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Pipi

por Miguel Bastos, em 11.10.23

O líder do PSD disse que o Orçamento do Estado é muito "pipi", muito "betinho", e toda a gente aplaudiu. Eu ainda comecei a aplaudir, mas, depois, reparei que estava de blazer e calças beges. E contive-me

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Indivíduos

por Miguel Bastos, em 14.09.23

No fundo, o que são indivíduos?

São pessoas, como nós.

Só que usam o casaco pelas costas.

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Cabelos brancos

por Miguel Bastos, em 27.06.23

- Cortaste o cabelo?
- Cortei.
- Não devias cortar tanto. Pareces mais velho.
- Ai, sim?
- Sim, notam-se mais os cabelos brancos.
- Certo.
- É engraçado, tu és o mais novo, mas és o que tem mais brancas.
- Obrigado, mãe, também gosto muito de ti.

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Sem músicos

por Miguel Bastos, em 13.06.23

pet shop boys.jpg 

"Espetáculos musicais, sem músicos, sabem-me a pouco", disse David Ferreira, esta manhã, na Antena 1. A afirmação veio a propósito das passagens de Rosalía e dos Pet Shop Boys pelo Primavera Sound. A Rosalía diz-me pouco, porque conheço pouco. Já os Pet Shop Boys dizem-me muito. São das minhas bandas preferidas. E, mesmo assim, não me chamaram ao festival. Nos festivais desfilam-se os sucessos do costume, os Pet Shop Boys praticamente não usam músicos em palco e (convenhamos) Neil Tennant é um cantor muito limitado. Portanto, sem música, sem músicos e sem cantor, ficamos com o quê?
Mais de 40 anos depois, continua a ser difícil apresentar música pop, de pendor eletrónico, em palco. Durante muito tempo, várias bandas optaram por fazer discos, sem os apresentar ao vivo. Depois, com a fiabilidade das tecnologias musicais e com o desenvolvimento das tecnologias visuais (e com o quase fim da venda de discos) fizeram-se à estrada. Vi as imagens do palco dos Pet Shop Boys e (sinceramente) gostei muito do que vi. Esteticamente, os Pet Shop Boys (as capas dos discos, os videoclips, as roupas, os palcos) sempre foram irrepreensíveis. Mas, temo que o apuro estético resulte num ciclo vicioso. As imagens servem para ilustrar a falta de música e vice-versa. Os músicos, os cabos, os "roadies" estragam o cenário. Temos visto isso, todos os anos, no Festival da Canção e da Eurovisão.
Já viram os Pet Shop Boys, ao vivo, com um coro, percussionistas, naipe de metais, orquestra de cordas e com o Johnny Marr, na guitarra? Eu já. Não me soube a pouco, soube-me a tanto. Infelizmente foi, apenas, na minha cabeça. 

David Ferreira a contar, aqui:

https://www.rtp.pt/play/p955/e698104/david-ferreira-a-contar

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Preto e cores

por Miguel Bastos, em 18.05.23

padroes.jpg 

- Gostas muito de vestir de preto, não é?
- Gosto. Mas, também, gosto de cores.
- Não tens um padrão?
- Não, tenho vários.

