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A que cheira a memória?

por Miguel Bastos, em 05.01.24

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Queria, desesperadamente, chegar ao fim deste livro. Porque me estava a incomodar. Nem sabia porquê. Depois, percebi. Era por causa do cheiro. O cheiro a humidade, a pó, a caruncho, a mofo, a naftalina. O livro fala de Portugal, depois de Abril, mas o cheiro é do regime anterior. Como assim? Então, e "As portas que Abril abriu"? e "O cheirinho a alecrim"? e "O dia inicial inteiro e limpo"? Porque me cheira assim?

No livro, uma jornalista portuguesa, a trabalhar nos Estados Unidos, regressa a Portugal para recontar uma das mais belas histórias do século XX: a Revolução dos Cravos. Fá-lo porque o mundo está um lugar muito feio e é preciso contar histórias bonitas ao mundo. Este ponto de partida ajuda a aumentar o desconforto. É que essa ideia, vinda de fora, não cola com a realidade, cá dentro.

A protagonista vai reencontrar o seu pai, com quem tem uma relação difícil, e vai tentar reencontrar alguns dos amigos do seu pai: são alguns dos principais heróis de Abril. Todos eles tiveram destinos diferentes. Todos nos transmitem uma tristeza sem fim. Todos nos remetem para o mesmo cheiro.

Chego, finalmente, ao fim do livro. Mas, em vez de me livrar dele, volto para trás e começo tudo de novo. No meio do cheiro (e do fumo, não tinha referido o fumo), há sinais de esperança que não tinha sentido na primeira leitura. É um livro memorável, como as personagens que lhe dão título. Tem a mestria de Lídia Jorge. E não nos facilita a vida...

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Livro e jornais

por Miguel Bastos, em 18.12.23

Paul Auster, a escrever sobre livros e jornais, no livro 4 3 2 1.

"O encanto dos jornais era completamente diferente do encanto dos livros. Os livros eram sólidos e permanentes, e os jornais eram efémeros e finos, descartados logo que tinham sido lidos, para serem substituídos por outros na manhã seguinte, todas as manhãs um jornal novo para o dia novo. Os livros avançavam numa linha reta do princípio ao fim, ao passo que os jornais estavam sempre em vários sítios ao mesmo tempo, uma miscelânea de simultaneidade e contradição, com múltiplas histórias a coexistirem na mesma página, cada uma expondo um aspeto diferente do mundo, cada uma a afirmar uma ideia ou um facto que nada tinha a ver com a que estava a seu lado, uma guerra à direita, uma corrida de ovo e colher à esquerda, um edifício a arder em cima, uma reunião de escuteiras em baixo, coisas grande e pequenas misturadas (...)".

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Paixão

por Miguel Bastos, em 17.10.23

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Há uns anos (quase 30), apaixonei-me por este livro. Tanto, que me lembro de ter escrito uma carta apaixonada, sobre o livro, à minha paixão da altura. Para ser franco, já não me lembro bem da história de "Mr. Vertigo". Fui continuando a alimentar a minha paixão com outros livros, do mesmo autor. Porém, a dada altura, a paixão entrou numa certa rotina. Afastámo-nos, um pouco. Enfim, o normal.
Há uns tempos, a minha paixão da altura (sim, essa contina a mesma) deu-me um livro de Paul Auster. E foi paixão, de novo.

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11 de Setembro

por Miguel Bastos, em 11.09.23

allende.jpg 

"Por uma arrepiante coincidência", sublinha Isabel Allende, "os aviões sequestrados nos Estados Unidos despedaçaram-se contra os seus objectivos numa terça-feira, 11 de Setembro, exatamente o mesmo dia da semana e do mês - e quase à mesma hora da manhã - em que ocorreu o golpe militar do Chile, em 1973. Este último foi um acto terrorista orquestrado pela CIA contra uma democracia. As imagens dos edifícios a arder, do fumo, as chamas e o pânico, são semelhantes em ambos os cenários."

