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Os heróis não existem. Ou, então, existem - na nossa cabeça - porque precisamos deles. Precisamos de figuras de referências, que nos sirvam de exemplo, mas, também, de garantia de segurança, de porto de abrigo. Francisco Pinto Balsemão não era um herói, mas parecia. Fundador da democracia e do PSD. Fundador de Expresso e, depois, de um império de comunicação social. Desaparece numa altura em que a democracia está ameaçada. Numa altura em que o jornalismo e a comunicação social estão em crise. Numa altura em que o seu próprio grupo de comunicação dá sinais de fragilidade. Numa altura em que precisamos de heróis - que não existem (já sabemos) mas que continuamos a precisar.
Esta entrevista de Joana Marques, ao Expresso, anda na minha cabeça, há uma semana. Na capa da Revista, lê-se que Joana vem de uma família de intelectuais. Não é a primeira, nem será a última. Muitas figuras, com destaque no espaço público nacional, vêm de famílias de intelectuais. Geralmente são, também elas, intelectuais. E há, também, muitos casos de intelectuais que vêm de famílias de operários, agricultores ou comerciantes. É o resultado de uma longa aposta na educação, que tem contribuído para aquilo que, geralmente, se designa como "mobilidade social". Uma mobilidade "para cima", que Joana Marques terá colocado em causa. Em casa, a mãe de Joana dedicava-se às traduções, o pai à história, o irmão à filosofia. Joana dedicava-se a ver programas de Teresa Guilherme. Ainda é assim. O pai (João Pedro Marques) escreve "romances históricos, e grandes" que ela não lê "e ele sabe". E eles, em casa, não percebem bem quem são as pessoas, em causa, que ocupam os programas de Joana. É certo que, a dada altura, Joana confessa que "gostava de" se sentir "um bocadinho menos inculta"; mas, logo a seguir, confessa que não gostou muito de andar na universidade porque "parecia que estava em casa!". Não haverá muitos casos assim, em Portugal. Mas creio que se irão tornar, cada vez mais, comuns. Poderíamos pensar que é uma tragédia, mas é comédia.

"(...) os homens não falam entre si. Nas famílias, as palavras estão entregues às mulheres. Os homens gerem silêncios, aqui e ali entrecortados." Apanho a frase, na revista do Expresso. É da semana passada. Já devia, portanto, ter ido para o lixo. Mas não foi. Demora-se sempre mais tempo do que é suposto: na secretária, na prateleira, ao lado da cama. A revista ficou, ali, aberta: pronta para ser lida. Às vezes, não chega a ser. Os jornais dão-nos mais, muito mais, do que conseguimos ler. São um caleidoscópio do mundo, que esperamos ordenar. Mas acabam, eles próprios, espalhados e desordenados: pela casa; pelo mundo.

Ler o jornal devia ser isso mesmo: ler o jornal. Um ato banal, corriqueiro, quotidiano. Será, ainda, um direito e um dever. Mas, hoje, ler o jornal - este, em particular - pode ser, também, um ato de solidariedade e luta. Que não se esgote no dia de hoje.

- Pai, tens jornais que me arranjes?
- Para quê?
- Para fazer um trabalho.
- Podes usar o Expresso da semana passada.
- Queres ver o que eu estou a fazer?
- Mostra lá.
- E obrigado pelos jornais. Já ninguém lê jornais, pois não?
- Algumas pessoas ainda leem, mas são poucas.
- Isso é um bocado triste, não é?
- É, porque, depois, os filhos não fazem artes plásticas.

Sempre incentivei os meus filhos a partilharem: livros, brinquedos, comida. Nunca gostei do "isso é meu", nem do "não mexas nisso, não é teu". Claro que a pandemia veio suspender o espírito de partilha. Ou, vai daí...

O novo livro de José António Saraiva chama-se "Salazar - A Queda de Uma Cadeira que Não Existia". Confesso, estou desiludido: depois de "Eu e os Políticos" e de "Eu e os outros" tinha a expectativa (mais do que legítima!) de que um livro de José António Saraiva sobre Salazar se chamasse "Eu e o Salazar". Não foi, no entanto, a escolha do antigo diretor do Expresso e do Sol. Fica a minha sugestão. Já que se propõe a desmistificar a queda de Salazar de uma cadeira, durante as férias deste no Forte de S. António do Estoril, José António Saraiva poderia chamar ao livro "As minhas férias com Salazar". É um título muito original e mais próximo do universo do autor.

“Estou longe de arrumar as botas”, diz Jerónimo de Sousa, à SIC. Não sei como é que Jerónimo é com sapatos e sapatilhas. Mas, se fosse mais novo, poderia ser meu filho.