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30 anos, baby

por Miguel Bastos, em 18.11.21

Normalmente, o lançamento de um disco não é assunto de noticiário. E nunca é abertura de noticiário. Mas, há 30 anos, foi. Lembro-me da TSF abrir o noticiário das 8 com guitarras distorcidas, sons industriais, eletrónica ambiental, ritmos tribais a desaguar na dança, e uma voz carregada de efeitos. Um OVNI, na rádio portuguesa. Um OVNI planetário, soube depois. Os pacifistas U2 desencadearam uma espécie de blitzkrieg artística. Eu, que era leitor do Blitz (e do Sete, do Público, do DN, do Expresso, e do NME e do Melody Maker...), fui apanhado pelo ataque surpresa. Os U2 mudaram tudo: da luz do sol, para as luzes de néon; da América para a Europa; do deserto para a metrópole; da flanela para o nylon; do rock puro e duro, para o rock sujo, industrial, eletrónico, rítmico, pulsante. Olhei, boquiaberto, para Bono - maquilhado, com óculos de mosca, repleto de brilhos - e esfreguei os olhos e os óculos. Um Bono mais Bowie do que Dylan. Nunca visto, nunca ouvido.

 
É claro que, mais tarde, ao raspar o verniz, ao soprar as purpurinas, reencontrámos os U2 de sempre - com as suas canções e as suas causas - a conviver com os novos - mais dançáveis, mais eletrónicos, mais experimentais. Os U2, a inventar o futuro. Um disco como "Achtung baby" é uma coisa rara. Continua a ser. Faz 30 anos. Espantoso. Podem fechar a boca. Para não entrar mosca.

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Lado B

por Miguel Bastos, em 09.11.21

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Nas últimas semanas, tenho andado a ouvir o novo disco da Rita Redshoes. Estamos em novembro e, por esta altura, é normal perguntarmo-nos se o disco, que estamos a ouvir, será, ou não, o disco do ano. Também já me fiz essa pergunta. Mas, também, já me fiz outra: "será que isso é assim tão importante?" A seguir, lembrei-me que, há dois anos, um dos discos mais bonitos que ouvi (nos últimos anos) foi o disco da Lena d' Água. E, no ano passado, maravilhei-me com o disco da Capicua, que tem a voz da Lena e, como o disco da Rita, é muito marcado pelo universo feminino e pela maternidade. Finalmente, lembrei-me que, há uns anos, a Paula Moura Pinheiro fez um programa em que juntou a Xana, dos Rádio Macau, e a Manuela Azevedo, dos Clã, para falarem do rock no feminino: coisa rara, em Portugal. As duas eram quase "as únicas". Felizmente, as coisas têm vindo a melhorar: a Rita é única, mas não "a única". E, isso, só pode ser bom. Já agora, o novo disco chama-se "Lado Bom" e é mesmo bom. E é lindo. Sai à mãe.

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José Afonso

por Miguel Bastos, em 07.10.21

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Um mês e meio antes do 25 de Abril, José Afonso - que já era cantor de Abril, antes de Abril acontecer - assinou este contrato. Foi só uma formalidade. O primeiro contrato - esse, sim, revolucionário - tinha sido assinado em 1968: o editor, Arnaldo Trindade, comprometia-se a pagar um salário fixo ao artista; José Afonso a gravar um disco por ano. Assinado o contrato, José Afonso gravou o disco "Cantares do Andarilho". A obra-prima (é o álbum de "Vejam bem") só não se destaca mais dos discos seguintes, porque estes variam entre o "tão bom como" e o "ainda melhor do que". José Afonso é, obviamente, um génio.
Podia (devia?) ter partilhado uma canção ou a capa de um dos seus discos. Partilho, no entanto, a imagem do contrato (está no interior de uma edição especial do "Cantares do Andarilho") porque me parece demonstrativa de uma coisa óbvia: sem meios de subsistência, José Afonso não teria conseguido criar e gravar a sua vasta obra. Para isso ter acontecido, foi necessário celebrar contratos e mobilizar meios técnicos, financeiros e artísticos. E foi por isso ter acontecido, que a música de José Afonso chegou até nós. Só que, entretanto, a empresa que detinha as gravações faliu, os discos esfumaram-se e ficámos privados de José Afonso.
E, agora, a boa notícia: até ao final do próximo ano, os 11 discos de José Afonso, gravados entre 1968 e 1981, vão ser reeditados. Vão ficar disponíveis nas plataformas digitais, em CD e em vinil. "O caminho faz-se caminhando" e começa (vejam bem!) com o "Andarilho". Cantemos.

