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Escritaria

por Miguel Bastos, em 20.10.25

Maria do Rosário Pedreira@Vitorino Coragem.jpg 

"Ui, já devo estar muito velha", disse-me, a sorrir, "para me homenagearem". Maria do Rosário Pedreira apresenta-se como "editora", mas reconhece terá sido escolhida pelo facto de ser escritora. É a homenageada, deste ano, do Festival Literário Escritaria. Maria do Rosário Pedreira escreveu mais de 40 livros para crianças e jovens, um romance e 5 livros de poesia. Para além disso, tem uma presença assídua em jornais e revistas, no seu blog "Horas Extraordinárias", e nas palavras que são cantadas por milhares de portugueses. São dela as "Pontas soltas", amarradas na voz de Carlos do Carmo. Foi por causa dela, que António Zambujo foi apanhado de "calças na mão". Esta semana, vai-se juntar aos "gigantes Saramago e Lobo Antunes".

Para ouvir, aqui:
https://www.rtp.pt/noticias/cultura/escritaria-festival-literario-celebra-18-anos_n1692396

[Foto: Vitorino Coragem]

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Os ossos de Eça

por Miguel Bastos, em 08.01.25

EÇA TORMES.jpg

Eça foi a Baião. Calhou-lhe na rifa uma herança da mulher, que teria que visitar. "Que maçada", terá lamentado. Se fosse um de nós, a historia acabava aqui. Mas, Eça era escritor e era genial. E em vez de acabar com a história, resolveu escreveu uma: "A Cidade e as Serras".

Há várias histórias intricadas, dentro e fora do livro. Eça de Queiroz visitou umas ruínas perdidas na região do Douro e inventou uma história sobre a recuperação da propriedade. Mais tarde, na vida real, a família recuperou a propriedade - a partir da história de Eça. A casa foi arranjada e mobilada com os móveis que vieram de Paris (onde Eça era diplomata e morreu). Existe um caminho de Jacinto (o protagonista do livro), uma casa do Silvério (o caseiro) e um restaurante, com o nome de Tormes (terra inventada por Eça)

Regressei ao livro, em trabalho, e fui a Tormes - para acompanhar a homenagem que lhe fizeram, antes da trasladação para o Panteão.

Não resisto a partilhar este extrato de "A Cidade e as Serras:

"(...) o meu Jacinto preparou então a cerimónia tão falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacintos - dos 'respeitáveis ossos' como murmurava, cumprimentando, o bom Silvério". E, mais à frente, "Naquela confusão, quando tudo desabou, não pudemos mais conhecer a quem pertenciam os ossos (...) senhores de todo o respeito, mas, se Vossa Excelência me permite, senhores já muito desfeitos... Depois veio o desastre, a mixórdia. E aqui está o que decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo, quantas caveiras se apanharam lá em baixo na Carriça, entre o lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete caveiras e uma caveirinha pequena. Metemos cada caveira no seu caixão. Depois: Que quer Vossa Excelência? Não havia outro meio! E aqui o sr. Fernandes dirá se não procedemos com habilidade. A cada caveira juntámos uma certa porção de ossos, uma porção razoável... Não havia outro meio... Nem todos os ossos se acharam... Canelas, por exemplo, faltavam! E é bem possível que as costeletas de um daqueles senhores ficassem com a cabeça de outro... Mas quem podia saber? Só Deus."

Eça a rir-se de si próprio. Eça a fazer-nos rir. Eça a rir-se de nós. Como sempre. 

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A promessa

por Miguel Bastos, em 06.03.23

damon.jpg 

Mergulhei neste livro, sem consciência da profundidade. Algo que não me é muito comum. Bem sei que muita gente diz que não liga a críticas, a artigos ou entrevistas com os escritores. Não é o meu caso: ajudam-me a descobrir autores, apontam-me caminhos. O nosso tempo é limitado e a oferta infinita. Portanto, é bom ter quem nos ajude a poupar tempo e (já agora) dinheiro. Não me passa pela cabeça entrar numa sala de cinema, e só no instante em que começa o filme, ter consciência que, afinal, é um filme de "carros e gajas e porrada". Ou comprar um disco às escuras e descobrir que, afinal, é de música pimba.
Sobre "A Promessa", nada sabia. Nem sequer conhecia o autor: Damon Galgut. Na capa, abaixo do seu nome, a inscrição "Vencedor Booker Prize 2021". Na badana, do lado esquerdo, ficamos a saber que este é o seu terceiro livro. Os dois primeiros já tinham sido candidatos ao Prémio. Na contracapa, os elogios de jornais reputados: "The Guardian", "The Times", "The New Yorker". "Aparentemente, temos escritor", pensei. Temos. Que escritor!
Mergulho, em apneia, no livro "A Promessa". É uma saga familiar - tema comum na literatura - passada na África do Sul. A história decorre ao longo de mais de 30 anos. Durante este período, o país livra-se do "apartheid", mas muitas cicatrizes continuam por sarar. A família, estilhaçada, vai morrendo: um de cada vez, nas mais diversas circunstâncias, dando lugar a diferentes tipos de funeral. Esta é a única altura em que a família (ou que vai restando dela) se encontra. Estamos perante um drama épico, sobre anti-heróis, com mortes súbitas e silêncios eternos. Há uma promessa, claro está. Mas, essa, não é para contar.

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O mundo: dentro e fora

por Miguel Bastos, em 15.01.22
 
 20220115_100534.jpg

 

"(...) os homens não falam entre si. Nas famílias, as palavras estão entregues às mulheres. Os homens gerem silêncios, aqui e ali entrecortados." Apanho a frase, na revista do Expresso. É da semana passada. Já devia, portanto, ter ido para o lixo. Mas não foi. Demora-se sempre mais tempo do que é suposto: na secretária, na prateleira, ao lado da cama. A revista ficou, ali, aberta: pronta para ser lida. Às vezes, não chega a ser. Os jornais dão-nos mais, muito mais, do que conseguimos ler. São um caleidoscópio do mundo, que esperamos ordenar. Mas acabam, eles próprios, espalhados e desordenados: pela casa; pelo mundo.
A frase inicial é de Davide Enia - um escritor italiano, da Sicília, que desconheço e que não sei "se e quando" vou conhecer. Perguntaram-lhe se escrevia sobre os naufrágios de Lampedusa. Respondeu que tinha escrito o livro ("Notas de um naufrágio") para salvar a relação com o seu pai. É, os jornais dão-nos o mundo: por fora e por dentro.

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