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Citar o desassossego

por Miguel Bastos, em 14.02.19

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Deixem-me citar o jornalista Nuno Pacheco. Escreve ele, hoje, no Público: "Citar substitui a leitura [...]". E depois, cita o "Livro do Desassossego", de Pessoa, para falar de contexto. Isto, sem citar a polémica que estalou na CPLP. Pessoa, recorde-se, foi acusado por jornais angolanos e cabo-verdianos de ser um perigoso racista e um apoiante da escravatura. Falta o resto da frase de Pacheco "[...] tal como a vaga ideia substitui o pensamento". Fim de citação.

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Costaguana

por Miguel Bastos, em 08.10.18

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É um país da América Latina. Ora dominado pelo capital dos estrangeiros, que se instalam no país para trabalhar e enriquecer. Ora dominado pelos movimentos de libertação nacional, que se revoltam contra a miséria do povo e tomam o poder. Uns contra os outros, uns atrás dos outros. Nem uns, nem outros, hesitam em recorrer à violência, para impor o seu domínio numa sucessão de ditaduras. Nem uns, nem outros, hesitam em agitar a defesa do bem comum, em benefício próprio.

 

Joseph Conrad, um polaco que se aventurou nos mares para descobrir o mundo inteiro, transformou-se num escritor britânico lido no mundo inteiro. Escritor brilhante, observador atento, pessimista e provocador. Em “Nostromo”, Conrad inventou um país chamado Costaguana. Mas é evidente que este país é baseado numa história verídica. Uma história que se repete: no mesmo país, noutros países semelhantes. Uma história que se repete, até aos dias de hoje. Como prova o dia de hoje.

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Viagem ao fim da noite

por Miguel Bastos, em 07.06.18

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Mais uma "Viagem ao fim da noite". Não é só o Céline que tem noites difíceis. Eu também tenho. Agora, só me falta ser um génio da literatura.

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Viver e morrer

por Miguel Bastos, em 23.05.18

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Hoje, morreu o escritor Philip Roth. Hoje, é dia de aniversário de Eduardo Lourenço. E, hoje, a RTP vai estrear um documentário sobre o ensaísta. Diz o realizador, Miguel Gonçalves Mendes, que é preciso celebrar as pessoas em vida. Não podia estar mais de acordo. Os últimos dias vieram recordar-nos uma evidência: os velhinhos morrem muito. Até aqueles que estavam mais vivos do que nós.

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Os Russos

por Miguel Bastos, em 29.03.18

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Tolstói, Dostoevsky, Soljenítsin, Nabokov
Tchaikovsky, Shostakovich, Prokofiev
Kandinsky, Chagall
Eisenstein
Estou a pensar em expulsar os russos, cá de casa...

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Goethe e Ghouta

por Miguel Bastos, em 23.02.18

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Goethe (escritor alemão) e Ghouta (região da Síria) pronunciam-se de forma semelhante. Não é a única semelhança. No Fausto, de Goethe, e na guerra, de Ghouta, vendeu-se a alma ao diabo. 

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Ler Norman Mailer

por Miguel Bastos, em 02.02.18

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Levei mais de 30 anos para seguir o conselho de Lloyd Cole: "Read Norman Mailer", cantava ele em "Are you ready to be heartbroken". Convenhamos, o jovem Lloyd parecia uma enciclopédia. Debitava nomes e obras, à velocidade da luz: Arthur Lee, Simone de Beauvoir, Renata Adler, Eva Marie Saint. Tinha ali, num disco de música pop, matéria para ler, ver e ouvir até à idade da reforma. 

 

No terceiro disco, Cole falou de Sean Penn e Madonna. "Sempre a descer", pensei eu. Mal. Entretanto, apaixonei-me pelos dois. Norman também, ao que parece. É famosa a sua entrevista a Madonna. Que eu li enquanto pensava: "Ainda não li Norman Mailer".

 

Demorei mais de 20 anos a comprar o livro "Os nus e os mortos". A primeira obra de Mailer comemorava , então, 60 anos. O autor tinha morrido no ano anterior. Depois, o livro ficou 10 anos a apanhar pó na prateleira. O livre é grande (mais de 700 páginas) e suspeitava que fosse denso. Não me enganei. É grande. É denso. E é uma obra-prima. 

 

Mais de 30 anos depois, devia agradecer a Lloyd. Está velho, como o Norman quando era mais novo, mas bem vestido. Eu não. Serão precisos 30 anos para a próximo verso: "Get a new tailor"? 

