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O livro dos Maias

por Miguel Bastos, em 25.09.20

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"Já leste o meu livro dos Maias?", perguntou-me a Dona Tininha. "Ainda vou a meio, está a fazer-lhe falta"? "Não", respondeu-me, "mas gosto de o ver no móvel ao pé da televisão". A Dona Tininha tinha razão: ficava mesmo bem. A fazer conjunto com um outro, em tons de verde. Um verde floresta escuro, que contrastava com o bordô dos Maias. A uni-los, além da proximidade física, o dourado das letras e de umas riscas que separavam o nome do livro e do autor. O verde (não tenha a certeza) seria, talvez, "Uma família inglesa" de Júlio Dinis. Mas posso estar engando. Associo aquele verde a coisa inglesas: carros, sofás, uniformes dos colégios internos. Na volta, até era um "Amor de perdição", de Camilo. Mas esse, imagino sempre que deve ser vermelho. O móvel da Dona Tininha era de verga e tinha três prateleiras: na primeira, revistas da Crónica Feminina; na segunda, uma bonita lata de chá; na terceira, uma vasta biblioteca de dois livros, bonitos e preciosos. Despachei-me a ler o Eça. Sentia-me culpado, por fazer da casa da Dona Tininha um sítio menos belo do que o habitual.

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A sagração de Amália

por Miguel Bastos, em 14.09.20

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Vinha a sorrir, a caminho de casa. Degustava, mentalmente, a promoção "leve 3, pague dois" quando me apercebi que já tinha 1 dos 3 discos acabados de comprar. Voltei para trás, para devolver a gravação da "Sagração da Primavera", de Stravinski, dirigida por Leonard Bernstein para a Deutsche Grammophon. Tinha pouco mais de meia hora para escolher outro disco. Faço uma selecção de 5/6 discos até chegar à final, com duas hipóteses. O meu coração balançou entre um disco de Amália e outro de Madonna. Ganhou Amália, já em tempo de compensação. Voltei para casa a sorrir, desta vez do meu ecletismo.

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Webinar

por Miguel Bastos, em 11.09.20

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Gosto desta palavra. É nova, mas faz-me lembrar os videoclubes dos anos 80. Fico sempre a pensar que, depois de ver o "webinar", tenho de rebobinar até ao início. É uma questão de respeito pelos outros. E de evitar multas.

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Palmeiras

por Miguel Bastos, em 01.09.20

Olá malta "hipster", "trendy" e coiso e tal. Não se iludam: essas camisas de bimbo - com palmeiras, folhas e frutas de todas as cores - que andam a usar, não são "fashion". São mesmo de bimbo. Têm todo o direito a brincar aos telediscos dos Modern Talking e do José Malhoa. Admito, até, que possa ser divertido. Mas é só isso. Não é "cool". E agora, devolvam lá as camisas aos vossos tios e vamos fingir que isto não aconteceu.

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Waldemar Bastos

por Miguel Bastos, em 10.08.20

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“Existe um lado bom em pertencer a um povo que foi colonizado”, disse-me um dia Waldemar Bastos, “que é poder conhecer bem a cultura do colonizador, sem perder as raízes da sua própria cultura”. Penso sempre nesta frase de Waldemar Bastos quando sinto, à minha volta, que muitos portugueses lamentam o facto de não terem nascido americanos ou ingleses. Eu gosto de pensar que tenho sorte. Eu conheço-lhes os Doors ou os Beatles. Eles não fazem ideia de quem é José Afonso ou Sérgio Godinho. Perdem eles.
 
Conheci Waldemar, num disco dos Heróis do Mar, e nunca mais parei de o ouvir. Foi a partir de “Africaninha” que cheguei à “Velha Chica” e percebi que, afinal, a canção dos Heróis era uma espécie de sequela do tema que Waldemar cantou com Martinho da Vila (num álbum-estreia que contava com Chico Buarque). A partir daí, passei a estar atento àquele angolano de voz triste e doce. À forma como misturava a música da sua Angola, com outras músicas de África, de Portugal, do Brasil, do mundo inteiro. Mundo que passou, depois, a conhecê-lo. Sobretudo, depois de David Byrne ter editado a sua música no final dos anos 90, em plena euforia da chamada “world music”.
 
