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A casa de Carlos

por Miguel Bastos, em 23.11.22

CBunga_jardim02.jpg 

"Para Carlos Bunga", diz-nos a nossa interlocutora, "a casa é onde nós estamos. E essa casa devia moldar-se a quem vive dentro dela. Sabemos, no entanto, que nós é que temos que o fazer." Carlos Bunga é um artista plástico português. Tem origens africanas, viveu em bairros da lata onde as casas, precárias, são moldadas em função de quem lá vive. Esticam, quando nasce mais um filho ou se recebe uma tia. Encolhem, quando já não é necessário, libertando os materiais para quem deles precisa. Essa experiência terá marcado as obras artísticas de Carlos Bunga, que tem vindo a ocupar alguns dos maiores museus do mundo, com as suas estruturas de cartão e fita adesiva: o precário e descartável, dentro de estruturas solidas, que ambicionam a eternidade.

"Carlos Bunga", insiste a nossa interlocutora, "é um nómada. Faz questão de não ter casa fixa. A casa vai sempre com ele". Lembrei-me de Gonçalo Cadilhe, o escritor-viajante. A dada altura, perguntaram-lhe porque é que insistia em ter casa, se raramente lá estava. Respondeu que precisava de ter uma casa, para onde voltar. Era a casa que fazia dele um viajante. Caso contrário, seria um migrante.

É engraçado, como podemos ter noções e relações tão diferentes com o conceito de casa. O que é que muda? Talvez, a casa de partida.

[Fotografia: Pedro Jafuno]

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Tanto "nego"

por Miguel Bastos, em 31.10.22

- Lisboa tem tanto "nego", "Migueu"!
- Pois tem. Está surpreendida?
- Eu "istou", nunca tinha visto tanto "nego", não!
- Mas, no Brasil há muitas pessoas negras.
- Na Bahia, no Rio, em São Paulo, sim. Em Campo Grande, não.
- Não sabia.
- E vem de onde?
- Quem, eu?
- Não, esse "nêgo" todo...
- Alguns, vêm. Mas, muitos já nasceram aqui.
- ... vem de África, "né"?
- E do Brasil, também.
- A gente acaba se acostumando, "né"?
- É. Vai ver que sim.
Luci vira as suas costas, brancas. Afasta o seu cabelo oxigenado e a minha imagem do Brasil: mestiço, moderno e cosmopolita.

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Grande e pequeno

por Miguel Bastos, em 30.09.22

Portugal é um país grande e pequeno, ao mesmo tempo. Isso, deixa-nos confusos. Às vezes, queixamo-nos da nossa pequenez: somos mais pequenos do que uma cidade americana ou asiática. Outras vezes, somos muito grandes: é, por isso, que é tudo muito longe. Essa dualidade reflete-se em discussões como a localização do novo aeroporto de Lisboa ou a colocação de médicos e professores no "interior" (no fundo, tudo o que seja a mais de 50 km da costa). Portugal é um país muito centralista. O conceito está interiorizado, mesmo naqueles que têm um discurso descentralizador.

Trabalho numa empresa que tem Portugal no nome. Que tem muitas das qualidades e defeitos dos portugueses. Mas, que faz um esforço (nem sempre conseguido, reconheça-se) para descentralizar. É, por isso, que tem vários jornalistas espalhados pelo país. Para que possam relatar os factos da região onde estão. Mas que possam, devam e reportem realidades de outras regiões ou outros países. E fazem-no, frequentemente. São jornalistas, de corpo inteiro.

Ontem, por razões técnicas e logísticas, os noticiários da Antena 3 foram emitidos a partir de Coimbra. Haverá quem ache isso extraordinário e quem ache que isso não é assunto. Por mim, acho graça que o tipo de Aveiro - que, habitualmente, trabalha a partir do Porto - vá ali, a Coimbra, fazer uns noticiários para todo o país (para todo o mundo) numa emissão que, habitualmente, é feita em Lisboa. Pequeno e grande, ao mesmo tempo.

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Aeroporto

por Miguel Bastos, em 23.09.22

E, aí, está ele: o aeroporto, de novo. O primeiro-ministro e o presidente do PSD estão de acordo. Viva, viva! Sabem o que é que vão fazer? Adivinharam. Uma comissão técnica (uau!), para avaliar as diferentes localizações possíveis para o futuro aeroporto (pumba!). Ora aí está uma ideia arrojada. Mais disruptiva só uma coisa tipo "Pim, pam, pum". Mais "fora da caixa" só uma cena tipo "Um, dó li, tá".

