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STOP. Animais

por Miguel Bastos, em 18.10.21

preto e branco.jpg

Jogamos ao STOP. Animais:
Filho - A, b,c....
Pai - STOP
Filho - J
Pai - Jaguar
Filho - Jacaré
Pai - Hum, ahh... Jebra.  
Filho - Zebra não é com "J". É com "Z".
Pai - Também pode ser com "J".
Filho - Não pode, não.
Pai - Isso é porque tu vês tudo a preto e branco. 

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Meco

por Miguel Bastos, em 28.07.21

meco.jpg

Mais velho - Mas, afinal, como é que é essa praia do Meco?
Pai - Oh filho, é uma praia igual às outras. Tem, apenas, uma diferença...
Mais velho - Qual?
Pai - É conhecida por ser uma praia de nudistas.
Mais velho - Como assim?
Pai - As pessoas não usam roupa. Portanto, quando chegarmos, vamos ter que tirar os calções.
Mais velho - Ai não vou, não!
Mais novo - Eu tiro! Eu tiro!
Mais velho - Estás maluco, ou quê?
Mais novo - Tu é que estás. Nem penses que nos vais estragar as férias, por causa das tuas vergonhinhas!

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Aparelhagem

por Miguel Bastos, em 27.07.21

neil young.jpg

Foi o primeiro disco a girar na nossa aparelhagem. O sonho de uma vida. Era curta, a nossa vida; mas a espera, achávamos nós, tinha sido imensa. Já tínhamos comprado alguns discos, logo após a aprovação, na generalidade, da aquisição do aparelho. Discutíamos, em plenário, qual seria o primeiro disco a girar, quando fomos surpreendidos pelo anúncio da visita de uma tia. Esta tia - velha, dura e austera - não era dada a frivolidades e iria, certamente, condenar pais e filhos, pelo gasto avultado e desnecessário. Corremos para a sala para reajustar os planos: a viagem psicadélica dos Pink Floyd, que pedia intensidade no volume, teria que ser adiada; e o disco ao vivo dos Doors, com as explosões de raiva e poesia de Jim Morrison, não nos pareceu indicado. A tia chegaria a qualquer momento. Escolhemos o Harvest, que tinha acabado de ser entregue pelo senhor do Círculo de Leitores. O Neil Young tinha a beleza exigida para a ocasião e a vantagem de gritar baixinho. Ouvimos o disco de um lado e do outro, com o coração, cheio e nas mãos, e os olhos hipnotizados pelas luzes que piscavam, com maior ou menor intensidade, ao ritmo das canções. O Neil Young inaugurou o sonho de uma vida: ainda no início e já tão inteira.

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Otelo, pá

por Miguel Bastos, em 26.07.21

otelo.jpg

No meio de um ambiente cinzento, havia o tio Jorge. Otelo e a irmã gostavam de imitar o tio. Chamavam-lhe a brincadeira dos “pás”. “Eh pá, vamos comprar cigarros”, dizia um. “Eh pá, vamos ao café”, dizia outro. Quando li isto, na biografia de Otelo Saraiva de Carvalho, de Paulo Moura, sorri.

Eu também brinquei aos “pás”, com os meus irmãos. Nós dizíamos “brincar aos jovens”. Falávamos ao telefone, íamos à praia, passeávamos de carro, bebíamos “cocktails”, íamos ao cinema e à discoteca. Os exemplos, vinham das novelas. Nós não tínhamos um tio Jorge, cosmopolita e “bon vivant”, que trabalhava numa companhia aérea. Mas dizíamos “pá”.

Em 1974, Otelo brincou, de novo, “aos pás”. Foi no 25 de Abril. O estilo manteve-se: “Mónaco e México já caíram nas nossas mãos.”; “Eh pá, palavra de honra? Isso é porreiro, pá”; “Desculpe, lá, qual é o seu nome?”; “Otelo Saraiva de Carvalho”; “Eh, pá!”.

Francisco Buarque de Holanda imortalizou a brincadeira numa canção: “Sei que estás em festa, pá”; “Eu queria estar na festa, pá”; “Lá faz primavera, pá”. O Chico, pá, a falar como o Otelo!