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Rádio

por Miguel Bastos, em 04.10.21

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A dada altura, deixei de reconhecer um estúdio de rádio. Primeiro, a digitalização levou as cassetes e os leitores de cassetes; depois, os discos e os gira-discos; de seguida, os CD e os leitores de CD e, finalmente, o papel. Alguns estúdios são tão asséticos, que mais parecem laboratórios ou salas de operação. O estúdio, que me acompanhou nos últimos meses, tem as maquinetas necessárias, meia dúzia de discos, mas, sobretudo, tem papel impresso. O papel é muito útil. Ajuda os ouvidos de quem ouve (melhora a acústica) e aquece o coração de quem fala (o meu, está visto). Agora, chega a hora de me despedir deste estúdio e regressar a um estúdio mais convencional. Desses, a fugir para o moderno.

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Amigos em Portugal

por Miguel Bastos, em 17.09.21

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No início dos anos 80, Miguel Esteves Cardoso estudava em Manchester - a cidade dos Joy Division e da editora Factory. Nessa altura, teve a ideia de criar uma editora, dentro do mesmo espírito, em Portugal. Com a ajuda de jovens músicos, como Pedro Ayres Magalhães e Ricardo Camacho, criou a Fundação Atlântica. Em pouco mais de dois anos, lançaram a Sétima Legião, relançaram os Xutos e Pontapés e editaram este "Amigos em Portugal", dos Durutti Column. A banda, de Manchester (e da Factory), tem um som melancólico, típico do pop-rock britânico alternativo da época, mas remete, também, para uma certa portugalidade de ambientes fadistas. O mesmo tipo de som cultivado por Anamar, Mler if Dada, António Variações, ou, mais tarde, os Madredeus.
 
Achava incrível que os talentosos Durutti Column tivessem escrito, gravado e editado um disco sobre Portugal, em Portugal. Nos anos 80, ouvia "Amigos em Portugal", numa cassete manhosa, gravada por um amigo de um amigo lá de casa, que, entretanto, se perdeu. O disco era muito raro e precioso. No outro dia, cruzei-me com ele e não resisti. Não sou fetichista, nem tenho espírito de colecionador. Mas, confesso, gosto muito de ter este velho amigo cá me casa.

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Aparelhagem

por Miguel Bastos, em 27.07.21

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Foi o primeiro disco a girar na nossa aparelhagem. O sonho de uma vida. Era curta, a nossa vida; mas a espera, achávamos nós, tinha sido imensa. Já tínhamos comprado alguns discos, logo após a aprovação, na generalidade, da aquisição do aparelho. Discutíamos, em plenário, qual seria o primeiro disco a girar, quando fomos surpreendidos pelo anúncio da visita de uma tia. Esta tia - velha, dura e austera - não era dada a frivolidades e iria, certamente, condenar pais e filhos, pelo gasto avultado e desnecessário. Corremos para a sala para reajustar os planos: a viagem psicadélica dos Pink Floyd, que pedia intensidade no volume, teria que ser adiada; e o disco ao vivo dos Doors, com as explosões de raiva e poesia de Jim Morrison, não nos pareceu indicado. A tia chegaria a qualquer momento. Escolhemos o Harvest, que tinha acabado de ser entregue pelo senhor do Círculo de Leitores. O Neil Young tinha a beleza exigida para a ocasião e a vantagem de gritar baixinho. Ouvimos o disco de um lado e do outro, com o coração, cheio e nas mãos, e os olhos hipnotizados pelas luzes que piscavam, com maior ou menor intensidade, ao ritmo das canções. O Neil Young inaugurou o sonho de uma vida: ainda no início e já tão inteira.

