Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Os bombeiros de Barrigueiro

por Miguel Bastos, em 28.08.25

fátima pinto.jpg 

"Uma imagem vale mais que mil palavras". Não gosto da expressão. Porque gosto de palavras. Porque as palavras ajudam-nos a interpretar o mundo. Nestes dias, em chamas, voltei a ouvir que "não há palavras para descrever". Haver, há. Haja talento, para as usar. E voltei a ouvir que "as imagens falam por si". Não falam nada. Quem fala são as pessoas. Pessoas como as que a repórter Fátima Pinto foi encontrar em Barrigueiro, Arganil.
 
- Vocês não têm medo?
- Medo, o quê? - responde o senhor Rogério - A gente tem que se aventurar!
- Como é que se apaga o fogo?
- "Coa iáuga"! - responde o senhor Vítor.
- Vocês são os bombeiros de Barrigueiro...
- Ah, pois, tem de ser!
- São felizes, aqui?
- Graças a Deus!
- E o que é a felicidade para vocês?
- A gente ter saúde.
 
Agora, ponham lá isto numa imagem.
 
A Fátima completa o retrato - com palavras, uma vez mais:
 
- Vítor e Rogério: são sabem que idade têm, não sabem ler nem escrever, mas fazem a diferença.
 
E remata:
 
- São estas pessoas que contam.
 
"Contam", Fátima, "contam". E, tu, contas tão bem. Com palavras. Com as palavras certas. Obrigado.
 

Reportagem, aqui:

https://www.rtp.pt/noticias/pais/incendio-de-arganil-populacao-ajudou-a-combater-as-chamas_v1678980

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Entalar o gajo

por Miguel Bastos, em 19.08.25

"Vocês ouviram o que o gajo disse, esta manhã?" Dissemos que sim, com a cabeça. "Vou ter que entalar o gajo". Estávamos nos incêndios. A nossa colega, jornalista veterana, estava indignada com as declarações do presidente da câmara. Já não me lembro o que é que o autarca tinha dito, mas eram críticas duras ao governo. Aguardávamos o presidente, que estava reunido com o ministro. Foi o primeiro a sair. "Lamento, mas vou ter que entalar o gajo". O presidente vinha a arrastar os pés, exausto. "Ai, coitado! Já viram como é que ele está?" Pediu-nos uns minutos. Quer aguardar pelo ministro, depois poderá fazer declarações. "Não tem que o fazer", diz a nossa colega. O presidente olha para ela, espantado. "O senhor não está bem." O autarca confirma: "Pois não. Não posso estar." "Há quantas horas não dorme?", insiste a colega. O autarca diz que vai dormindo: uma, duas horas - quando pode, onde pode. O seu município arde, há vários dias. "Pois, mas não pode ser. Tem que dormir, senão não chega ao próximo incêndio". "Talvez não", responde, "mas também não sei o que é que vai chegar. Já ardeu quase tudo." Chegou o ministro. Falou o ministro. Falou o presidente e ninguém o "entalou". A única pessoa que parecia entalada, era a nossa colega: "Vão por alguma coisa deste presidente, no ar? Eu não vou". E vai atrás dele, "Olhe que eu estou mesmo preocupada consigo. O senhor não está bem"...

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fogo no rabo

por Miguel Bastos, em 19.09.24

O autarca parece que tem fogo no rabo, mas não tem. Tem fogo na cabeça (é impossível não ter). E tem fogo nos pés. Estão protegidos, por um par de botas robustas. Usa as botas, para apagar as brasas. Usa a cabeça, para apagar as chamas. Chama os bombeiros, ao telefone. Chama a atenção, aos transeuntes. Uns, passam demasiado depressa. Outros, passam demasiado devagar. Outros, já não passam. A estrada foi fechada. A estrada foi reaberta. A estrada voltou a fechar. Não há helicóptero. Já há, mas nunca mais chega. Já chegou, mas não pode atuar. Não pode atuar, por causa do capacete de fumo. Ponha o capacete, senhor António, por causa do fogo. Tire a mota, senhor António, por causa do fumo. O autarca parece cansado. Nega estar cansado. Não tem tempo para o cansaço. Mas tem os olhos vidrados. E tem fogo na cabeça. Vai ser difícil, o rescaldo. Por mais água que ponha na cabeça

