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Dia da língua portuguesa

por Miguel Bastos, em 05.05.22

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Palavras, no dia da língua.
 
"Tu tens de aprender a guardar as coisas de pensar. Se souberes escrever, as folhas de papel serão caixinhas onde podes arrumar com palavras tudo aquilo que não queres esquecer. E as folhas de papel, tão planas e aparentemente vazias, adquiriam fundura, uma dimensão inesperada, porque se eu soubesse escrever pirilampo, para sempre um pirilampo estaria ali, talvez até de cauda acesa, à minha espera. Meu, sem ir embora. Eu disse: é a minha palavra preferida. A minha mãe respondeu: eu sei."
 
Valter Hugo Mãe, Contra mim, 2020

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Compreender a guerra

por Miguel Bastos, em 22.04.22

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Compreender não é sinónimo de aceitar, nem de concordar, nem de justificar. Por exemplo, ao longo dos anos, tenho tentado "compreender" como é que foi possível Hitler conquistar tantos países europeus, em tão pouco tempo. Chamar-lhe ditador (que era), louco (sim), racista (claro), criminoso (pois), etc. não explica tudo. A verdade é que Hitler beneficiou do medo de uns e da indiferença de outros, da ingenuidade de uns e da cumplicidade de outros. Quando invadiu metade da Polónia, já tinha acordado, com Estaline, que a União Soviética invadiria a outra metade. Muitos dos países que a Alemanha invadiu, tinham largas fatias de população que simpatizava com o nazismo: fosse em França ou na Ucrânia. A União Soviética só mudou de ideias sobre o pacto de não-agressão, assinado com Hitler, quando já tinha tropas nazis no seu território. Os Estado Unidos só perceberam que tinham de entrar na Guerra, quando a guerra lhes entrou em casa. Nada disto "branqueia" o nazismo. Serve só para lembrar que o mal gosta de silêncios e de andar de mãos dadas.
Olhando para a Ucrânia: cem anos depois, a extrema-direita é um problema, sim; o nacionalismo é um problema, sim; a Rússia é um problema, sim. Na Segunda Guerra, os ucranianos, oprimidos pelos vizinhos de leste, acharam que, talvez, os invasores nazis fossem menos maus. Não eram. Foram agredidos antes, durante e depois da Segunda Guerra, por uns e por outros. O povo ucraniano não devia ser obrigado a escolher entre um mal e outro. Tem sido. Repetidamente.
A Europa democrática está ameaçada por movimentos de extrema-direita: autoritários e iliberais. França, que esteve dividida entre a heroica resistência e o regime colaboracionista de Vichy, vai a votos este fim de semana, dividida ao meio. De um lado, está a candidata, Marine, que herdou o nome e o partido de Le Pen pai - um colaboracionista. Marine é próxima do italiano Salvini, do húngaro Órban, do russo Putin. O russo, que quer "desnazificar" a Ucrânia, apoia líderes, partidos e movimentos conotados com a extrema-direita. Parece que há bons e maus nazis. Não há. Diz-se, muitas vezes, que a "história não se repete". Talvez não. Eu diria, porém, que se imita muito bem a si própria.
[Na fotografia: "A Guerra Fria", de Odd Arne Westad]

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Espelho

por Miguel Bastos, em 20.04.22

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"Porque é que a minha mulher, feia e sem graça, parecia tão bela no seu reflexo? Porquê? Muito simplesmente porque o espelho deformante lhe torcia o rosto desgracioso em todos os sentidos. (...) Os seus defeitos tornavam-se vantagens. E agora, a minha mulher e eu ficamos sentados em frente do espelho e olhamo-lo sem desviar a vista um só momento."
Sim, no século XIX, Tchékhov já escrevia sobre o Instagram.
[Fotografia: 'CALIFORNIA' (KISS), Elliott Erwitt]

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Três contos

por Miguel Bastos, em 16.03.22

Hoje, vim de transportes públicos. Gastei três contos. Enfim. Três contos, de Tchékhov. 

 

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O comediante

por Miguel Bastos, em 02.03.22

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Há muitos, muitos anos, li, na extinta Grande Reportagem, uma entrevista com um comediante. Na introdução, o texto descrevia o comediante como alguém que nos fazia rir de coisas tão sérias como o cancro ou a legislação europeia. Gostei muito. Infelizmente, perdi-lhe o rasto. Reencontrei-o, uns anos depois, quando os comentadores europeus começaram a falar de um movimento político, descrito como demagógico e populista, liderado por um comediante que apelidaram, depreciativamente, de "palhaço". Só, mais tarde, percebi que era o tal comediante que eu tinha gostado: Beppe Grillo. Não vou fazer uma avaliação sobre o seu pensamento e a sua ação política, em Itália, por falta de conhecimento. Mas, custa-me a acreditar que fosse, "apenas", um "palhaço".

 
Vem isto a propósito do atual presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que, apesar de estar a colher uma simpatia generalizada no ocidente, tem sempre alguém a assinalar que, antes de ser presidente, foi um comediante. Uma vez mais, não sei avaliar o seu desempenho: nem antes, como ator e criador artístico; nem depois, enquanto presidente. Noto, apenas, que o riso continua a motivar reações de desdém, de quem se julga mais inteligente, mais culto, mais preparado. O riso continua a meter medo a muita gente: porque questiona, interpela, subverte, incomoda. Porque afasta o medo. E, estes, são dias de medo. No livro "O Nome da Rosa", de Umberto Eco, fala-se do riso. Mata-se muito, por causa do riso. Nos dias de hoje, no país do ex-comediante, também. Mas, neste caso, a ironia não tem graça nenhuma.

