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Jovens rebeldes

por Miguel Bastos, em 07.03.24

"Ah, os jovens... são rebeldes, gostam de viver no limite..." Não é bem assim. Por exemplo: o jovem, que acaba de se atravessar à frente do meu carro, atravessa a estrada em diagonal e, sem tirar os olhos do telemóvel, vai ao encontro da passadeira. Faz bem. Isso de arriscar a vida é um bocado parvo. Se for para morrer, que seja em segurança.

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Mai frei

por Miguel Bastos, em 12.12.23
- E como é que se diz "meu amigo", em inglês?

- My friend.

- Mai frei?

- Não, avô, "my friend".

- Foi o que eu disse: "mai frei".

Sai de cena e regressa, de óculos escuros e com uma boina escocesa, que lhe trouxemos, enterrada na cabeça.

- Ei, "mai frei", acabo de chegar de Inglaterra...

- Da Escócia, avô.

- Ou isso. E estou com uma sede... ah, já não me lembro!

- De quê?

- Como é que se diz "filho da puxa", em inglês, mas bem explicado?

- Son of a b...

- Isso. E estou com uma sede "sana biche".

Rimo-nos todos, durante vários anos. "Mai frei" e "sana biche" entraram para o léxico da vida familiar. Uma vida boa, "mai frei". Já a morte (convenhamos) é um bocado "sana biche".

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Um plano para morrer

por Miguel Bastos, em 11.12.23

- Mas, vamos todos morrer, pai?
- Vamos, filho.
- Mas isso não é justo
- Pois não, mas são as regras do jogo.
- E não dá para mudar?
- Não. Mas temos um plano.
- Qual é?
- Mais cedo ou mais tarde, vamos todos morrer, não é? Portanto, o plano é... mais tarde.
- É, esse, o plano?
- É. Eu sei que não parece grande coisa, mas é o que temos. Tentar ter uma vida boa, com os que mais amamos: ter cuidado com a saúde, comer poucos doces, fazer ginástica, ir à escola, ser um bom menino, fazer amigos, amar a família... é por aí.
- Ah... mesmo assim, estou triste.
- E deves estar, filho. Ficamos tristes, quando nos morre alguém tão especial.
- E já não volta?
- Não. Mas não te esqueças do plano. Já que, mais cedo ou mais tarde, vamos todos morrer, vamos fazer tudo para que seja... mais tarde.

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O fim da guerra

por Miguel Bastos, em 04.12.23

gaza.jpeg

"A guerra na Ucrânia já acabou, não já?", atira-me o Alberto, com um sorriso irónico. Sabemos, os dois, que não. Mas sabemos, os dois, que cada guerra tem um tempo limitado de atenção. O holofote aponta, agora, na direção da Palestina - onde, nas últimas horas, morreram centenas de pessoas, depois de terem morrido milhares, desde o ataque de 7 de outubro. À semelhança de outras guerras, a guerra na Palestina vai "acabar", quando começar outra guerra, noutro sítio qualquer.

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Carrinha funerária

por Miguel Bastos, em 16.06.23

carrinha.jpg 

Acordo, abro a janela e verifico que tenho uma carrinha funerária à porta de casa. Felizmente, uma das minhas qualidades é que sou bom para ir buscar a morte. Mantenho a calma. Preparo e tomo o pequeno almoço, despacho a criançada, vejo o correio eletrónico, arrumo a cozinha, tomo um duche rápido, visto-me e, finalmente, saio de casa.

Olho para dentro da carrinha: um colchão, dois sacos de cama, uma mochila, um saco de compras. Portanto, a carrinha funerária acampou, à minha porta. Suspiro, finalmente. Confesso: a dada altura, como no fado de Amália, "Cuidei que tinha morrido".

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Morreu Joaquim Pessoa

por Miguel Bastos, em 17.04.23

Morreu o poeta Joaquim Pessoa. Gostava de conhecer melhor o seu trabalho poético. Vou adiando para "um dias destes", que é um local habitado por muitos poetas e escritores. Conheço Joaquim Pessoa, das canções. A rádio e os jornais destacam (bem) a "Amélia dos olhos doces" (Carlos Mendes) e "Lisboa, menina e moça" (Carlos do Carmo). Mas é curto. Ele tem tantas canções! Só no disco "Uma canção para a Europa", que corresponde às canções do Festival de 1976, Carlos do Carmo canta três poemas seus: "Lisboa Menina e Moça" (em parceria com Ary dos Santos), Cantiga de Maio (não confundir com a canção de José Afonso) e "Onde é Que Tu Moras?" (uma das canções da minha vida). Só essa, já era muito. Mas há mais, muitas mais.

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No cemitério

por Miguel Bastos, em 13.04.23

 

- Já não vinha a este cemitério, há imensos anos.
- Isso é bom sinal.
- Porquê?
- Então, é sinal que não te têm morrido pessoas próximas.
- Mas eu não vinha para funerais.
- Ai não?
- Não, vinha fazer introspeção, pensar nos males do mundo e mais não sei o quê.
- Ahhh.
- Foi a minha fase gótica, estás a ver?
- Compreendo.
- A sério? Eu não.
- Não?
- Se eu,agora,visse esse adolescente, deitado num banco de pedra, armado em existencialista da treta, acho que lhe dava um par de estalos.
- Não acredito.
- Dava, dava. Romantizar o sofrimento... que estupidez! Ele vem de qualquer forma, não é preciso procurá-lo.
- Estás a falar do teu pai?
- Estou. Era um tipo cheio de vida e eu, no cemitério, a ouvir música.
- The Cure e essas coisas?
- Sim, ainda me custa ouvi-los.

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Eutanásia

por Miguel Bastos, em 31.01.23

O Tribunal Constitucional (TC) considerou a eutanásia inconstitucional. O texto, defendeu o TC, tem uma "intolerável indefinição". Que "indefinição" é essa, que é tão "intolerável"? Bem, diz o TC, é o "e" .
Concretizando: o texto refere "o sofrimento físico, psicológico e espiritual" - o que levanta, diz o TC, "interpretações antagónicas". E questiona: "A exigência é cumulativa ou alternativa"? É que, diz o TC, no primeiro caso, temos "sofrimento físico, mais psicológico, mais sofrimento espiritual". No segundo, continua a dizer o TC, temos "tanto o sofrimento físico, como o psicológico, como o espiritual". Soa a Kafka? Talvez. Mas soa, sobretudo, a trabalhador da restauração: "Quer um copo de água ou um copo com água"? O meu pai, que trabalhava na restauração, nunca disse essa piadinha. Mas dizia, frequentemente, a expressão: "Nem o pai morre, nem a gente almoça".

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De morte

por Miguel Bastos, em 20.07.21

dolmen.jpg

Mais velho - Foi p'rós anjinhos.
Mais novo - Está a fazer tijolo.
Mais velho - Encostou o barrote.
Mais novo - Bateu as botas.
Mais velho - Bateu a caçoleta.
Pai - O que é estão para aí a dizer?
Mais novo - Estamos a conversar, pai.
Pai - A conversar?
Mais velho - Sim. Ai, mano, esta conversa mata-me!

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Marvin Gaye

por Miguel Bastos, em 01.04.21

Marvin Gaye morreu, faz hoje 38 anos. Em 2021, há quem insista que Marvin não morreu. Como os malucos que acham que o Elvis continua vivo. Mas, neste caso, os malucos fazem bem. Estes malucos fazem mesmo bem.

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