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Viver sem aprender

por Miguel Bastos, em 10.05.19

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Umas das coisas que sempre me impressionou nos filmes da Segunda Guerra Mundial é a forma como as pessoas continuam a viver: afogadas nas pequenas coisas do quotidiano, indiferentes ao nazismo - mesmo quando ele já se materializa em guerra. Até que, de repente ficam sem trabalho, sem casa, sem direitos, sem filhos, sem pais, sem vida. É sempre inquietante para nós, que já sabemos o fim da história, assistirmos ao comportamento daquela gente. No caso de Else - mulher, alemã, judia, casada com um cristão da alta burguesia - nada conseguia abalar a sua vida burguesa, boémia e frívola: com direito a festas, vestidos, espectáculos e amantes. Mesmo quando teve que abandonar a Alemanha e instalar-se na Bulgária, continuou a ter uma vida irreal: vivia numa casa com empregada, passava férias na praia. Até que o cerco apertou e ela foi perdendo tudo: uma coisa de cada vez.

 

O livro “Tu não és como as outras mães”, de Angelika Schrobsdorff, fala desta mulher (Else, a mãe da autora) que, apesar de ter abandonado a fé judaica, será sempre considerada uma judia e sofrer, na pele, as consequências da sua condição. Mas, o que achei mais chocante é que o livro não acaba com o fim da Segunda Guerra Mundial, com o habitual direito à vitória da justiça, à catarse, à felicidade. E, ao estender-se no pós-guerra, assistimos, através dos olhos de Else - mulher profundamente transformada pela guerra - à repetição dos mesmos comportamentos, da mesquinhez, dos vícios que existiam antes da guerra. Como se os seres humanos (todos nós) fossemos incapazes de aprender a viver, apenas para sobreviver.

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O som da Síria

por Miguel Bastos, em 20.04.18
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Ouvi o realizador belga, a dizer que, na Síria, o som é muito importante. A pessoas habituaram-se a ter os ouvidos alerta, para perceber se há guerra nas redondezas. Para perceber a que distância podem estar os tiroteios, os carros de combate, os bombardeamentos. Se podem sair de casa, ou se é melhor abrigarem-se.

 

As pessoas podem tentar ver pela janela. Mas serve de pouco. Os olhos pouco alcançam. Talvez a rua, os vizinhos da frente, o parque das traseiras. E se virem gente aos tiros e bombas a cair, é porque já é tarde de mais. O ouvido é, portanto, fundamental.    

 

Ora, eu, que sou todo ouvidos, a viver numa sociedade dominada pelas imagens, achei isto muito curioso. E deixei-me ficar a ouvir, deliciado, a reportagem sobre o filme "Na Síria", de Philippe Van Leeuw. E, depois, o programa inteiro. O Cinemax, da Antena 1, com edição de Tiago Alves, é um programa sobre cinema feito, apenas, com sons. Sons que nos fazem ver, por antecipação. Por antecipação, como na Síria.

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Goethe e Ghouta

por Miguel Bastos, em 23.02.18

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Goethe (escritor alemão) e Ghouta (região da Síria) pronunciam-se de forma semelhante. Não é a única semelhança. No Fausto, de Goethe, e na guerra, de Ghouta, vendeu-se a alma ao diabo. 

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Posta restante

por Miguel Bastos, em 15.02.18

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O novo filme de Spielberg, "The Post", passa-se na era Nixon. Mas, é inevitável vê-lo como uma reacção à era Trump. Não é, no entanto, um filme dos bons contra os maus. É melhor que isso. A história anda à volta de uma investigação, governamental, sobre o Vietname. Fica-se a saber que, afinal, a guerra do Vietname era uma história mal contada. Aliás, era uma história não contada. Porquê? Porque os presidentes anteriores (Kennedy e Johnson) eram do grupo dos bons. O grupo que os jornais gostavam. Com quem tinham cumplicidade. Eram farinha do mesmo saco. Um saco onde estava, desde logo, o Washington Post.

 

Os protagonistas são a dona do jornal (Meryl Streep) e o diretor (Tom Hanks). São eles que vão ter que colocar em causa a sobrevivência do jornal, em nome da liberdade da imprensa. Mas, tão ou mais importante, vão ter que se colocar em causa.   

 

Nesse sentido, "The Post" é um filme sobre a perda da ingenuidade. Um postal de uma época e do que restou dela.

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É o raça

por Miguel Bastos, em 12.07.17

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Lá em casa, tivemos sempre  problemas com o "raça". Assim mesmo, com artigo masculino. Perante a minha irrequietude, a minha mãe dizia: "o raça do rapaz não pára quieto". Ou "o raça do rapaz nunca está calado". O "raça", portanto. O "raça", dizem os dicionários mais nobres, é uma expressão popular para exprimir descontentamento, irritação, contrariedade.

 

Lá em casa, o "raça" da torneira não funcionava, apesar dos esforços do meu pai. O "raça" do vizinho estacionava a camioneta à nossa porta. E o "raça" do forno queimava o assado de domingo. O "raça" levava sempre com a culpas. A raça também.

 

No livro "Brasil: Uma biografia", as historiadoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling contam-nos que, no século XIX, o "raça" dos brasileiros estavam preocupados com a raça. Para "purificarem" a raça brasileira, "ameaçada" pela sobrevivência dos índios e pela proliferação dos negros, os brasileiros queriam importar pessoas brancas e louras da Europa. Que "raça" de ideia!

