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O mestre e a obra-prima

por Miguel Bastos, em 21.11.22

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"Não se deve confundir", diz a expressão, "a obra-prima do mestre, com a prima do mestre-de-obras". "Por este rio acima" é uma obra-prima e acaba de fazer 40 anos. Baseado nas viagens de Fernão Mendes Pinto, as letras do disco são um mergulho nas profundezas dos descobrimentos. Por vezes, o mergulho exige apneia: cheira a morte, a doença, a carne queimada e esventrada. Não há, aqui, qualquer exaltação ao lado bravo, guerreiro e conquistador - apenas, o lado escuro dos descobrimentos. A riqueza das letras é tão grande que acabou por secundarizar, involuntariamente, a riqueza das canções, dos arranjos, dos instrumentos. As percussões tradicionais portuguesas, mas também as tablas e as baterias; a guitarra portuguesa e o cavaquinho, mas também o alaúde e a viola de gamba; o piano acústico e os sintetizadores; as cordas e os instrumentos de sopro; tantos instrumentos que acompanham a voz e a viola acústica de Fausto, omnipresentes, que, ora nos levam para paisagens exóticas e longínquas; ora nos trazem de volta a Portugal, com ritmos e melodias que nos são familiares. Obra-prima.
 
"Por este rio acima" é um álbum duplo, denso, conceptual, com um pequeno "libreto" ilustrado no interior. A viagem cresceu para trilogia, de forma tão avassaladora que (porventura) acabou por se sobrepor à obra integral de Fausto, que pode/deve ser (re)descoberta. Estamos perante um caso em que não se confundiu "a obra-prima do mestre, com a prima do mestre-de-obras", mas em que, por causa da obra-prima, se poderá terdeixado de reconhecer, devidamente, o mestre que a criou.

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Eu, tu, we

por Miguel Bastos, em 16.11.22

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No início, era a pandemia: o confinamento, o isolamento. O último disco dos Arcade Fire parte daí: da ansiedade ("Age of Anxiety"), da toca de cada um ("Rabbit Hole"). Começa centrado no "eu", mas evolui para um "nós". É um disco de introspeção, mas também de catarse, de redenção e de conexão. Um disco fotografia; mas, também, um disco cartão-postal: "Espero que este postal te encontre bem de saúde" / "Nós, por cá, tudo bem". No fundo, é o disco que eu estava a precisar de ouvir, por estes dias. Um disco que me faz regressar à minha adolescência: quando achava que as canções podiam salvar-me; quando achava que as canções podiam salvar o mundo. Por esta ordem, ou pela ordem inversa.

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Achar o Brasil

por Miguel Bastos, em 02.11.22

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- Essa cantora, aí... é portuguesa, "Migueu"?
- A Fernanda Abreu? Não, é brasileira.
- Tem certeza, "Migueu"?
- Tenho, tenho.
- Conheço não. Você conhece outras cantoras brasileiras?
- Ui, tantas!
- Quais?
- Elis Regina, Maria Bethânia...
- De agora...
- Marisa Monte...
- Já ouvi falar. Você gosta de axé?
- Hum...
- Sertaneja?
- Gosto mais de bossa nova.
- Ah! Meio triste "né", "Migueu"?
A Luci, a descobrir Portugal. Eu, a tentar achar o Brasil.

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Tema: o amor

por Miguel Bastos, em 26.10.22

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"Quando for grande", pensei, "vou-me casar ao som do 'Love Theme', do Barry White". Foi, mais ou menos, isso que aconteceu. A música não foi no momento programado na minha cabeça, mas ouviu-se. O casamento fez-se e manteve-se. Mantém-se, felizmente. Faltava, apenas, o disco original, que comprei passado uns anos, em segunda mão. A data da edição é mais próxima do meu nascimento, do que de meu casamento, e é descuidada (coitadinha). Na contracapa, tem a ficha técnica em português. Na capa, exibe, em letras estilizadas, "Arreglos e Direccion: Barry White". Escapa, à primeira vista. Ganha graça, à segunda. Barry, a piscar o olho a Gershwin no título "Rhapsody in White". Barry, o maestro negro com sobrenome branco. Barry, a dirigir uma orquestra chamada "Love Unlimited". Barry e o amor. Sempre o grande tema.

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Os discos da mãe

por Miguel Bastos, em 07.10.22

A mãe não gosta de deitar coisas fora. Nem gosta de ver coisas deitadas fora. No outro dia, viu um saco cheio de CD, ao lado do contentor. Resgatou-os.
- Mas, isto é tudo pirata, mãe!
- Como assim?
- Isto são discos copiados em casa - como as cassetes, antigamente.
- Pois, isso não sei.
Olhei para as capas. Muitas estavam escritas, à mão.
- Mas tu gostas desta música?
- Acho que não gostei de nada.
Pelos vistos, a mãe torceu o nariz às "house sessions", fez caretas aos "techno beats" e não se deixou encantar pelo "drum n' bass" (desculpa, LTJ Bukem).
Mexe a chávena do café, enquanto aponta, com o queixo, um CD.
- Acho que só gostei desse aí.
Olho para a capa do CD dos Portishead, numa impressão de má qualidade. Glória à mãe.