.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Bom tempo

por Miguel Bastos, em 14.04.23

chuva.jpg 

A partir de amanhã, vai estar tão bom tempo, tão bom tempo, que já há avisos de "Cuidado com os agueiros", "Evite sardinhadas junto a espaços florestais" ou "Sr. Eduardo vista a camisola, por favor, para disfarçar a barriga". Vai estar tão bom tempo, dizia eu, tão bom tempo, que dei por mim a fechar o casaco, a abrir o guarda-chuva e a pensar "nunca mais é sábado".

Autoria e outros dados (tags, etc)

Palavra do ano: "guerra"

por Miguel Bastos, em 05.01.23

"Guerra" é a Palavra do Ano, de 2022. Numa altura de abundância de palavras (ditas, escritas, gritadas, escarrapachadas), em que se usa e abusa das palavras, escolher uma palavra - uma só - por ano, soa a tarefa hercúlea. Quando a iniciativa da Porto Editora começou, perguntei-me se fazia sentido elaborar um "top" de palavras, submetê-las a votação e eleger uma só palavra. Porque a escolha pode refletir, apenas, a espuma dos dias. Mas, também é verdade que pode servir de barómetro, que ajuda a perceber os assuntos que mais preocupam os portugueses. No ano de 2022, marcado pela invasão da Ucrânia pela Rússia, a palavra escolhida foi "guerra". As palavras relacionadas com a Covid-19, que tinham dominado os dois últimos anos (no ano passado foi "vacina"), desapareceram. Se passarmos por 2017, ano dos grandes incêndios, a palavra do ano foi, precisamente, "incêndios". Em 2011, o ano da chegada da troika, a palavra escolhida foi "austeridade". Uma palavra - uma só - pode dizer muitas coisas. Pode dizer muito.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Eucaliptos

por Miguel Bastos, em 14.10.22

eucaliptos.jpg 

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901
 
"- Oh, Zé Fernandes, quais são as árvores que crescem mais depressa?
 - Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de eucaliptos... "
 
Já não falta tudo. Os grandes Incêndios, na região centro, foram há cinco.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Aldeamento de luxo

por Miguel Bastos, em 28.07.22

pines.jpg

Ao saber que as chamas rodeavam o aldeamento de luxo, o comentador questionou a importância do ordenamento da floresta. Sim, defendeu, porque o empreendimento estava bem ordenado, cuidado e limpo e, mesmo assim, estava a arder. Não sei dizer se estava, ou não, bem ordenado. Vamos partir do princípio que sim. Isso não invalida nada. Pelo contrário. O que aconteceu é que o fogo chegou à zona ordenada, alimentado e robustecido por vários quilómetros de floresta desordenada, habitada pela tradicional monocultura de espécies exóticas. E os problemas da floresta (como todos os outros) não se resolvem com condomínios de luxo, que não nos protegem de coisa nenhuma. Às vezes, pode ser injusto. Mas, o contrário também seria.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Fechar estradas