 

Na Bósnia dos anos de 1990, a coisa foi mais difícil. Sem negros, nem índios, era preciso distinguir o "raça" de um eslavo do sul, do "raça" de outro eslavo do sul. Neste caso, a religião, explica Tim Butcher no livro "O Gatilho", serviu para dividir o que Deus uniu. E, depois de divididos, foi o "raça". Chamaram "limpeza étnica" à matança mais suja, levada a cabo na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial.

 

"Raça" é isto: na Cova da Moura ou na cidade de Mossul. E é o raça.  

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Pedrógão, na minha cabeça

por Miguel Bastos, em 19.06.17

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Final de uma tarde de verão. Pedrógão Grande estava pronta para ouvir música. Senhores e senhoras, com alguma idade, aguardavam. Era sábado. Os trajes eram domingueiros. Havia curiosidade e entusiasmo no ar. A música começou… e começou mal. No final do primeiro andamento, o entusiasmo converteu-se em palmas. O maestro, que já tinha feito gestos e olhares de censura, parou a Sinfonia de Câmara, de Shostacovitch. A obra, explicou, foi inspirada no bombardeamento de Dresden e dedicada às vítimas da guerra e do fascismo. Dresden foi uma das cidades mais fustigadas pela guerra. A música é triste e soturna. Não podia ser diferente. Fala de morte, desespero e destruição. Não combina com palmas, no meio dos andamentos.

 

Explicada a obra, o maestro pediu silêncio e prometeu divertimentos de Mozart, na segunda parte. O público acatou com dignidade e silêncio e a orquestra tocou como nunca. Na minha cabeça, Pedrógão Grande passou a ser a terra dos que sabia ouvir e homenagear, com dignidade, as vítima da destruição. Saibamos, nós, fazer o mesmo.

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Waterloo

por Miguel Bastos, em 19.06.15

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Tenho recordações fortes de Waterloo. Ritmo veloz, vozes afinadas, roupas brilhantes,  coreografia, alegria. Para mim, Waterloo eram os ABBA, no seu melhor.

 

Foi em 1974, que o quarteto sueco venceu o festival da Eurovisão e conquistou o mundo. Os ABBA trouxeram uma lufada de ar fresco ao festival, que já estava em crise naquela altura. Waterloo foi, apesar disso, uma jogada arriscada porque podia não agradar aos franceses. Mas isso, eu não sabia.

 

Só mais tarde, é que percebi que Waterloo também era o nome de uma batalha. Não tenho culpa. Quando Napoleão foi derrotado, eu ainda não era nascido. Mas passei a perceber porque é que os ABBA estavam vestidos daquela maneira.

 

Então era uma canção política? Não, eram apenas duas moças a cantar “como Napoleão em Waterloo”: “Waterloo, eu fui derrotada, tu ganhaste a guerra”, “Waterloo, prometo que te irei amar para sempre”. Com os ABBA ninguém perdeu: venceu o amor, venceram a Eurovisão.

 

Os ABBA abriram-me as portas da história europeia. Waterloo foi há 200 anos. Ou há 41. “Depende da vossa fantasia”.

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Prazer no trabalho

por Miguel Bastos, em 02.06.15

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Há um diálogo perturbador quase no final do filme Seven, de David Fincher. O jovem polícia (Brad Pitt) não consegue entender a crueldade do assassino (Kevin Spacey). Este responde que só cumpriu o seu trabalho. Quando o polícia lembra a violência do “seu trabalho”, o assassino lembra-lhe que ele, enquanto polícia, também faz uso da violência. O polícia responde que o criminoso tem um prazer sádico nas suas execuções. Este responde que não há nada de errado em retirar prazer do trabalho. Isso só o ajuda a ser melhor naquilo que faz. Obviamente, o assassino é um manipulador. Mas o seu discurso (quase) parece fazer sentido.

 

Lembrei-me deste diálogo, ao chegar ao fim das Memórias da Segunda Guerra Mundial, de Winston Churchill. O homem tinha muito gosto naquilo que fazia. E, provavelmente, isso foi uma das condições que o fez declarar e ganhar a guerra a Adolf Hitler e o regime nazi. Já sabia da força e determinação de Churchill. Mas surpreendeu-me a forma como, ao longo do livro, vai adjectivando a guerra, e o prazer que revela no seu trabalho. Porque a guerra não é um trabalho qualquer.

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Europa, bela e adormecida

por Miguel Bastos, em 21.04.15

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Ando a ler as "Memórias da II Guerra Mundial", de Winston Churchill. O que mais me impressionou, até agora, foi o estado adormecido da Europa, nos anos que antecederam a Guerra.

 

Às vezes as pessoas perguntam “”como é que foi possível?”. E aponta-se um guerreiro louco, megalómano e cruel. Hitler foi isso tudo. Mas, não chega como explicação. Porque, o normal era que um tipo daqueles fosse preso, ou internado, ou morto. Mas não foi. As suas palavras iradas foram acolhidas numa Alemanha humilhada, e não foram contrariadas pelos países europeus: por ingenuidade, por fraqueza ou por conveniência. É chocante que a Polónia tenha anexado partes da Checoslováquia, depois da invasão alemã. Ou que os soviéticos tenham anexado vários países, ao abrigo de um pacto com os nazis. Depois, foram eles os invadidos. Churchill critica, ainda, as políticas “pacifistas” dos franceses e dos ingleses. Os primeiros, foram arrasados num mês. Os segundos aguentaram a guerra sozinhos, até à entrada dos EUA.

 

Às vezes, parece que a Europa aprendeu pouco e mudou pouco. Basta ver como tanta gente acaba de descobrir que há morte e miséria em África e no Médio Oriente.

 

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