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"Quem é que morreu desta vez?" A pergunta é recorrente, lá em casa. Normalmente, surge quando me veem a procurar um disco, ou quando ouço um disco ou um intérprete, com mais insistência. "Não morreu ninguém", disse eu, este fim-de-semana, ao colocar, no gira-discos, o álbum "Outra vez", de Gabriela Schaff. É o maravilhoso disco de "Leva-me ao cinema". Apaixonei-me por ele, na rádio, e resgatei-o, uns anos mais tarde. Estava em promoção, numa discoteca que estava a desfazer-se dos velhos discos de vinil, para dar espaço ao CD. Quando o (re)ouvi achei-o (ainda) melhor. Descobri, depois, na ficha técnica, que o disco tinha sido gravado em Nova Iorque (sim na América) e que tinha a participação de Jerry Marotta (hã?) e Tony Levin (uau!) - músicos que conhecia, por exemplo, dos discos de Peter Gabriel.
"Outra vez" tinha como produtor e compositor o (multi) talentoso Nuno Rodrigues, da Banda do Casaco - aquela banda do "Não há cú que não dê traque", que a minha mãe só nos deixava cantar em versão censurada "com piii", que "isso não se diz". A Banda do Casaco sempre foi uma banda indefinível: umas vezes parecia "popular portuguesa", outras parecia "pop-rock" e outras, apenas, uma coisa esquisita. Produtor, compositor, músico, editor - a carreira de Nuno Rodrigues cultivou sempre uma (deliciosa) promiscuidade criativa, fazendo germinar as carreiras de Rui Veloso, UHF e Trovante; compondo canções de grande espiritualidade, como "Telepatia", de Lara Li, ou de grande fisicalidade, como "Ali-Babá", das Doce.
Gabriela Schaff cantou Nuno Rodrigues, na Banda do Casaco, e, depois, a solo: canções como "Eu Só Quero", "Um homem muito brasa" ou "Leva-me ao cinema". Este fim-de-semana, ao colocar o disco "Outra vez" a girar, estava longe de imaginar que, pouco depois, a resposta ao "Quem é que morreu desta vez?" iria ser diferente.
Morreu Nuno Rodrigues: tinha 76 anos.
Para ouvir, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=qGNJbyuEkMI
Os heróis não existem. Ou, então, existem - na nossa cabeça - porque precisamos deles. Precisamos de figuras de referências, que nos sirvam de exemplo, mas, também, de garantia de segurança, de porto de abrigo. Francisco Pinto Balsemão não era um herói, mas parecia. Fundador da democracia e do PSD. Fundador de Expresso e, depois, de um império de comunicação social. Desaparece numa altura em que a democracia está ameaçada. Numa altura em que o jornalismo e a comunicação social estão em crise. Numa altura em que o seu próprio grupo de comunicação dá sinais de fragilidade. Numa altura em que precisamos de heróis - que não existem (já sabemos) mas que continuamos a precisar.
Roger Casement partiu para o Congo Belga, cheio de sonhos. Só que - em vez do poder civilizador do rei Leopoldo II, que se vendia na imprensa internacional - deu de caras com a colonização mais selvagem de um país europeu, em África. Durante vários anos, Roger denunciou a política belga e mudou a opinião pública britânica e internacional. Ao regressar ao Reino Unido, foi armado cavaleiro. Mas, Roger era irlandês e começou a questionar se o império britânico não fazia com os irlandeses, como ele, o mesmo que o rei dos belgas fazia com os congoleses.
A questão colonial tornou-se uma questão identitária. Roger começou a estudar a história e a cultura da irlanda. Tentou aprender gaélico, mas nunca conseguiu dominar uma língua que devia ser a sua. O que o levou, também, a questionar que raio de irlandês era ele, que não conseguia falar a língua dos irlandeses e que sonhava em inglês - a língua do colonizador. E há, ainda, uma outra dimensão identitária que o aflige: a sua sexualidade - que vai transformar O sonho do celta, num pesadelo.