 
Isabel Allende escreveu estas palavras, há 20 anos.
Augusto Pinochet fez um golpe de Estado, há 50 anos.
A democracia continua em perigo, todos os dias.

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Milan Kundera [1929-2023]

por Miguel Bastos, em 12.07.23

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Imortal, há muito tempo.

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Só livros!

por Miguel Bastos, em 17.02.23

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- Só livros, só livros!
- E é mau, Fátima?
- É que não tem nada de jeito!
- Tem que ver com mais atenção.
- Ah, agora sim. Tem aqui uma varinha mágica... olha relógios!
- Pois, mas isso não é para vender.
- Como assim?
- Eles dão essas coisas, a quem traz novos sócios.
- Pois, os sócios. Isto é por causa da minha mãe, que não quer deixar de ser sócia.
- Faz bem. Quando tempo é que ela vai ficar em França?
- Ainda não sabe. E eu é que tenho de andar a ver estas coisas.
- De certeza que vai encontrar um livro que goste, Fátima.
- Eu não gosto de livros. E, isto, é só livros!
- Já reparou no nome da revista? "Círculo de Leitores".
- Pois, e não tem nada de jeito.
- Só livros. Não é, Fátima?
- É, e eu que me amanhe!

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Mega Ferreira

por Miguel Bastos, em 26.12.22

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Vivemos num tempo de especialização - continua e progressiva. Ser (realmente) bom numa coisa, implica (geralmente) abdicar de tudo o resto. São poucos aqueles que são verdadeiramente bons, em várias coisas: simultânea ou alternadamente. Enciclopédico, Mega Ferreira foi jornalista, escritor, gestor, sonhador, fazedor: na RTP, no JL, na Ler, na Expo, no CCB. Há muito, que o tempo não está de feição para os homens da renascença. Mega Ferreira foi contra o tempo e renasceu várias vezes. Hoje, morreu.

https://www.publico.pt/2022/12/26/culturaipsilon/noticia/morreu-escritor-jornalista-antonio-mega-ferreira-2032731

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Eucaliptos

por Miguel Bastos, em 14.10.22

eucaliptos.jpg 

Eça de Queirós, A Cidade e as Serras, 1901
 
"- Oh, Zé Fernandes, quais são as árvores que crescem mais depressa?
 - Eh, meu Jacinto... A árvore que cresce mais depressa é o eucalipto, o feiíssimo e ridículo eucalipto. Em seis anos tens aí Tormes coberta de eucaliptos... "
 
Já não falta tudo. Os grandes Incêndios, na região centro, foram há cinco.

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Dia da língua portuguesa

por Miguel Bastos, em 05.05.22

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Palavras, no dia da língua.
 
"Tu tens de aprender a guardar as coisas de pensar. Se souberes escrever, as folhas de papel serão caixinhas onde podes arrumar com palavras tudo aquilo que não queres esquecer. E as folhas de papel, tão planas e aparentemente vazias, adquiriam fundura, uma dimensão inesperada, porque se eu soubesse escrever pirilampo, para sempre um pirilampo estaria ali, talvez até de cauda acesa, à minha espera. Meu, sem ir embora. Eu disse: é a minha palavra preferida. A minha mãe respondeu: eu sei."
 
Valter Hugo Mãe, Contra mim, 2020

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Corrida espacial

por Miguel Bastos, em 06.04.22

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A ficção, científica ou não, tem a grande vantagem de antecipar a realidade. David Walliams escreveu este livro, antes dos milionários deste mundo desatarem a viajar no espaço, a preços de outro mundo. Os protagonistas são dois hipopótamos. Um deles é muito rico e tem tudo: a começar por um nome mais comprido que um camião - o que é um anacronismo em tempos de conquista espacial. A outra (sim, é uma "hipopótama") tem amigos, imaginação e cocó. Sim, cocó. Não vou contar o fim da história, porque isso seria uma deselegância. Vou apenas dizer que o dinheiro não compra tudo, felizmente.

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