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O Haiti é aqui

por Miguel Bastos, em 19.07.17

[Foto: Paulo Nuno Vicente]

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No livro "Barroco Tropical", José Eduardo Agualusa descreve-nos uma Luanda em decadência. O protagonista é um escritor, casado com a filha de um militar do regime. Vivem no topo de um arranha céus. Mas o prédio está inacabado. No topo, vivem os ricos. Nos andares enterrados no solo, vivem os indigentes, os traficantes, as prostitutas, os marginais. Normalmente, não se cruzam. Mas vivem debaixo do mesmo tecto. "Que alegoria tão forte", pensei. Angola deve ser isto.

 

O livro lembrou-me uma canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil chamada "Haiti". Na altura, o Haiti tinha sido arrasado por um furação. Um dos muitos que, regularmente, assolam o país, demasiado habituado a furacões e miséria. E, perante as miséria do Brasil, a dupla canta "O Haiti é aqui". O Haiti pode ser ali, no Brasil; ou ali, em Angola. E pode ser aqui, em Portugal? Pode. 

 

A Rita Colaço foi à Jamaica. Não foi em lua de mel. Não foi em cruzeiro. Foi em reportagem. O bairro da Jamaica, fica no Seixal, às portas de Lisboa - a antiga capital do império. É um conjunto de esqueletos de betão abandonados por um construtor falido. As pessoas - sem casa, sem terra, sem emprego - foram ocupando os prédios, piso a piso. Preencheram-nos de tijolos e gente. Abaixo do solo não está gente, como no livro de Agualusa. Mas estão dejectos de gente, a corroer a saúde da gente e do prédio. As fundações estão em perigo e um dia, enquanto as entidade discutem a solução para o problema, a casa vem abaixo.    

 

Jamaika também é Portugal, diz Rita Colaço. Pois é, Rita. E "o Haiti é aqui".

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Rosa Choque

por Miguel Bastos, em 11.04.17

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Tudo é cor-de-rosa, na minha vizinha. Os brincos - duas argolas grandes e brilhantes. As unhas - longas e pontiagudas. As pálpebras - contrastando com o rímel negro. E, ainda, a carteira, a camisola e o cinto. Tudo rosa. No colo, um livro aberto. As letras são negras, as páginas são brancas, mas os nomes parecem-me cor de rosa: Gerson, Vanda, Neide… A minha vizinha mexe os lábios (cor-de-rosa, claro!) enquanto lê. As vezes percebem-se algumas palavras, sussurradas. 

 

Por descuido, lê mais alto. “Oi, quirida!”; “Não, tou no trem”; “Por volta dáis nóvi, amor”. Afinal, está ao telefone. Tudo é rosa, na vida desta mulher. A roupa, o corpo, o livro, a voz. “Não quirida, pode bôtar pra você. Basta squentar. Eu quando chégar tomo um leite. Amanhã, pego cedo lá na fábrica”. Volta, por instantes, ao Seu Gerson e a Dona Neide. Depois, atende outro telefonema no “cêlulá”: “Não si preocupi, Seu Vítor. Esqueci não. Amanhã, vou receber. Depois a gente ácerta nossas contas”.

 

Afinal, nem todo é rosa na vizinha. Enterro os olhos no meu livro. Curiosamente, fala de escravos no Brasil. É um bom livro, acho eu. Mas isso sou eu, que tenho uma vida bastante mais cor-de-rosa.

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Um rapaz chamado Soares

por Miguel Bastos, em 21.11.16

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Durante muitos anos, agarrei-me a Mário Soares. Tinha lido, num jornal, que Soares, sempre fora atento e curioso, mas nunca tinha sido grande aluno. O artigo dizia que havia alunos que não eram bons, porque não queriam saber de nada; e alunos que não eram bons, porque queriam saber de tudo. Era o caso de Soares. Eu assumi que era um desses: “um aluno-Soares.”

 

Até que descubro, na (excelente) biografia de Soares, de Joaquim Vieira, que o jovem Soares não se interessava por nada. Não gostava de estudar, não sentia curiosidade por nada, que não fosse política. Seria, então, um teórico fascinado pela grandes narrativas políticas? Não, não tinha paciência, gostava mais de acção. Que tipo de acção? Queria ser um grande professor, gerir a escola do pai? Não era bem isso. Queria ser engenheiro ou arquiteto, fazer estradas e pontes? Não, não tinha competências técnicas para isso, nem queria ter. Acção armada? Nem pensar, não é do seu género. Nem sequer irá à tropa. Acção, para Soares, era fazer papéis, colar cartazes, viajar, fazer contactos, fazer discursos. Ou seja, além de ter sido, sempre, um menino-família; Mário Soares já era um boy, numa altura em que não havia “jotas”, nem partidos.

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