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Aparelhagem

por Miguel Bastos, em 27.07.21

neil young.jpg

Foi o primeiro disco a girar na nossa aparelhagem. O sonho de uma vida. Era curta, a nossa vida; mas a espera, achávamos nós, tinha sido imensa. Já tínhamos comprado alguns discos, logo após a aprovação, na generalidade, da aquisição do aparelho. Discutíamos, em plenário, qual seria o primeiro disco a girar, quando fomos surpreendidos pelo anúncio da visita de uma tia. Esta tia - velha, dura e austera - não era dada a frivolidades e iria, certamente, condenar pais e filhos, pelo gasto avultado e desnecessário. Corremos para a sala para reajustar os planos: a viagem psicadélica dos Pink Floyd, que pedia intensidade no volume, teria que ser adiada; e o disco ao vivo dos Doors, com as explosões de raiva e poesia de Jim Morrison, não nos pareceu indicado. A tia chegaria a qualquer momento. Escolhemos o Harvest, que tinha acabado de ser entregue pelo senhor do Círculo de Leitores. O Neil Young tinha a beleza exigida para a ocasião e a vantagem de gritar baixinho. Ouvimos o disco de um lado e do outro, com o coração, cheio e nas mãos, e os olhos hipnotizados pelas luzes que piscavam, com maior ou menor intensidade, ao ritmo das canções. O Neil Young inaugurou o sonho de uma vida: ainda no início e já tão inteira.

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Waldemar Bastos

por Miguel Bastos, em 10.08.20

waldemar bastos.jpg

“Existe um lado bom em pertencer a um povo que foi colonizado”, disse-me um dia Waldemar Bastos, “que é poder conhecer bem a cultura do colonizador, sem perder as raízes da sua própria cultura”. Penso sempre nesta frase de Waldemar Bastos quando sinto, à minha volta, que muitos portugueses lamentam o facto de não terem nascido americanos ou ingleses. Eu gosto de pensar que tenho sorte. Eu conheço-lhes os Doors ou os Beatles. Eles não fazem ideia de quem é José Afonso ou Sérgio Godinho. Perdem eles.
 
Conheci Waldemar, num disco dos Heróis do Mar, e nunca mais parei de o ouvir. Foi a partir de “Africaninha” que cheguei à “Velha Chica” e percebi que, afinal, a canção dos Heróis era uma espécie de sequela do tema que Waldemar cantou com Martinho da Vila (num álbum-estreia que contava com Chico Buarque). A partir daí, passei a estar atento àquele angolano de voz triste e doce. À forma como misturava a música da sua Angola, com outras músicas de África, de Portugal, do Brasil, do mundo inteiro. Mundo que passou, depois, a conhecê-lo. Sobretudo, depois de David Byrne ter editado a sua música no final dos anos 90, em plena euforia da chamada “world music”.
 
Waldemar Bastos é um artista extraordinário. Continua a ser. Morreu hoje, aos 66 anos.

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