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Por conselho médico, a escritora George Sand rumou a Maiorca. Procurava um inverno ameno, mas também uma nova relação com a natureza - mais próxima e romântica. O filho tinha passado mal o inverno, mas o namorado ainda tinha passado pior. O namorado era o compositor e pianista Frédéric Chopin. Um casal apaixonado, numa ilha tropical... Estão a ver o filme? Talvez não. Sobretudo, se tiverem lido o livro "Um inverno em Maiorca". A aventura começa mal e continua pior. A família é mal recebida pela população local - que estranha a presença de Chopin, os modos da escritora e as roupas dos filhos - a casa que alugam é fria e húmida, Chopin não consegue ter o seu piano, o seu estado de saúde agrava-se, a população teme que a doença seja contagiosa e obriga-os a afastarem-se.
Acabam a viver na cela de um mosteiro, semiabandonado, perdido no meio das montanhas. George Sand vai-se vingar no livro, descrevendo os habitantes de Maiorca como ociosos, rudes, ignorantes. Pouca gente se salva, no retrato de Sand - exceto a natureza generosa da ilha. Foi essa natureza que atraiu George Sand, mas, quatro meses depois, concluiu que "o homem não foi feito para viver com as árvores, com as pedras, com o céu puro, com o mar azul, com as flores e com as montanhas, mas sim com os homens, seus semelhantes". Pelo tom do livro, percebe-se que a escritora não reconhece os maiorquinos como seus semelhantes. Descreve que, quando chegou ao barco francês que os iria levar de regresso a casa, teve a "sensação de ter dado a volta ao mundo, abandonado os selvagens da Polinésia e estar de volta ao mundo civilizado". Apesar do tom - e sem referir o nome de Chopin (é "o nosso enfermo") - a verdade é que o livro acaba por eternizar a passagem da escritora e do compositor pela ilha. Hoje, é possível visitar o local onde o casal viveu durante esse inverno, em que Chopin ("o nosso enfermo") compôs os seus famosos prelúdios. Parece que, com o passar dos anos, os "selvagens" se tornaram magnânimos e perdoaram os excessos da escritora, sorrindo.
Releio que o homem não feito para viver "com o mar azul". Olho para o mar azul, para os selvagens e sorrio, também.
- Eu percebi bem?
- O quê?
- Há um partido chamado "Se acabó la Siesta"?
- Não. Chama-se "Se acabó la Fiesta".
- Ah..
- É um partido de extrema-direita.
- Isso eu tinha percebido. Só que tinha ouvido "la Siesta".
- Não, "la Fiesta".
- Assim, faz sentido.
- Porquê?
- Porque a extrema-direita gosta mais de nós a dormir.

O 25 de Abril é "nosso", foi um dos argumentos utilizados para questionar ou, mesmo, repudiar a presença do presidente do Brasil, em Portugal. É "nosso", sim. Mas, será só nosso? Dei por mim a reler partes deste livro do historiador britânico Kenneth Maxwell (especialista em Portugal, Espanha e Brasil). O livro aborda "A construção da democracia em Portugal", centrando a sua análise no período entre 1974 e meados da década de 1980 - com a entrada na CEE, a eleição presidencial de Mário Soares e as maiorias absolutas de Cavaco Silva. Mas contextualiza este período, de pouco mais de 20 anos, com a história de Portugal: desde a sua fundação, até ao período do Estado Novo. O livro do historiador termina com Ciência Política, evocando a "terceira vaga de democratização", de Samuel Huntington. De acordo com esta teoria, o 25 de Abril foi o precursor da transição democrática nos países da América Latina e da Europa de Leste, na transição dos anos 80 para os anos 90. Fomos, portanto, uma inspiração para o mundo. Mas, pelos vistos, há quem prefira que sejamos os maiores da nossa aldeia.
"Shakira, Shakira!", dizia o rapper de gosto questionável, num tema de gosto questionável. "Devem ser duas", pensei. São duas. A primeira, conhecia-a algures nos anos 90 e achei-lhe graça. A segunda, não gostei nem um bocadinho. Era a cantora de "Whenever, Wherever". A canção pingava, várias vezes por dia, numa rádio inundada de azeite - que eu era obrigado a ouvir, por motivos profissionais. Uma dessas Shakira entrou, depois, na banda sonora do filme "O Amor nos Tempos de Cólera". Terá sido uma proposta do próprio Gabriel García Márquez. Na altura, o escritor afirmou que Shakira era uma das grandes cantoras da atualidade e um símbolo da nova sensualidade colombiana. "Coitado", pensei, "está velhinho"! Fui ouvir a banda sonora e... o velhinho tinha razão. Esta Shakira, é maravilhosa. A outra, não me interessa. Terá sido essa, que se separou do jogador de futebol e fez uma música sobre isso ("Fraquinha, fraquinha!"). Não gosto dessa, gosto desta. Ele há gostos... e Hay amores.

Morreu Pau Donés, cantor dos Jarabe de Palo. A banda espanhola/catalã (pouco conhecida em Portugal) dedicou-se a misturar pop, rock e blues, com música latina e rumba catalã. Por estes dias, em que o racismo voltou a ser falado pelas piores razões (e é sempre pelas piores razões) lembrei-me muitas vezes deste tema: "En el puro no hay futuro" mistura vários estilos musicais, numa canção que enaltece a mistura racial. Diz o refrão :