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Lesboa

por Miguel Bastos, em 21.07.22

lesboa.jpg

- Lesboa? Lesboa?! Ó pai, a avó diz "Lesboa"!
- É natural, filho, a avó viveu muitos anos em Lisboa.
- E... ?!
- E, em Lisboa, há muitas pessoas que dizem "Lesboa".
- E porque vivem em Lisboa, podem dizer mal "Lisboa"?
- É como com a família...
- Com a família..?
- Sim, nós podemos dizer mal, mas não admitimos que os outros falem mal da nossa família.
- Ai é? Nós podemos falar mal da nossa família?
- Sim, mas não te estiques, senão...
- Senão, o quê? Mandas-me para Lesboa, é?

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O normal

por Miguel Bastos, em 30.06.22

pedro nuno santos.jpg

Claro que há um dado novo: o primeiro-ministro trava a decisão sobre o novo aeroporto, anunciada pelo ministro da tutela.
Quanto ao resto - a discussão do aeroporto tem 50 anos, com apresentações, contestações, localizações e demissões - nem por isso.
Lembram-se do novo normal? Não vai acontecer. Temos o normal, de novo. [Fotografia: Tiago Petinga/LUSA]

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Alvalade

por Miguel Bastos, em 09.03.22

Os meus amigos andavam doidos com o Sporting. Com os golos do Jordão e do Manuel Fernandes. Eu bem tentava, mas não conseguia partilhar o entusiasmo.
- Não gostavas de ir ao Estádio de Alvalade? - perguntava-me o João Manuel.
- Claro que sim - respondia.
Punha-me a pensar na viajem, longa; na cidade, esmagadora; no estádio, monumental. Uma aventura, que fazia com que o jogo, em si, me parecesse menos penoso. E, com um bocado de sorte, haveria tremoços e pevides.
- Se calhar, vou com o meu pai. E tu podes vir connosco.
- Uau, isso é que era!
Eu tentava mostrar entusiamo, quando fui surpreendido pelo anúncio: o Júlio Isidro ia trazer os Fischer-Z a Portugal, ao Estádio de Alvalade. Encontrei o João Manuel:
- Olá Jomané, como é que está aquilo de irmos ao Estádio?
- O meu pai diz que está à espera de um jogo que valha a pena.
- Achas que dava para irmos ver os Fischer-Z?
- Quem?
- É uma banda de rock.
- O meu pai gosta é do Jordão!
- Isso é porque nunca viu os Fischer-Z, ao vivo!
Acho que nunca chegou a ver. Nem eu. Mas fui ao Estádio de Alvalade, ver concertos de rock. E, vendo bem, não me importava de ter visto um golo do Jordão, ao vivo. Desde que houvesse tremoços e pevides.

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PS ou PSD?

por Miguel Bastos, em 27.09.21

Rio.jpg

Começo pelo óbvio: as eleições autárquicas são eleições para escolher os representantes locais. Só que isso é uma chatice. São mais de 300 municípios e assembleias municipais e mais de 3 mil freguesias. Milhares de locais e candidatos que não conhecemos, nem vamos conhecer. De modo que o mais fácil é reduzir isto ao costume: "quem vai ganhar, PS ou PSD?" Neste caso, "Costa ou Rio"? E, depois, umas adjacências como "quem ganhou mais câmaras", "número de câmara do CDS e da CDU", um ou outro "independente" mais mediático. E está feito.
Nada disto diminui a vitória extraordinária/surpreendente de Carlos Moedas, em Lisboa. Nem tira mérito à escolha de Rui Rio. O que é irónico é que Rui Rio, que tem erguido a bandeira da descentralização, e tem pago um preço elevado por essa defesa, acabe por ser salvo por uma vitória na capital do país.
[Foto: EPA/TIAGO PETINGA]

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Próxima estação...

por Miguel Bastos, em 14.09.21

Aviso: a próxima imagem pode chocar as pessoas mais sensíveis. É dedicada a toda a gente que anda doida com a reabertura de uma estação de metro, na capital do país.

maluquinha.jpg

 

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Caos

por Miguel Bastos, em 20.08.21

cabul aeroporto face.jpg

A mesma palavra, para duas notícias, envolvendo dois aeroportos, em dois países diferentes: "caos". "Caos" no aeroporto de Lisboa. O Instituto dos Registos e Notariado não tem capacidade de resposta para os pedidos relacionados com passaportes e as pessoas ocorrem à Loja do Passaporte do Aeroporto de Lisboa, gerando o "caos". Há um outro "caos", logo a seguir, no alinhamento do noticiário. O "caos", no aeroporto de Cabul: onde milhares de pessoas, desesperadas, tentam fugir do país, para salvarem a vida. As palavras têm um peso, que deve ser usado com conta e medida. Chamar "caos" a tudo o que mexe, começa por esvaziar a palavra para, de seguida, nos esvaziar a nós próprios. Nós somos feitos de palavras.

[Foto: Wakil Kohsar / Getty Images]

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