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Fausto com Ela

por Miguel Bastos, em 06.02.23

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Uma canção é composta por música e letra. Uma das questões que se coloca, frequentemente, aos escritores de canções, é saber o que é que nasce primeiro. Outra, é saber se a letra pode ser considerada um poema. Se vive sem a melodia. Neste caso, a discussão tende a ser acalorada. Porque vivemos, ainda, com uma concepção de "acima e abaixo" - "cultura erudita" versus "cultura popular". Conheço muitos versos da "cultura popular" que são bem melhores do que alguns versos da "cultura erudita". Não há muito tempo, o tema foi discutido por causa do Nobel da Literatura, atribuído a Bob Dylan. Muitos "da literatura" não gostaram. Os da cultura popular chamaram-lhe "snobs". Não sei quem tem razão, mas não me apaixonei pela discussão. Estranhei, apenas, por uma questão "técnica". Para mim, não se trata de saber se os textos de Bob Dylan são suficentemente bons, para serem premiados com um "Nobel". Mas, antes, saber se as canções, os discos ou os concertos ao vivo podem ser premiados como "literatura". Estranharia um "Grammy" ou um "Brit Award" para Saramago, por exemplo. Um dos escritores de canções mais brilhantes que conheço (música e letra), chama-se Fausto. No "Fala com Ela", da Inês Meneses, diz que não se considera poeta e explica porquê. Não é por ser mais, ou menos. Não é por ser "acima ou abaixo". É por ser outra coisa.

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O mestre e a obra-prima

por Miguel Bastos, em 21.11.22

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"Não se deve confundir", diz a expressão, "a obra-prima do mestre, com a prima do mestre-de-obras". "Por este rio acima" é uma obra-prima e acaba de fazer 40 anos. Baseado nas viagens de Fernão Mendes Pinto, as letras do disco são um mergulho nas profundezas dos descobrimentos. Por vezes, o mergulho exige apneia: cheira a morte, a doença, a carne queimada e esventrada. Não há, aqui, qualquer exaltação ao lado bravo, guerreiro e conquistador - apenas, o lado escuro dos descobrimentos. A riqueza das letras é tão grande que acabou por secundarizar, involuntariamente, a riqueza das canções, dos arranjos, dos instrumentos. As percussões tradicionais portuguesas, mas também as tablas e as baterias; a guitarra portuguesa e o cavaquinho, mas também o alaúde e a viola de gamba; o piano acústico e os sintetizadores; as cordas e os instrumentos de sopro; tantos instrumentos que acompanham a voz e a viola acústica de Fausto, omnipresentes, que, ora nos levam para paisagens exóticas e longínquas; ora nos trazem de volta a Portugal, com ritmos e melodias que nos são familiares. Obra-prima.
 
"Por este rio acima" é um álbum duplo, denso, conceptual, com um pequeno "libreto" ilustrado no interior. A viagem cresceu para trilogia, de forma tão avassaladora que (porventura) acabou por se sobrepor à obra integral de Fausto, que pode/deve ser (re)descoberta. Estamos perante um caso em que não se confundiu "a obra-prima do mestre, com a prima do mestre-de-obras", mas em que, por causa da obra-prima, se poderá terdeixado de reconhecer, devidamente, o mestre que a criou.

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Grande Grande É a Viagem

por Miguel Bastos, em 07.05.20

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Sirvo-me do nome de um disco de Fausto, para falar dos Kraftwerk. São territórios diferentes, mas, em ambos os casos, a ideia de viajem serviu de motor à criação musical. Os Kraftwerk abordaram as viagem de automóvel pelas autoestradas alemãs, em “Autobahn”; as viagens de comboio pela Europa, em Trans-Europe Express; as viagens de bicicleta, em “Tour de France”. Mas a carreira dos Kraftwerk é, toda ela, uma enorme viagem: das aventuras experimentais de Ralf Hütter e Florian Schneider, à consolidação dos Kraftwerk, como quarteto pop. De Radioactivity (1975) até Electric Café (1986), o quarteto transportou a música electrónica do experimentalismo erudito, para a arena pop. E isto, com temáticas pouco habituais na pop-rock - como ciência e a tecnologia - e recusando todos os clichés do género. Os Kraftwerk nunca exibiram ganga, nem cabelo comprido, nem miúdas giras.

Comecei este texto a falar de Fausto que, aparentemente, está nos antípodas musicais dos Kraftwerk. Bem, os Beach Boys também. E, no entanto, terão sido uma das principais influências do grupo alemão, que considerava que eles tinham criado a banda sonora perfeita da Califórnia, dos anos 60. Os Kraftwerk queriam fazer algo parecido, aplicado ao contexto industrial alemão. E fizeram-no. Talvez sem saberem que estavam, já, a criar uma banda sonora para o mundo inteiro. E a criar um mundo novo, como os descobridores cantados por Fausto. Florian Schneider morreu, tinha 73 anos. Fim de viagem.

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Bacalhau com todos

por Miguel Bastos, em 26.03.18

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Este não é um texto sobre gastronomia. É, apenas, um trocadilho básico, para falar de Ana Bacalhau. A própria encomendou uma letra a Capicua, para brincar com o seu nome, numa canção que funde hip-hop com música tradicional portuguesa. De resto, o seu primeiro disco a solo “Em nome próprio” está cheio de misturas: de estilos e de autores, novos e talentosos.

 
Faltava a prova ao vivo. Tive-a neste fim-de-semana. A cantora voltou a misturar. Desta vez, as canções do seu disco, com clássicos de Fausto, Trovante, Carlos do Carmo (Ary dos Santos / Paulo de Carvalho) e António Variações. Mas separou as águas, ao evitar canções da Deolinda. E agitou as águas, para não ficar em águas de bacalhau. Não gostei de tudo, mas apreciei-lhe a vontade de arriscar.
 
Ana Bacalhau é um exemplo do bom momento da música portuguesa. Um dos melhores períodos, de sempre. Que celebra o novo, apoiada num lastro que, durante muito tempo, foi ignorado. Porque todos queriam parecer modernos.
 
Mas, ser moderno não é comer fast food, como todos. Ser moderno, é gostar de Bacalhau, com todos.

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