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Depeche Mode

por Miguel Bastos, em 22.03.23

songs.jpg 

Nem me tinha apercebido, mas este maroto acabou de fazer 30 anos. Os Depeche Mode estavam no pódio das maiores bandas do mundo, quando editaram "Songs of Faith and Devotion". O mundo pop-rock tinha mudado muito, desde o anterior "Violator": grande parte da pop eletrónica virara-se para as pistas de dança e o rock voltava a ser fresco, com os Nirvana e o "grunge". Os U2 refletiram os ares do tempo, na obra-prima "Achtung baby". Para muitos, faltava saber se, depois de "Violator", os Depeche Mode fariam o seu "Achtung baby". Tentaram. Nunca os Depeche Mode tinham ido tão longe. Na verdade, nunca mais foram. "Songs of Faith and Devotion" é um disco ambicioso, grandioso, magistral. A banda carregou, ainda mais, nas guitarras e nas texturas rítmicas (com a forte presença da bateria). Mas, também, nos acordes poderosos e nos refrões orelhudos. Abordaram o rock, os blues, o gospel, a soul, a música ambiental e industrial. As canções são de "fé e devoção", de amor e sexo. Os temas habituais, com o negrume característico da banda. Nessa altura, os Depeche Mode já eram a maior banda alternativa de estádio. Partem para uma digressão que os vai levar ao colapso. Usam e abusam dos clichés do "rock and roll", até se tornarem num. Dave parecia um drogado, porque era um drogado. Martin abusava no álcool. Andrew teve um esgotamento. Alan deixou a banda, no final da digressão. Nunca mais voltou. De resto, a música dos Depeche Mode (que me perdoem os fãs) nunca mais voltou a ser tão relevante. Entrou em queda livre. E "Songs of Faith and Devotion" não chegou a ser "Achtung baby". Que pena.

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Pouca roupa

por Miguel Bastos, em 21.03.23

E eis que chega a primavera. Tempo de amor e poesia. Um casal de adolescentes passa por mim: ele, de calções de moletão e camisola de manga cava; ela, de top e minissaia, muito, muito mini. São ultrapassados, por outro jovem, de passo estugado, sapatilhas de corrida e tronco nu. Calma, malta. Eu sei que está bom tempo e que apetece tirar a roupa. Mas, ainda não chegámos: nem à Madeira, nem aos 20 graus, nem ao verão. Aliás, quando chegarmos ao verão vão tirar o quê? O apêndice?

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Raves

por Miguel Bastos, em 20.03.23

branko.jpg

- Afinal, o que é isso das "raves"? - perguntou-me o Joaquim.

- São festas com música de dança, noite fora.

- Música de dança, como? Danças de salão? Disco? Samba?

- Basicamente, música eletrónica: house, techno.

- Então, é uma noite de discoteca normal.

- Acaba por ser. Mas, muitas vezes, as "raves" são feitas em sítios diferentes. 

- Tipo…

- Zonas industriais, monumentos, praias...

- Ah. E depois, ficam na praia?

- Não, depois as pessoas estão estoiradas e vão para casa dormir.

- Que pena. Quando eu vivia em Angola, também fazíamos festas para dançar a noite toda.

- A sério?

- É. Eu e os meus amigos pretos das cubatas. Depois, íamos comprar pão e ficávamos na praia, a dormir.

O Joaquim viveu em Angola, até 1975. África está-lhe entranhada na pele. De tal forma que, apesar de ser branco, muita gente chama-lhe "preto": o "Quim Preto". Lembrei-me dele, porque fui a uma festa, num teatro, que parecia uma "rave". Parecia, mas não foi. Porque acabou, ao fim de hora e meia. Enfim, coisas de Branko.

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Paris, sempre

por Miguel Bastos, em 14.03.23

paris.jfif 

Gosto muito destes dois vizinhos: tão diferentes, tão iguais. Comecemos pelas capas. Parecem daqueles discos baratinhos, que se vendiam nas margens do Sena, a turistas apressados, na cidade dos clichés: "a cidade luz", "a capital do amor". "Ah, Paris!"; "Ah, o Arco do Triunfo!"; "Oh, a Torre Eiffel!". Na realidade, o disco original de Michel Legrand chama-se "I Love Paris" e não tem esta capa. Começa com o tema-título, o clássico de Cole Porter, e equilibra-se, ao longo do disco, entre visões "de fora" e "de dentro" sobre Paris. Os compositores vão de Jerome Kern a Offenbach. As orquestrações, de Legrand, respiram "jazz" e "chanson", em doses generosas.
 
