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Maestro Stromae

por Miguel Bastos, em 04.04.22

stromae.jpg

Stromae. O nome é um anagrama da palavra "maestro". "Maestro" tem dois significados distintos, mas interligados: compositor (de música) e regente (de um grupo de músicos). A palavra "maestro", por sua vez, vem da palavra latina "magister", que está, também, na origem da palavra "mestre". Dá para antever, Stromae é mais do que um cantor pop - é todo um programa.

Com, apenas, dois discos, Stromae tornou-se uma grande estrela no mundo francófono. A sua fama alastrou-se, depois, a outros territórios: europeus, africanos e americanos. Foi por essa altura que Stromae teve uma reação, grave, a um medicamento contra a malária, a que se seguir uma depressão, prolongada. O regresso, passados quase 10 anos, parte desse inferno pelo qual passou. A canção "L’enfer", o videoclip e a estratégia de marketing (com uma entrevista jornalística a desaguar numa atuação para a televisão) são perturbadores. Mas já tinha sido assim quando questionou o mundo do trabalho e do dinheiro com "Alors on danse", ou quando simulou uma estrela pop embriagada em "Formidable".

Stromae é um artista transversal. É um poeta, um compositor, um produtor, um esteta. Não lhe bastam as canções (mesmo que elas se bastem por si), pensa na forma como as veste: em videoclips cuidados, em eventos mediáticos, em apresentações ao vivo pensados ao pormenor: cenário, luz, som, coreografia, guarda-roupa. E, sim, ele também tem preocupação como o que veste: tanto que tem uma linha de moda (a "Mosaert" - mais um anagrama, este lembra Mozart). Stromae é maestro e mestre, em várias artes. É um dos artistas mais estimulantes da atualidade. O disco "Multitude" é uma obra-prima.

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Maestrinas

por Miguel Bastos, em 10.03.22

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Com 13/14 anos, Alondra de la Parra já queria ser maestrina. Mas depois perguntava-se, a si própria, como é que isso seria possível: "Os maestros têm de ser alemães, muito velhos e de cabelo branco. Eu sou mexicana, sou uma criança e sou mulher". Bem, Alondra de la Parra é maestrina. Já não é criança (o tempo cura tudo!), mas continua a ser mulher e mexicana. A sua história passou, ontem à noite, na RTP 2, e apanhou-me a meio de outra história - a de Angela Merkel. Esta é alemã, mas essa será a única vantagem. Aliás, é só meia vantagem. Porque Angela veio da Alemanha de Leste. As restantes caraterísticas, eram semelhantes, na desadequação. Era uma mulher, no meio de homens. Era uma jovem cientista: demasiado jovem, demasiado provinciana, demasiado descuidada.
Ambas sabem que, lá fora, existe um mundo de oportunidades. E agarraram-nas. Mas, também sabem que o mundo não é justo. E, no entanto, ele move-se. Umas vezes, aproveitaram as mudanças do mundo. Outras vezes, promoveram, elas próprias, essas mudanças. Umas vezes, foram (ainda) aprendizes. Outras vezes, foram (já) feiticeiras. Maestrinas, as duas: cada uma à sua maneira.
 
Para ver o documentário: clicar na imagem.

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Desafinação

por Miguel Bastos, em 20.05.21

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Em 1999, um professor palestiniano e um maestro israelita fundaram uma orquestra, com músicos árabes e judeus, de Israel e da Palestina, e de vários países do médio-oriente. Edward W. Said e Daniel Barenboim queriam chamar a atenção para o conflito israelo-palestiniano e a Orquestra West-Eastern Divan tornou-se um exemplo de que é possível trabalhar, em harmonia, com pessoas de diferentes religiões, etnias e nacionalidades.
 
O esforço de ambos tem sido compensado com salas cheias e prémios, em todo o mundo. Mas, também houve dissabores: particularmente, em Israel. Em 2001, Barenboim foi criticado por interpretar Wagner (compositor conotado com o antissemitismo), com uma orquestra alemã, em Jerusalém. Dois anos depois, Said morreu. E, no ano seguinte, vários políticos israelitas manifestaram desagrado com o discurso do maestro, quando recebeu um importante prémio, na área da música. Barenboim questionou a violação dos direitos fundamentais dos palestinianos, por parte de Israel, e afirmou que não percebia como é que o povo judeu - alvo de tantas discriminações, perseguições, deportações e mortes - podia ficar indiferente ao sofrimento dos palestinianos.
 
Descendente de judeus russos, Daniel Barenboim nasceu na Argentina e mudou-se para Israel, aos 10 anos. Aos 15 anos, obteve passaporte israelita. Há 15, obteve passaporte palestiniano. Na altura, considerou que um judeu com passaporte palestiniano funcionava como metáfora da solução "dois estados independentes", a única forma de alcançar a paz na região. Mas, a esperança de Barenboim parece ter terminado. O maestro não toca em Israel, há mais de 10 anos. Pior, afirma que não o voltará a fazer. O ouvido de Barenboim não aguentou tanta desafinação.
[Foto: Mohammed Salem / Reuters]

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