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"O apagão fez acender um amor, inesperado, à rádio", escrevei há um mês. Nessa altura, lembrei-me de um outro apagão no (fugazmente ressuscitado) Rádio Clube Português. Dessa vez, o apagão chegou com aviso. A zona dos estúdios da Media Capital Rádios iria ficar sem eletricidade, devido a uma intervenção na rede elétrica. O aviso fora comunicado à empresa que detinha, ainda, a Rádio Comercial, a m80, entre outras. Aos microfones do Rádio Clube Português, Aurélio Gomes e Teresa Gonçalves (acho que não me estou a enganar) partilharam a informação com os ouvintes. Iriam fazer emissão, até deixar de ser possível.
O que se ouviu, depois, foi ao apagão da rádio em direto. "A eletricidade acabou de ser cortada. A partir de agora estamos a funcionar, apenas, com o recurso aos geradores da Media Capital". O episódio foi há mais de 15 anos, e não me lembro da sequência. Mas, o que aconteceu foi que os equipamentos foram entrando em falência, uns atrás dos outros: "já não temos internet"; "a rede interna deixou de funcionar"; "perdemos o contacto com a régie"; "ainda temos música", "o sistema de áudio colapsou", "a mesa de mistura, vai-se apagar", "vamos deixar de ter microfones dentro de alguns segundos". Até que chegou o silêncio.
Comentámos - entre nós, na rádio - aquilo que tinha acabado de suceder. Houve quem achasse que a emissão não tinha feito sentido nenhum. Devia-se ter dito, logo, que "a partir das 'x' horas, vamos deixar de ter emissão". Outros acharam brilhante, a ideia de emitir até ao apagão total. Eu era um desses. Sei que muita gente ouviu com a curiosidade de ver o acidente na autoestrada. Mas eu achei muito interessante levar a resistência da rádio, até ao limite. Como aconteceu, há um mês. Desta vez, porém, a minha rádio não se calou.
Os queridos andam-nos a mudar a casa. Ainda faltam imensas coisas: cortinados, reposteiros, naperones, alcatifas, lustres, etc. Mas, já temos uma mesa nova. E é linda!
"Ai, queridos, estou tão triste. O meu Balsemãozinho vai-nos vender a todos!" A nossa camarada tinha todas as razões para estar triste. O último grande patrão dos media preparava-se, na altura, para vender todas as revistas do grupo Impresa. "Sabe-se lá, para quem é que vamos trabalhar..." Esse era, de facto, um grande problema. E continua a ser. Para o melhor e para o pior, sabia-se de quem eram as revistas. Quem era o "patrão". A quem é que se devia dirigir os elogios. A quem é que se podia fazer críticas, pedir responsabilidades e exigir explicações. Os grandes patrões dos media têm vindo a ser substituídos pela mão invisível do capitalismo financeiro. Sem rosto. Cada vez mais, os jornalistas, essenciais para o escrutínio da democracia, trabalham para organizações que são muito pouco escrutinadas e muito pouco escrutináveis. São fundos, que detêm empresas, que controlam outras empresas, que se dizem donos das empresas de media. O que poderão dizer, atualmente, os jornalistas com a vida em suspenso: "Ai, a minha "comparticipadazinha", com capitais de risco, vai-nos vender a todos" ou "Ai, o meu "offshorezinho" vai-me despedir"?
"A rádio dá a ver. Pode parecer obsceno, mas muitas vezes a rádio consegue dar a ver com maior eficácia, com maior verdade, do que a televisão." Fernando Alves, no Público. Estou a ver a rádio, no jornal.
O líder do PSD responde a uma pergunta. Depois, responde a uma segunda. E, finalmente, responde a uma terceira. Três perguntas feitas, inevitavelmente, por três jornalistas da televisão. Depois, o líder do PSD faz um movimento para trás, em direção ao microfone: "e um bom ano para todos". "Bom ano!", ouço alguém a responder. Reconheço-lhe a voz. É de um camarada da rádio. A rádio: um meio que a generalidade dos políticos teima em ignorar. Mesmo agora, numa altura em que uma delas se está a afundar, perante a estupefação de tantos. Claro que esta é a altura de arregaçar as mangas, pegar num balde e tirar a água do convés. Mas nada nos impede de pensar, como é que chegámos aqui.
Hoje, estacionado na Antena 2. Próxima estação, Antena 3.