Se a Paris, de Legrand, é moderna e cosmopolita, a Paris, de Dimitri from Paris, é pós-moderna. Não rejeita um só cliché. Pelo contrário, assume-os todos: absorve-os, acentua-os e devolve-nos os clichés, de forma diletante e divertida. Inventa um personagem: o sargento Bill T. Hawthorne que terá desembarcado na Normandia, para libertar Paris, onde uma tal Monique lhe prendeu o coração, em Montmartre. Mostra o "Monsieur Dimitri", na sua "pied à terre", na Riviera francesa. A música, entrecortada por vários interlúdios, mistura rimos latinos, "house" e "funk", com música de bar de hotel e filmes de espiões. Uma delícia. No final, ouve-se alguém a dizer: "Ah, Paris sera toujours Paris". Será. Paris será o que cada criador quiser. Será o que cada um de nós quiser.

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Um urso para Canijo

por Miguel Bastos, em 28.02.23

 canijo.jpg

Este fim de semana, o cinema de João Canijo foi premiado, em Berlim. Hoje, tropecei com este texto, no meu computador.
 
2002 era futuro. 1999 e 2001 também foram. É estranho falar do futuro, com tempos verbais do passado. Mas, de facto, no passado, falava-se mais do futuro. Nos anos 70 e 80 vivemos o futuro com o “Espaço: 1999” ou o “2001: Odisseia no Espaço”. Eu escolhi o 2002, para a minha odisseia: ver o meu primeiro filme no cinema. O Estúdio 2002 tinha aberto, há pouco tempo. Na altura, os cinemas-estúdio eram o futuro. Eram mais pequenos, mais confortáveis, mais modernos. O Estúdio 2002 tinha espelhos no tecto, paredes pretas, carpetes vermelhas, cadeiras brancas. Era o local ideia para ver um filme do James Bond.
 
A cortina (vermelha) abriu-se e os meus olhos deslumbraram-se com o genérico do senhor Bond: tons escuros, ambiente de mistério e uma luz (vermelha) a sair de uma pistola, com o nome dos artistas. O cinema e o filme pareciam maravilhosamente unidos aos meus olhos. A simbiose era perfeita: luxo, charme, elegância e sedução - na tela e fora dela. De tal modo, que tive esperança de encontrar James Bond, ao intervalo, a beber um Martini, ao balcão - “shaken, not stirred”. O 2002 era um local suficientemente requintado para receber o agente secreto mais elegante do mundo. Infelizmente, o senhor Bond não estava no bar e, também, não o vi à saída. Olhei o cartaz de “Octopussy - 007 Operação Tentáculo” e pensei que tinha escolhido o melhor local para ver o filme.
 
Numa das últimas vezes que voltei ao Estúdio 2002, o filme era bem diferente: “Sapatos Pretos”, de João Canijo. O filme conta a história de uma mulher, presa a um homem machista e violento. Canijo já estava especializado em retratos de Portugal. Um Portugal de “faca e alguidar”, em oposição ao “país de brandos costumes”. Um Portugal feio e sórdido, que contraria o “jardim à beira mar plantado”. No filme, a protagonista tenta mudar de imagem: pinta o cabelo, compra roupas novas, aumenta o peito, arranja um amante. Quer mudar de vida e, para isso, pensa matar o marido. Assim contado, podia ser uma história de telenovela ou uma comédia, mas o filme é tudo menos isso. A dada altura, há uma cena particularmente violenta, que chocou muitas pessoas da plateia - ao ponto de ter sido necessário chamar uma ambulância para socorrer uma senhora. Antes da projecção, tinha falado sobre essa cena numa entrevista com o realizador, que, agora, olhava para mim, atónito, surpreendido com as sirenes, os bombeiros e a aflição da senhora.
 
Não sei se foi por influência do filme, mas olhei à volta e o meu 2002 também me parecia velho e gasto. No filme não havia nada de glamoroso na transformação física da personagem principal: aquele louro era de actriz de novela mexicana, as roupas eram mau gosto, o amante era um galã de pacotilha. O Estúdio 2002 estava parecido: as carpetes estavam gastas, as cadeiras encardidas, os espelhos fora de moda. Voltei a sentir uma estranha união entre o cinema e um filme, mas desta vez pelas piores razões. 2002 já era passado.
 

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