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Reconhecer Amália

por Miguel Bastos, em 11.08.20

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“E Ceausescu pede Amália”, escreve Miguel Carvalho em “Amália - Ditadura e Revolução”. Em 1975, o presidente da Roménia comunista estava de visita ao Portugal do PREC e pediu para ouvir a cantora que, por essa altura, em Portugal, era chamada de “fascista” ou “princesa da PIDE”. Antes de ser adoptada pelo Estado Novo como produto de exportação, Amália (como o fado, em geral) tinha sido alvo da sobranceria dos intelectuais do salazarismo. Com o 25 de Abril, voltou a sofrer do mesmo tipo de discriminação. Agora da bancada contrária.

Amália não precisou do 25 de Abril para atravessar a cortina de ferro. Em 1969, esteve, inclusivamente, na capital do império vermelho. Também não precisou do 25 de Abril para cantar as melodias de Alain Oulman, e a poesia de Ary dos Santos, David Mourão-Ferreira ou Manuel Alegre. Fê-lo sem olhar às convicções políticas de quem a rodeava, e isso nem sempre lhe foi reconhecido.

A perseguição política que lhe fizeram, depois do 25 de Abril, foi tão absurda como a apropriação que lhe tentaram fazer, durante o Estado Novo e, mais tarde, durante a consolidação da democracia. Amália nem sempre terá sido hábil na gestão do seu relacionamento com os poderes políticos, mas foi sempre muito hábil na gestão da sua carreira artística. E foi pelo meio artístico que foi sendo resgatada. Não pelos artistas de antigamente, mas pelos novos artistas emergentes de então: António Variações ou Carlos Paião, primeiro; Madredeus ou Dulce Pontes, mais tarde.

“Amália - Ditadura e Revolução” é um contributo rigoroso para conhecermos Amália, no contexto social e político em que a sua carreira se desenvolveu. Mas é, também, um contributo extraordinário para nos reconhecermos a nós próprios: enquanto indivíduos e enquanto portugueses.

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Eu e o Salazar

por Miguel Bastos, em 08.06.20

salazar saraiva.jpg

O novo livro de José António Saraiva chama-se "Salazar - A Queda de Uma Cadeira que Não Existia". Confesso, estou desiludido: depois de "Eu e os Políticos" e de "Eu e os outros" tinha a expectativa (mais do que legítima!) de que um livro de José António Saraiva sobre Salazar se chamasse "Eu e o Salazar". Não foi, no entanto, a escolha do antigo diretor do Expresso e do Sol. Fica a minha sugestão. Já que se propõe a desmistificar a queda de Salazar de uma cadeira, durante as férias deste no Forte de S. António do Estoril, José António Saraiva poderia chamar ao livro "As minhas férias com Salazar". É um título muito original e mais próximo do universo do autor. 

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De Malraux a pior

por Miguel Bastos, em 15.05.20

Andre Malraux.jpg

Mal começou a epidemia, as pessoas correram às livrarias para comprar "A peste", de Albert Camus, e o "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago. "Que escolha estranha!", pensei, "para ler sobre desgraças, basta abrir os jornais". De modo que pensei em algo mais leve. E peguei no livro "A Condição Humana", de André Malraux, cuja leitura estava adiada há muito. Para não perdermos muito tempo, vou já para o final da história. Um dos protagonistas morre, estilhaçado, vítima da bomba com a qual pretendia matar um líder político. Outro morre, queimado, depois de ser atirado para uma fogueira. E outro, ainda, suicida-se, recorrendo à ingestão de cianeto. Eu devia ter suspeitado que - ao contrário do que eu pensava - "A Condição Humana" não era um livro de auto-ajuda. Até porque o primeiro homicídio ocorre na terceira página. Mas, o que é que hei-de fazer? Pensei que a condição humana iria melhorar! Penso sempre, aliás. Só que, às vezes, engano-me.

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Língua Portuguesa

por Miguel Bastos, em 05.05.20

A binha bátria é a lígua burtuguesa (Fernando Pessoa, um bugadinho gunstipado). Hoje celebra-se, pela primeira vez, o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

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Amor e amizade

por Miguel Bastos, em 21.04.20

nao te afastes.jpg

Tinhas razão, meu filho, este livro não é para a tua idade. Fala de uma criança que foge de casa, carregando, aos ombros, uma culpa que lhe esmaga o peito. Nenhuma criança deveria carregar essa culpa. Nem ser ameaçada por adultos, que se aproveitam da sua solidão e do seu desespero. O livro parece um filme. Daqueles filmes-catástrofe, apocalípticos, de que eu nem costumo gostar. Mas - pensei - já que foste corajoso para ler as primeiras (e assustadoras) páginas e não paraste até chegar ao fim, não havia razão para eu não tentar a minha sorte. Ainda bem que tentei. Mais um livro maravilhoso de David Machado. Que fala da culpa, da coragem, da necessidade de correr riscos e de tomar decisões. Mas que fala, sobretudo, de amor e amizade. No fundo, as coisas que nos interessam: a ti a mim. 

