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No cemitério

por Miguel Bastos, em 13.04.23

 

- Já não vinha a este cemitério, há imensos anos.
- Isso é bom sinal.
- Porquê?
- Então, é sinal que não te têm morrido pessoas próximas.
- Mas eu não vinha para funerais.
- Ai não?
- Não, vinha fazer introspeção, pensar nos males do mundo e mais não sei o quê.
- Ahhh.
- Foi a minha fase gótica, estás a ver?
- Compreendo.
- A sério? Eu não.
- Não?
- Se eu,agora,visse esse adolescente, deitado num banco de pedra, armado em existencialista da treta, acho que lhe dava um par de estalos.
- Não acredito.
- Dava, dava. Romantizar o sofrimento... que estupidez! Ele vem de qualquer forma, não é preciso procurá-lo.
- Estás a falar do teu pai?
- Estou. Era um tipo cheio de vida e eu, no cemitério, a ouvir música.
- The Cure e essas coisas?
- Sim, ainda me custa ouvi-los.

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Os arquitetos

por Miguel Bastos, em 16.01.23

rapagao.jpg 

Normalmente, os arquitetos fazem casas e museus e teatros e hospitais e essas coisas importantes.
Mas, por vezes, são interrompidos por jornalistas.
Nesses dias, passeiam em cemitérios e jardins e tiram fotografias.
  - Importa-se? - pergunta-me o arquiteto João Rapagão.
  - Claro que não. Temos que fingir que estamos a trabalhar?
  - Acho que não é preciso.

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Perder peso

por Miguel Bastos, em 02.11.20
Cabelo puxado para trás, com gel; óculos escuros, espelhados; t-shirt justa, com a marca em letras garrafais; calças abaixo da barriga, presas com um cinto brilhante; sapatos pretos, bicudos.  "Então?", diz ele, ao tirar os óculos, "Já não me conheces?" "Então, não havia de conhecer?", respondo. "Sei lá, há tempo que não nos víamos, e eu agora estou assim, mais magro". "Ah, sim?", respondo. Na verdade, nunca o tinha visto mais gordo. "É pá, a brincar a brincar, perdi uns 20 kg" responde-me ele, a ajeitar o cinto. "Que bom, parabéns". Abre os braços, a simular a envergadura, e desenha o contorno da barriga com as mãos: "Pois é, pá. Estava bem acima dos 100 kg. Mas agora estou assim". "Impecável", digo, "como é que conseguiste? Dieta?". "Não!", responde de rajada. "Ginásio?", volto a perguntar. "Ainda tentei, mas não tenho paciência." "Então?", insisto. "É pá, realmente como menos porcarias, mas acho que é de dançar muito, ao fim de semana". "E isso chega?", pergunto. "E depois, com as gajas... aquilo não é só dançar... um gajo perde mesmo peso... estás a ver?" Pisca-me o olho e dá-me um toque com o cotovelo. "Estou a ver", respondo. Mas, este ano, não o vou ver. Pelo menos, ali. Este ano, o cemitério está fechado.

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