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E, portanto, como acordei meio tristinho, resolvi ouvir um bocadinho de Amália, para me animar. Sim, Amália tem canções alegres. Mas, muita gente não sabe. O que é triste.
Com que Voz (Luís de Camões, Alain Oulman)
Já não temos fome mãe
Mas já não temos também
O desejo de a não ter
Já não sabemos sonhar
Já andamos a enganar
O desejo de morrer
Ai, Amália, você mata-me! E eu ainda não estou preparado para ... bem, você sabe!
A canção pode ser ouvida, aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=TUq1MYIDttY
"Também se pode coreografar o silêncio?", pergunta Aldina Duarte, a fadista-conversadora da minha rádio. Olga Roriz recorda-se de si própria - coreógrafa em construção: "A minha visão da dança não precisava de música. Eu não precisava da música para dançar". "Que interessante", pensei, porque tendo (penso que todos tendemos) a pensar que não se dança sem música. Mas descubro, na conversa, que cada vez se dança menos. Até em espaços como as discotecas. O que leva as duas conversadoras a refletirem sobre a perda, progressiva, de contacto com o corpo. E, sim, chegam à sexualidade. Uma delícia, este "Fado Cravo". Um programa de corpo inteiro.
www.rtp.pt/play/p9839/e682802/fado-cravo

No prefácio, Martim Sousa Tavares deixa a pergunta: "Como lhe chegou o livro às mãos"? E deixa duas respostas possíveis: porque gosta muito do autor, Haruki Murakami, ou pelo interesse que tem sobre música. Respondo por mim. Só li um livro de Murakami e (lamento!) não gostei muito. Caio, portanto, na segunda categoria: a dos que gostam de música. Mas, acrescento um terceiro motivo: gosto muito de entrevistas e de conversas. Portanto, a coisa promete. Nos próximos dias, vou ouvir dois velhinhos japoneses a falar sobre Brahms, Beethoven e Bernstein. Deve ser o "Fado, Fátima e Futebol" lá do país deles.
O amor tem altos e baixos. Às vezes, dou por mim arrebatado, inebriado, embevecido. Outras vezes, recuo e vacilo. Lamento-lhe a pobreza, a decadência, o desleixo. Nessa altura, dá-me para ouvir esta música. "Morro de amor", diz o primeiro verso do "Fado Moliceiro", que faz renascer a minha paixão. Hoje é dia de festa e de amor. Na minha terra. Pela minha terra.
[O Fado Moliceiro junta três génios: Ary dos Santos, Carlos do Carmo e Carlos Paredes]
Há cerca de 5 anos, a fadista Gisela João gravou uma canção maravilhosa chamada "O Sr. Extraterrestre". Chamaram-me a atenção para o vídeo, que vi na companhia dos meus filhos. A pequenada adorou. Eu também. Depois, reparei num comentário, no Youtube: "A Amália deve estar às voltas no túmulo". E seguiam-se muitos comentários de apoio ao comentário "Credo", "Horrível", "Isto não é fado, nem é nada", "Tudo isto é triste, nada disto é fado". Não, não é fado. Não, não é triste. E Amália não anda às voltas no túmulo, porque a própria gravou a canção, do genial Carlos Paião. E, se Gisela João recorreu à instrumentação tradicional de fado, Amália não evita bateria, baixo, guitarra elétrica, teclados e efeitos especiais/espaciais. O disco, em si, também é de outro mundo: por fora uma capa em banda desenhada, por dentro um vinil colorido amarelo. Um OVNI, portanto. Amália apresentou a canção, no "Passeio dos Alegre" do Júlio Isidro, enquanto estendia a roupa e cantava "Tenho esta roupa a secar e ainda se vai sujar / Se essa coisa aí ficar a deitar fumo pra fora". Mas, apesar do receio inicial, acaba por simpatizar com o dito senhor, ao ponto de se preocupar: "E vista também aquela camisinha de flanela / Pra quando abrir a janela não se constipar com a aragem". E, como boa portuguesa, "Eu dei-lhe um copo de vinho e lá foi no seu caminho / Que era um pouco em zigue-zague".
Amália gravou o "O Sr. Extraterrestre" há 40 anos. Esta tarde, depois das 4, na Antena 1, Nuno Galopim vai juntar uma série de amigos à volta de Amália, à volta da rádio. Sem voltas no túmulo.


David Bowie morreu, há 5 anos. Antes de morrer, deixou um disco onde abordou a chegada da (sua) morte. Dizem que é uma obra-prima, mas confesso que, apesar de ter o disco, fiquei tão triste, que me faltou coragem para o ouvir.