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Adeus, Sepúlveda

por Miguel Bastos, em 16.04.20

Há pouco mais de um mês, escrevi este texto sobre Luís Sepúlveda. O meu desejo de que voltasse depressa não se concretizou, infelizmente.

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"Há cerca de 6 anos, um bicho manhoso atirou-me para a cama de um hospital. Queria-me matar, o animal! Felizmente, não conseguiu. Mas, entre muitas coisas, o bicho manhoso tirou-me a capacidade, física e mental, de ler. Eu queria ler, precisava de ler, mas não conseguia. Estava demasiado debilitado para romances, ensaios ou biografias. Tentei ler pequenos contos, livros infantis, mas nem esses conseguia. As letras dos jornais tremiam, os livros de banda desenhada trocavam-me os olhos. Passei a folhear novelas gráficas, livros de design, de arquitetura. Mas, faltavam-me as palavras. As primeiras chegaram-me, a custo, num livro de Sepúlveda: a "História de um gato e de um rato que se tornaram amigos" trouxe-me as primeiras palavras escritas, em semanas. O livro, maravilhosamente ilustrado, permitiu-me sair da cama do hospital, para os telhados de Munique, onde a história se desenrola. Hoje, é Luís Sepúlveda quem está doente. Espero que volte depressa para as palavras, que as palavras o levem para onde ele quiser. E, se for possível, que nos leve com ele."

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O vírus de Sepúlveda

por Miguel Bastos, em 03.03.20

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Há cerca de 6 anos, um bicho manhoso atirou-me para a cama de um hospital. Queria-me matar, o animal! Felizmente, não conseguiu. Mas, entre muitas coisas, o bicho manhoso tirou-me a capacidade, física e mental, de ler. Eu queria ler, precisava de ler, mas não conseguia. Estava demasiado debilitado para romances, ensaios ou biografias. Tentei ler pequenos contos, livros infantis, mas nem esses conseguia. As letras dos jornais tremiam, os livros de banda desenhada trocavam-me os olhos. Passei a folhear novelas gráficas, livros de design, de arquitetura. Mas, faltavam-me as palavras. As primeiras chegaram-me, a custo, num livro de Sepúlveda: a "História de um gato e de um rato que se tornaram amigos" trouxe-me as primeiras palavras escritas, em semanas. O livro, maravilhosamente ilustrado, permitiu-me sair da cama do hospital, para os telhados de Munique, onde a história se desenrola. Hoje, é Luís Sepúlveda quem está doente. Espero que volte depressa para as palavras, que as palavras o levem para onde ele quiser. E, se for possível, que nos leve com ele.

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Peter Handke

por Miguel Bastos, em 10.10.19

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"Ai Miguel, você é tão deprimente!", dizia-me a Maria João. Eu, apenas, pedira à minha explicadora de alemão algumas referências culturais germânicas. A Maria João já tinha encolhido os ombros ao Wim Wenders e torcido o nariz ao Mahler. À pergunta "E o Peter Handke?" veio a resposta "Ai Miguel, você é tão deprimente!", seguido do conselho "Porque é que não lê antes os americanos?". Tenho tentado, Maria João. Mas, já agora, era só para lhe dizer que o Peter Handke ganhou o Prémio Nobel: da Depressão, ou lá o que é.

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Em nome do filho

por Miguel Bastos, em 30.08.19

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Eu sabia que esse dia ia chegar. E, no fundo, desejava-o, ansiosamente. Mas, nunca pensei que esse dia chegasse tão cedo. O dia em que um filho aconselha um livro ao pai. Ainda por cima, um livro que fala de um filho, à procura de um pai que se perdeu nos livros. Ele há coisas... 

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Quem vê caras...

por Miguel Bastos, em 21.05.19

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"Quem vê caras não vê corações e quem vê likes também não. Mas sabe bem à brava. Com tanta gente a gostar de nós, até nós gostamos de nós, apesar de tudo o que sabemos a nosso respeito."
Álvaro Magalhães, O Estranhão - Quem vê likes não vê corações!

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