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Botar sotaque

por Miguel Bastos, em 08.02.22

"Eu vou botar um pouquinho de sotaque, um pouquinho só", disse Vinicius de Moraes, antes de oferecer, a Amália, o fado "Saudade do Brasil em Portugal". Foi registado, em 1970, num disco conjunto. Passaram mais de 50 anos, e Caetano (um eterno apaixonado por Amália e pelo fado) repete a gracinha. Bota um sotaque para cantar "Você-Você", com a maravilhosa Carminho - que já cantou o tema de Vinicius e está habituada a cantar com os deuses. A canção está aqui, com um vídeo a registar o momento, mas o disco "Meu coco" merece ser ouvido, de fio a pavio. Começa por nos cantar que "O português é um negro dentre as eurolínguas", para (espero não estar a dar com a língua nos dentes) nos levar aos mais variados "brasis", até desembarcar em "Você-você". Não é, no entanto, o fim da viagem. Depois de um "quase fado", com o bandolim a fazer de guitarra portuguesa, chega a certeza de que "Sem samba não dá". A chegar aos 80 anos, o mais jovem de todos nós, dá-nos um "best off" de inéditos: intemporal e contemporâneo, ousado e familiar. Caetano dá-nos uma obra prima. A obra prima do mano. O mano Caetano.

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Linda, linda, esta balada...

por Miguel Bastos, em 02.02.22

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O que faz uma jovem jornalista, à porta de um velho pianista? Procura uma boa história, certamente. A história de um velho, que vive encerrado numa mansão. Encerrado numa cabeça, povoada de memórias: alegóricas, difusas, dolorosas. O velho teve uma carreira de sucesso. Mas, para ele, esse sucesso foi sempre plástico, amargo, repugnante. Filipe Melo e Juan Cavia contam-nos a história de um músico e da sua obsessão por outro músico, mais talentoso, a quem terá roubado várias coisas (lembra a relação entre Salieri e Mozart, no "Amadeus" de Peter Shaffer / Miloš Forman). Depois, percebemos melhor a sua história de amor (e desamor) pela música. E, finalmente, percebermos que esta é, afinal, uma história de Amor - em sentido (ainda mais) lato e profundo. É "Linda, linda", esta "Balada para Sophie".

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Os Filhos da Madrugada

por Miguel Bastos, em 25.01.22

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Quando um livro é adaptado para um filme, no cinema, ou para uma série, na televisão, é costume ouvir-se dizer que se gostou mais do livro. Neste caso, antes de ser livro, este conjunto de entrevistas, da Anabela Mota Ribeiro, foi um programa na RTP. Tenho as entrevistas gravadas, mas, confesso, não as vi. Muitas vezes, chego mais depressa aos livros do que aos ecrãs. Foi, uma vez mais, o caso. Os "Filhos da Madrugada" são 25 entrevistas com 25 pessoas nascidas depois da "manhã clara", procurada por José Afonso, e confirmada no "O dia inicial inteiro e limpo", descrito por Sophia de Mello Breyner Andresen. São homens e mulheres, de esquerda e de direita, e de idades, origens, profissões e convicções muito diversas. É possível, no entanto, identificar um chão comum, neste caleidoscópio que concretiza e enriquece a história e as conquistas de Abril: o da liberdade e da democracia. A adaptação para livro é maravilhosa. Qualquer dia, vejo a série original. Depois comparo.

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Palavras cruzadas

por Miguel Bastos, em 19.01.22

Gosto de palavras. Palavras escritas. Palavras Ditas. Gosto de ouvir palavras. Do som das palavras. A Dalila Carvalho tem um pequeno e delicioso programa, na Antena 2, chamado "Palavras Cruzadas". O genérico é um excerto de uma canção de Vitorino. A canção original tem palavras de António Lobo Antunes, que não se ouvem porque, a cada programa, são substituídas por outras. Neste caso, pelas minhas. A Dalila gostou de as ler e quis conversar comigo sobre o assunto. Hoje, as minhas palavras cruzam a programação da Antena 2: às 9h50 e às 18h50.

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O mundo: dentro e fora

por Miguel Bastos, em 15.01.22
 
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"(...) os homens não falam entre si. Nas famílias, as palavras estão entregues às mulheres. Os homens gerem silêncios, aqui e ali entrecortados." Apanho a frase, na revista do Expresso. É da semana passada. Já devia, portanto, ter ido para o lixo. Mas não foi. Demora-se sempre mais tempo do que é suposto: na secretária, na prateleira, ao lado da cama. A revista ficou, ali, aberta: pronta para ser lida. Às vezes, não chega a ser. Os jornais dão-nos mais, muito mais, do que conseguimos ler. São um caleidoscópio do mundo, que esperamos ordenar. Mas acabam, eles próprios, espalhados e desordenados: pela casa; pelo mundo.
A frase inicial é de Davide Enia - um escritor italiano, da Sicília, que desconheço e que não sei "se e quando" vou conhecer. Perguntaram-lhe se escrevia sobre os naufrágios de Lampedusa. Respondeu que tinha escrito o livro ("Notas de um naufrágio") para salvar a relação com o seu pai. É, os jornais dão-nos o mundo: por fora e por dentro.

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