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O assobio da Cobra 2

por Miguel Bastos, em 27.09.22

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O Manuel Paulo escreveu, cá para casa, há vários meses. O Manuel Paulo é músico, há vários anos. Nos anos 80, era "teclista" na banda do Rui Veloso. Nos anos 90, fundou, com João Gil, a sua própria banda: a Ala dos Namorados. Mas os holofotes estavam focados no compositor dos Trovante e num "alien" chamado Nuno Guerreiro (um homem, com voz de mulher?!). O Manuel estava lá, a fazer aquilo que sabe fazer melhor: música. Nunca teve pinta de "pop-star". Penso que nunca quis ter. Há quase 20 anos, assinou o seu primeiro disco em nome próprio: "O assobio da Cobra". Mas, nem aqui saltou para o primeiro plano. Cedeu (uma vez mais) o palco, às canções e às vozes que convidou. Este ano, voltou a repetir a receita. "O assobio da Cobra 2" tem vários cantores convidados (cantoras, sobretudo). Tem Nancy Vieira, A garota não e Ana Deus, logo a abrir. Na primeira canção, o Manuel nem sequer aparece. Apesar de ser teclista, muitas canções são dominadas pelas guitarras. As letras são do (genial) João Monge.
 
Por falar em letras, já o disse: o Manuel Paulo escreveu-me. Enviou o disco, por correio, com os endereços escritos à mão. Assinou o disco, por dentro. E eu, que mal sabia juntar as letras quando o vi, pela primeira vez. Eu, deixei o disco do Manuel Paulo dentro do envelope, esquecido entre as cartas com as contas da luz e da água e os folhetos das imobiliárias e dos supermercados. Eu, só agora cheguei ao disco do Manuel Paulo. Eu, na verdade, já nem o merecia ouvir. Mas o disco merece, certamente. Que belíssimo disco. As minhas desculpas ao autor. As minhas desculpas, a mim mesmo e a quem me trata das coisas do espírito.

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Grandes discos

por Miguel Bastos, em 14.09.22

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Há mais de 30 anos, comprei o disco "Wind and Wuthering", dos Genesis. Na altura, nem o conhecia bem. Arrisquei, mas estava riscado. Voltei à loja, para o trocar. Não havia outro igual. Saí da loja com "Seconds Out" - também dos Genesis - um álbum duplo, ao vivo. Só que o outro ficou-me atravessado. Até agora. Acabo de comprar o disco "Wind and Wuthering". E acabo de reparar que, entretanto, os discos encolheram. Mesmo os grandes discos.

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Carta para Kate

por Miguel Bastos, em 19.06.22

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Querida Kate, parece que os moderninhos descobriram que a sua música é nova. Claro que é nova. Tão nova, que lhes foi preciso esperar pela televisão por cabo, com séries em "streaming" e temporadas, com alta definição e largura de banda. E muitos não-sei-quê: não-sei-quê-k, não-sei-quê-g, não-sei-quê-hd.
Querida Kate, a sua música tem, de facto, um não-sei-quê: que me impediu de gastar as notas, que juntei na Páscoa, numas sapatilhas novas. Peguei nas notas e comprei "The Whole Story" / "a história toda". E não me arrependi. Nem quando dois buracos se abriram na sola, junto ao calcanhar direito. Nem quando o dedão esquerdo começou a emergir sob a lona esfiapada. Eu andava nas nuvens. Portanto, as sapatilhas pouco me importavam.
Querida Kate, eles não conhecem a história toda. Pior, eles não sabem da missa a metade. Nem saberão.

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Anjos

por Miguel Bastos, em 07.06.22

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Foi a primeira vez que nos vimos, assim, à luz do dia. Sorri-lhe. Não respondeu. Fomos íntimos. Frequentámo-nos, quando eu saia, à noite, para dançar. Perdoou-me sempre os excessos, no tabaco e na bebida. Respeitámo-nos sempre. Sim, nesse tempo havia respeito. E os anjos não tinham sexo.

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Vira o disco

por Miguel Bastos, em 06.06.22

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Com a morte recente de Vangelis, voltei a ouvir "Friends of Mr. Cairo" - disco em parceria com Jon Anderson, dos Yes. E, depois, este "Walk into Light", de Ian Anderson, dos Jethro Tull. Sempre associei os dois discos: juntam dois cantores veteranos do rock progressivo (com nomes quase iguais, ainda por cima), com dois mestres da eletrónica - Vangelis e Peter-John Vettese. Os dois discos afastam-se do progressivo e enveredam por territórios pop, com uma sonoridade mais próxima de nomes como os Kraftwerk ou Ultravox. No caso de "Walk into Light", até os temas das letras se aproximam a estas bandas, com um certo gosto pela modernidade e pela tecnologia ("End Game", "User-Friendly") ou por uma certa ideia romantizada da Europa ("Different Germany"). Já não ouvia "Walk into Light" - com os seus sintetizadores, samples e caixas de ritmo - há muitos, muitos, anos (10? 15? 20?). E a verdade é que se ouve muito bem. Para já, vai ficar mais alguns dias a tocar no prato.

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