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Bacalhau com todos

por Miguel Bastos, em 26.03.18

ana bacalhau.jpg

Este não é um texto sobre gastronomia. É, apenas, um trocadilho básico, para falar de Ana Bacalhau. A própria encomendou uma letra a Capicua, para brincar com o seu nome, numa canção que funde hip-hop com música tradicional portuguesa. De resto, o seu primeiro disco a solo “Em nome próprio” está cheio de misturas: de estilos e de autores, novos e talentosos.

 
Faltava a prova ao vivo. Tive-a neste fim-de-semana. A cantora voltou a misturar. Desta vez, as canções do seu disco, com clássicos de Fausto, Trovante, Carlos do Carmo (Ary dos Santos / Paulo de Carvalho) e António Variações. Mas separou as águas, ao evitar canções da Deolinda. E agitou as águas, para não ficar em águas de bacalhau. Não gostei de tudo, mas apreciei-lhe a vontade de arriscar.
 
Ana Bacalhau é um exemplo do bom momento da música portuguesa. Um dos melhores períodos, de sempre. Que celebra o novo, apoiada num lastro que, durante muito tempo, foi ignorado. Porque todos queriam parecer modernos.
 
Mas, ser moderno não é comer fast food, como todos. Ser moderno, é gostar de Bacalhau, com todos.

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Tipo Godinho

por Miguel Bastos, em 28.02.18

sergio godinho2.jpg

"Tipo" é tique de linguagem, que passou dos jovens adolescentes aos velhos "tipo" moderno. Mas "tipo" é também cópia, imitação, pechibeque: "tipo azeitão", "tipo serra". Há um tom de comédia, de circo, de farsa, na canção "Tipo Contrafacção". Letra precisa (Godinho), música arrojada (Nuno Rafael), arranjo certeiro (Filipe Melo). Pim, pam, pum. 

 

O novo disco de Sérgio Godinho é de uma economia de meios notável. O mestre assina duas canções e  divide autorias com outros compositores nas restantes, escrevendo as letras depois. Há uma excepção: "Delicado", uma canção de Márcia. Grande parte das canções tem um ou dois músicos, que tocam todos os instrumentos, o que lhe dá uma sonoridade mais artesanal, mas também mais original. Em pouco mais de meia hora, Godinho divide créditos e junta talentos: de "Grão da mesma mó" (David Fonseca) a "Até já, até já" (Pedro da Silva Martins, dos Deolinda). 

 

"Nação valente" fala de nós todos, em geral, e de cada um, em particular, num universo só dele. E não é "tipo". É mesmo genuíno. É mesmo Godinho.

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Ai Portugal, Portugal

por Miguel Bastos, em 29.12.16

zambujo e ana moura.jpg

Há uns anos, o Tó-Zé Brito disse-me que os Beatles deixaram algumas das melhores canções da história da música popular; mas, por outro lado, perpetuaram a ideia de que os intérpretes devem ser autores das suas canções.

 

Carlos do Carmo ou Frank Sinatra nunca precisaram de escrever uma linha, para serem cantores de topo. É bom ser um Beatle, mas é difícil. Ser, ao mesmo tempo, bom músico, bom cantor, bom compositor, bom orquestrador e bem parecido - é coisa rara. Em Portugal, como no resto do mundo, há gente que canta bem, mas a letra é sofrível e a música fraquinha. Ou que é um excelente compositor, mas um intérprete questionável. A nova geração de fadistas, veio romper com essa necessidade de se cantar o que se escreveu. Temos António Zambujo ou Ana Moura a cantar letristas e compositores que, dificilmente, seriam ouvidos em Londres, Paris, ou Rio de Janeiro. Penso em Pedro da Silva Martins (Deolinda) ou Miguel Araújo, que são compositores e letristas dotados de um talento raro e precioso, que têm interpretes à altura do seu talento e vice versa.

 

É por isso que eu acho que a música portuguesa está a passar um bom momento. Portugal já não espera, como na canção de Jorge Palma. Portugal pensa e faz. E é ouvido.

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