por Miguel Bastos, em 18.07.22

eucaliptos.jpg

"Ardeu tudo, lá em cima", lamentava o jovem autarca, "Foi muito mau. Nem sei como é que não foi pior". A ideia era simples: visitar as terras que tinham ardido, no verão anterior. Tentar perceber o que estava recuperado, o que estava por recuperar, e se havia alterações na gestão da floresta. "As pessoas", dizia-me, "estão sempre a perguntar porque é que não se fecha esta ou aquela estrada. Isso não faz sentido." "Porquê?", pergunto. "Porque as estradas não são para fechar. São para circular". "Interessante", digo, "podemos gravar"? "Não, porque isto é muito polémico. No ano passado, ficámos isolados a combater o fogo, porque fecharam as estradas e os bombeiros não conseguiam passar. Portanto, a questão que deve ser feita é 'porque é que se fecham as estradas?'" "E qual é a sua resposta?", insisto. "Porque tem de ser, claro. Mas tem de ser, porque se deixa plantar eucaliptos até à beira das estradas. De resto, deixa-se plantar eucaliptos em todo o lado. E, depois, deparamo-nos com frentes de fogo de 50 km, ou mais." "Mas acha que as coisas vão melhorar?" O autarca escolheu os ombros: "Eu acho que sim. Mas, se calhar, ainda vão piorar - antes de começarem a melhorar." Premonitório. Esta conversa foi anterior a 2017. E continua-se a ter de fechar as estradas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cheiro a fogo

por Miguel Bastos, em 08.07.22

mais apocalipse.jpg

"Adoro o cheiro a napalm pela manhã" é das frases mais célebres do cinema. Faz parte do filme de guerra "Apocalipse Now". E faz-me arrepios, há vários anos. Hoje, lembrei-me dela, porque acordei com o cheiro a fogo. Neste caso, não é um filme - é uma guerra antiga dos portugueses. Às vezes, penso que vou deixar de gostar do verão. Mas gosto demasiado de sol, de areia, de praia, de campo, de ar livre, de viagens, de férias. Porém, basta-me saber que os termómetros se aproximam dos 30 graus, para ficar ansioso. Com a chegada do calor, a questão não é saber se vamos ter incêndios. Vamos ter, de certeza. Resta saber quantos, onde e com que dimensão. Quando as coisas correm mal, abrem-se bocas e apontam-se dedos. Como se fosse surpreendente. Não é. Se quiserem coisas surpreendentes, vejam/revejam a obra-prima de Francis Ford Coppola: tem bombardeamentos com napalm, ao som das "Valquírias" de Wagner. Quanto à guerra dos portugueses, não é épica. É trágica.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Uma vida do caraças

por Miguel Bastos, em 25.01.22

incendios.jpg

O jornalista Adriano Miranda alertou, hoje, no Facebook: "Morreu o Sr. Francisco". O sr. Francisco é maior do que ele próprio. Primeiro, o seu retrato (uma obra de arte, do Adriano) correu o país. Depois, correu o mundo. O sr. Francisco tornou-se o símbolo dos incêndios de 2017: da tragédia, do sofrimento, do desespero; mas também da luta, da esperança, da vida. A jornalista Patrícia Carvalho detetou-lhe a "réstia de um sorriso" e contou a sua história no livro "Ainda aqui estou". O sr. Francisco não esteve sempre ali: na aldeia de Covelo, freguesia de Ventosa, concelho de Vouzela, distrito de Viseu. (As terras mais pequenas - penso agora - ocupam tão pouco espaço no mapa, que, para serem vistas, precisam de nomes mais extensos do que a aristocracia europeia). O sr. Francisco tentou ganhar vida e mundo, mas, infelizmente, não foi correspondido. Voltou para a terra; construiu uma casa, onde viveu com a mulher, uma tia e uma ausência de filhos; semeou "umas batatas" e plantou "umas cebolas". Em 2017, quando as chamas lhe arrancaram do seu sono de viúvo, nessa noite quente de outubro, percebeu que nada havia a fazer. Fechou-se em casa, bebeu aguardente "para andar assim meio atordoado", temeu o pior, esperou pelo menos mau. Sobreviveu, para contar.

A maioria dos jornalistas vive rodeada de "cenários" e "teatros de operações". Alguns, porém, conseguem "mergulhar" nos cenários, habitados de personagens e figurantes, e resgatar gente. O sr. Francisco era um símbolo, sim, mas também era gente. Aliás, era, sobretudo, gente. Gente com vida própria: "uma vida do caraças", disse ele, "uma vida do caraças".

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Calendário

Janeiro 2026

D S T Q Q S S
123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2017
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2016
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2015
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D