[Texto publicado, originalmente, em 22 de Junho de 2015]

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Os barulhos

por Miguel Bastos, em 01.07.21

ondjaki.jpg

"tudo isso eu sei de, às vezes, acordar cedo e mesmo da minha cama ficar a ouvir os barulhos
o mundo dos barulhos é uma coisa limpa que se suja durante o dia, dá para quase ver as coisas que uma pessoa imagina só de ficar atento a fazer um mapa dos barulhos"
Ondjaki, 2020, O livro do deslembramento

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Migrantes

por Miguel Bastos, em 29.06.21

criancas brincar.jpg

No fundo, os adultos migram para a infância, em busca de uma vida melhor.

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Páscoa à segunda-feira

por Miguel Bastos, em 05.04.21

"Vê lá se a Páscoa te sai à segunda-feira", costumava dizer o meu pai. A frase podia ser dita em tom de aviso, de ameaça, ou, apenas, em tom de brincadeira. "Nesta família, a Páscoa é sempre à segunda feira", costumávamos responder. E era verdade. Na Páscoa, mudávamo-nos para a aldeia, visitávamos todas as casas de todos os tios, ajudávamos a preparar tudo para a visita pascal, estreávamos roupas novas. Havia salas que se abriam uma vez por ano: para esse dia, para esse momento. Na mesa, as melhores toalhas recebiam gasosas e laranjadas, vinho do Porto e "Martini", pratinhos de queijos e enchidos, pão e folares, amêndoas e biscoitos. Nunca havia tempo para provar tudo, porque, entretanto, mudávamos para outra casa, que tinha coisas parecidas, e depois para outra e depois para outra. Esse dia, era segunda. Por mais avisos e ameaçadas que o meu pai nos fizesse, a Páscoa era sempre à segunda-feira.

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Dona Xepa

por Miguel Bastos, em 04.12.20

sa carneiro.jpeg

Era noite e estávamos em frente à televisão. Esperávamos a Dona Xepa. A Dona Xepa vendia no mercado, trabalhava noite e dia para, sozinha, criar e educar os filhos. Parecia a nossa vida. Preparávamo-nos, portanto, para nos vermos ao espelho, quando o Raúl Durão, com voz de BBC e cara de caso, interrompeu a emissão. A minha mãe barafustou. "Não há direito, interromperem assim a novela", mas rapidamente, mudou de tom. Engolimos em seco. Sá Carneiro tinha morrido e a notícia foi mais difícil de engolir do que as chicotadas na escrava Isaura.     

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Cruz de Cristo

por Miguel Bastos, em 27.10.20

cruz1.jpg

Filho: Pai, acabei de fazer uma cruz, como a de Cristo.
Pai: Que linda, filho, está muito gira.
Filho: Obrigado, pai. Só não percebo porque é que escolheram este símbolo.
Pai: Como assim?
Filho: Sei lá, podiam ter escolhido outra coisa, menos triste.
Pai: Um bolo de bolacha?
Filho: Por exemplo. Nesse caso, (sorri) acho que ia à missa todos os dias.
Já vos disse que o meu filho é um doce?

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Palma: 70 anos

por Miguel Bastos, em 04.06.20

palmas.jpg

Em 1985, estávamos acampados a 15 quilómetros de casa. Mas era como se estivéssemos noutro continente. Vivíamos numa tenda grande, sem água nem luz. Andávamos sem relógio. Mergulhávamos no mar, em jejum. Líamos ao sol ou à lareira. Tomávamos banho ao ar livre. Ensaiávamos palavras em inglês, com estrangeiros altos e louros. A única coisa de que sentíamos falta era do Jorge Palma. "O lado errado da noite" tinha entrado lá em casa, pouco dias antes de partimos para a nossa aventura. O disco tinha-nos deixado surpreendidos, boquiabertos, maravilhados. Tinha qualquer coisa de Sérgio Godinho e de Neil Young. Era estranho e familiar, ao mesmo tempo. 

Hoje, fui surpreendido pelos 70 anos "redondos" de Jorge Palma e procurei "O lado errado da noite". Encontrei-o entre o Julio Iglesias, da minha mãe, e os Joy Division, da minha adolescência. O Jorge é um velho amigo da família. Ele não sabe, claro, mas é. Palmas.

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