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As vidas de Soares

por Miguel Bastos, em 14.12.16

soares.png

Acabei, ontem, de ler a biografia de Mário Soares, com a assinatura de Joaquim Vieira. “Uma Vida” é o subtítulo desta biografia. Uma vida cheia. Ao final do dia, a notícia do internamente de Soares, veio lembrar-me que qualquer vida, por mais cheia que seja, chega ao fim. A de Soares ainda não chegou, mas o fim (percebe-se) está próximo.

 

“Uma vida” é um trabalho de fundo: com investigação, entrevistas, base bibliográfica sólida, trabalho jornalístico. Há até pontos em que as biografias dos dois se cruzam. Joaquim Vieira começa por referir que conheceu Soares, antes do 25 de Abril em Paris: Mário era um exilado célebre do regime, e Joaquim um jovem com simpatias albanesas. Mais tarde Soares, Presidente, zanga-se com Joaquim, jornalista do Expresso, por causa do famoso caso do “fax de Macau”.

 

Mas os dois respeitam-se, isso é visível ao longo do livro. Mais de 800 páginas de acção, crime, intriga, sexo, corrupção. Enfim, todas as coisas que fazem um bom “thriller” ou uma aventura de James Bond. No final, sabe a pouco. Porque Soares parece ter mais do que uma vida, teve várias. Umas correram melhores do que outras. E ele sempre assumiu isso. É a vida!

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Um rapaz chamado Soares

por Miguel Bastos, em 21.11.16

mario soares boy.jpg

Durante muitos anos, agarrei-me a Mário Soares. Tinha lido, num jornal, que Soares, sempre fora atento e curioso, mas nunca tinha sido grande aluno. O artigo dizia que havia alunos que não eram bons, porque não queriam saber de nada; e alunos que não eram bons, porque queriam saber de tudo. Era o caso de Soares. Eu assumi que era um desses: “um aluno-Soares.”

 

Até que descubro, na (excelente) biografia de Soares, de Joaquim Vieira, que o jovem Soares não se interessava por nada. Não gostava de estudar, não sentia curiosidade por nada, que não fosse política. Seria, então, um teórico fascinado pela grandes narrativas políticas? Não, não tinha paciência, gostava mais de acção. Que tipo de acção? Queria ser um grande professor, gerir a escola do pai? Não era bem isso. Queria ser engenheiro ou arquiteto, fazer estradas e pontes? Não, não tinha competências técnicas para isso, nem queria ter. Acção armada? Nem pensar, não é do seu género. Nem sequer irá à tropa. Acção, para Soares, era fazer papéis, colar cartazes, viajar, fazer contactos, fazer discursos. Ou seja, além de ter sido, sempre, um menino-família; Mário Soares já era um boy, numa altura em que não havia “jotas”, nem partidos.

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