Quincy Jones morreu, hoje, aos 91 anos de uma vida cheia. A partir de um tronco com raízes no jazz, ramificou a sua música: soul, funk, disco, pop, hip-hop. Trabalhou com músicos de várias gerações e estilos musicais. Mas, apesar de até ter chegado a colaborar com Sinatra, vai ser lembrado, sobretudo, como o produtor de “Thriller”, o disco “blockbuster” de Michael Jackson. Por mim, que nem simpatizo muito com o disco, acho uma pena. Mas isto sou eu. Cada um tem o direito a celebrar o Quincy Jones de que mais gosta. E há tanto por onde escolher! Hoje, escolhi este.
Por norma, não gosto de sequelas. Mas desta gostei. O "Namoro II", dos Trovante, é uma sequela do "Namoro", do Fausto, que eu conhecia dos concertos, do Godinho. "Aí, Benjamim", gritávamos nós, da plateia, para que o Sérgio, no palco, nos ouvisse. Para perceber melhor a letra do "Namoro II", ouvi, vezes sem conta, o "Namoro" que o Godinho gravou (com o Fausto na guitarra, curiosamente) no álbum "De pequenino se torce o destino". Finalmente, 3 anos depois do "II", eis que Fausto grava, finalmente, o "seu Namoro", no álbum "A preto e branco" - o mais africano dos seus discos. Em vez de escolher um namoro, em vez de afirmar que não há amor como o primeiro, fico com os três. Fico com um tríptico, ao gosto de Fausto.
No dia da morte de Fausto, recupero este texto, com cerca de ano e meio.
"Não se deve confundir", diz a expressão, "a obra-prima do mestre, com a prima do mestre-de-obras". "Por este rio acima" é uma obra-prima e acaba de fazer 40 anos. Baseado nas viagens de Fernão Mendes Pinto, as letras do disco são um mergulho nas profundezas dos descobrimentos. Por vezes, o mergulho exige apneia: cheira a morte, a doença, a carne queimada e esventrada. Não há, aqui, qualquer exaltação ao lado bravo, guerreiro e conquistador - apenas, o lado escuro dos descobrimentos. A riqueza das letras é tão grande que acabou por secundarizar, involuntariamente, a riqueza das canções, dos arranjos, dos instrumentos. As percussões tradicionais portuguesas, mas também as tablas e as baterias; a guitarra portuguesa e o cavaquinho, tal como o alaúde e a viola de gamba; o piano acústico e os sintetizadores; as cordas e os instrumentos de sopro. Tantos instrumentos que acompanham a voz e a viola acústica de Fausto, omnipresentes, que, ora nos levam para paisagens exóticas e longínquas; ora nos trazem de volta a Portugal, com ritmos e melodias que nos são familiares. Obra-prima.
"Por este rio acima" é um álbum duplo, denso, conceptual, com um pequeno "libreto" ilustrado no interior. A viagem cresceu para trilogia, de forma tão avassaladora que (porventura) acabou por se sobrepor à obra integral de Fausto, que pode/deve ser (re)descoberta. Estamos perante um caso em que não se confundiu "a obra-prima do mestre, com a prima do mestre-de-obras", mas em que, por causa da obra-prima, se poderá ter deixado de reconhecer, devidamente, o mestre que a criou.
- Mas, vamos todos morrer, pai?
- Vamos, filho.
- Mas isso não é justo
- Pois não, mas são as regras do jogo.
- E não dá para mudar?
- Não. Mas temos um plano.
- Qual é?
- Mais cedo ou mais tarde, vamos todos morrer, não é? Portanto, o plano é... mais tarde.
- É, esse, o plano?
- É. Eu sei que não parece grande coisa, mas é o que temos. Tentar ter uma vida boa, com os que mais amamos: ter cuidado com a saúde, comer poucos doces, fazer ginástica, ir à escola, ser um bom menino, fazer amigos, amar a família... é por aí.
- Ah... mesmo assim, estou triste.
- E deves estar, filho. Ficamos tristes, quando nos morre alguém tão especial.
- E já não volta?
- Não. Mas não te esqueças do plano. Já que, mais cedo ou mais tarde, vamos todos morrer, vamos fazer tudo para que seja... mais tarde.