Waldemar Bastos é um artista extraordinário. Continua a ser. Morreu hoje, aos 66 anos.

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De cortar a respiração

por Miguel Bastos, em 20.07.20

Primeiro, um piano minimalista. Poderia ser Philip Glass. Mas, 5 segundos depois, chega a voz de Rufus. Aos 30 segundos, chega, também, um violino. A tensão vai subindo, com a entrada da bateria e um som electrónico que lembra Kraftwerk. Pouco depois, explode o refrão: com os metais a juntarem-se às cordas e a um coro de vozes femininas. E é, então, que nos lembramos que Rufus é um compositor apaixonado por musicais; e ópera; e música sinfónica. E cantou Judy Garland; e escreveu duas óperas; e musicou poemas de Shakespeare. Pouco depois do minuto 2, uma pausa dramática serve, sobretudo, para relançar a tensão. A voz de Rufus sobe de tom, depois arrisca o falsete, e as vozes femininas começam a fundir-se com a eletrónica e os sons orquestrais, lembrando os ABBA em fim de carreira. E eu quase que não consigo respirar, e tento retirar a máscara. E, depois, reparo que não tenho máscara. É mesmo da música: de cortar a respiração. Que grande canção, Rufus Wainwright, que grande regresso.

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40 graus à sombra

por Miguel Bastos, em 16.07.20

Com este calor de ananases, apeteceu-me ouvir "40 graus à sombra", dos Radar Kadafi. A banda teve um sucesso efémero, nos idos de 80 - quando a pop portuguesa vestia-se com um gosto cosmopolita; num país que pouco saía de casa, mas que estava desejoso de o fazer. Nessa altura, a música era, também, uma forma de viajar. De resto, ainda é. Por curiosidade, o baterista não teve grande carreira na música, mas tem uma carreira respeitável na arquitetura: é Francisco Aires Mateus. Mais de 30 anos depois, "40 graus à sombra" está fresca que nem uma alface.

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Morricone pop

por Miguel Bastos, em 06.07.20

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Um facto, talvez, menos conhecido de Morricone. Apesar da ligação intensa ao mundo do cinema, a música de Ennio Morricone não se limitou a ele. Por exemplo, em 1987, Morricone trabalhou com um grupo de música pop: os Pet Shop Boys. A canção foi incluída no segundo disco da dupla e teve o arranjo de Angelo Badalamenti (o criador das paisagens sonoras de David Lynch). E, depois, esta canção deu nome ao filme "It couldn't happen here". É como se não fosse possível afastar Morricone do cinema.

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O que é que se passa

por Miguel Bastos, em 15.06.20

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Racismo, violência policial, pobreza, desemprego, manifestações: eis o que o irmão de Marvin Gaye encontrou nos Estados Unidos, ao regressar da guerra do Vietnam. Marvin inspirou-se nesse regresso para escrever novas canções e acrescentou os seus dramas pessoais: a morte da cantora Tammi Terrell, a instabilidade do seu casamento ou a relação difícil com a sua editora. Com o debate racial, de novo, em cima da mesa tive vontade de regressar a "What's going on". Poderia ser um disco escuro, amargo e violento. Mas, curiosamente, Marvin Gaye canta sobre a morte das pessoas ou do planeta, com a sua voz doce de sempre e sobre um tapete sonoro elegante, sensual e sofisticado.

Marvin Gaye assinou a sua obra prima, há quase 50 anos. O disco permanece, surpreendentemente, actual: pelas melhores e pelas piores razões.

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Jarabe de Palo

por Miguel Bastos, em 09.06.20

Morreu Pau Donés, cantor dos Jarabe de Palo. A banda espanhola/catalã (pouco conhecida em Portugal) dedicou-se a misturar pop, rock e blues, com música latina e rumba catalã. Por estes dias, em que o racismo voltou a ser falado pelas piores razões (e é sempre pelas piores razões) lembrei-me muitas vezes deste tema: "En el puro no hay futuro" mistura vários estilos musicais, numa canção que enaltece a mistura racial. Diz o refrão :

"Señores, en lo puro no hay futuro
Señores, la pureza está en la mezcla
Señores, en la mezcla de lo puro
Señores, que antes que puro fue mezcla"
 
O resto da canção também é uma delícia. O Jarabe (Xarope) é que está menos doce.

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