulher de cesar.jpg

 - Eh César, pá, estou espantado com a tua terra!
 - É uma terra boa, não é?
 - Boa, pá, muito boa. Olha esta tão boa!
 - Estás a falar de quê?
 - Das gajas, César, das gajas. Boas, pá! Olha outra, tão boa!
 - Não achas que já tens idade para ter juízo?
 - Tenho, pá, mas aqui é difícil. Olha aquela, a descer as escadas: boa!
 - Qual?
 - A de verde, pá, conheces?
 - Conheço. É a minha mulher.
O Tavares começa a tossir, para ganhar tempo.
 - Eu vi logo, César. Isto não basta ser. É preciso parecer. A tua mulher, César, distingue-se das outras.
 - A sério?
 - A sério. É bonita, mas tem uma classe que as outras gajas não têm.

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