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Fim do Mundo

por Miguel Bastos, em 18.05.21

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Estava eu a ouvir uma sinfonia de Dvořák, muito jeitosa, na minha telefonia (desculpem o termo, sou antigo) online (a fugir para o moderno), quando vejo as horas e ligo o transístor, noutro posto emissor, para ouvir o noticiário. Depois do noticiário, deixo ficar o transístor ligado mais uns minutos porque, entretanto, o Camané começou a cantar uma modinha dos Xutos e Pontapés muito agradável. Entretanto, o meu computador foi invadido por um "live" no Facebook, de uma senhora pianista que tocava uma variação com temas dos Beatles, que, não sei porquê, me lembrou Keith Jarrett. Enfim, uma mixórdia: tudo a tocar ao mesmo tempo. Não me sentia tão confuso desde o Jackpot 79. Nesse disco, o jovem Marco Paulo cantava a "Mulher sentimental", que eu desconfiava que era a Suzi Quatro - que entrava, logo a seguir. Mais à frente, a Lara Li dizia-se pronta para dançar o fandango, mas, na realidade, a cançoneta tinha um ritmo "disco sound". No fundo, um prelúdio, no mesmo ritmo, para uma rapsódia de canções de Amália no disco 2 do Jackpot. A sinfonia de Dvořák é conhecida como a "Sinfonia do Novo Mundo". À cacofonia, cá de casa, poderemos chamar "Fim do Mundo".

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E ainda, e sempre

por Miguel Bastos, em 20.04.21

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David Bowie morreu, há 5 anos. Antes de morrer, deixou um disco onde abordou a chegada da (sua) morte. Dizem que é uma obra-prima, mas confesso que, apesar de ter o disco, fiquei tão triste, que me faltou coragem para o ouvir.

 
Carlos do Carmo morreu, no primeiro dia deste ano. E também deixou um disco. Mas, ao contrário do que aconteceu com o disco de Bowie, ando a ouvi-lo, repetidamente. Não sei bem porquê. Talvez porque a morte de Carlos do Carmo não tenha sido uma surpresa: sabíamos da fragilidade da sua saúde; sabíamos que tinha feito várias operações, delicadas. O "charmoso" já se tinha despedido algumas vezes - antes dessas operações - dizendo que não sabia se voltava. Dizia até, com graça, que o seu corpo já não tinha peças originais. Em 2019, anunciou, publicamente, que não iria voltar aos palcos.
 
"E ainda" - o novo disco - está longe de ser ligeiro. Tem o peso da grande poesia: de Herberto Hélder, Saramago e Sophia. Mas tem, também, a luminosidade de Vasco Graça Moura, numa "Mariquinhas" na idade da internet; ou de Júlio Pomar, a fazer troça do Portugal do "pão e vinho" requentado, dos tempos da troika.
 
"E ainda" é um disco pequenino (23 minutos), de um grande artista. Vem acompanhado de outro disco, ao vivo, chamado "Obrigado". Obrigado, nós, Carlos do Carmo. E até já, até logo, até sempre.
 
(Há, ainda, uma edição com o registo, em DVD, dos concertos e da gravação de "E ainda".)

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Cabeleireiros

por Miguel Bastos, em 14.01.21

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Lembrei-me, agora, que os cabeleireiros vão fechar. Se calhar, devia ter pensado nisso mais cedo.

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Publicidade

por Miguel Bastos, em 25.11.20

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Bush é bom. (Desculpem, hoje acordei um bocado onílico).

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