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Democracia de pé

por Miguel Bastos, em 02.01.19

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"Pensem como demorou tempo e foi custoso pôr de pé uma democracia e como é fácil destruí-la", disse o Presidente da República de Portugal, no dia da tomada de posse do Presidente do Brasil.

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Oscar

por Miguel Bastos, em 05.12.18

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Oscar Niemeyer desenhou Brasília, para a democracia. Mas a cidade foi colonizada pela ditadura. E Oscar recusou, sempre, qualquer forma de ditadura. Até, a do ângulo reto. Niemeyer morreu há 6 anos. A sua obra ainda está aí: para as curvas.

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Costaguana

por Miguel Bastos, em 08.10.18

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É um país da América Latina. Ora dominado pelo capital dos estrangeiros, que se instalam no país para trabalhar e enriquecer. Ora dominado pelos movimentos de libertação nacional, que se revoltam contra a miséria do povo e tomam o poder. Uns contra os outros, uns atrás dos outros. Nem uns, nem outros, hesitam em recorrer à violência, para impor o seu domínio numa sucessão de ditaduras. Nem uns, nem outros, hesitam em agitar a defesa do bem comum, em benefício próprio.

 

Joseph Conrad, um polaco que se aventurou nos mares para descobrir o mundo inteiro, transformou-se num escritor britânico lido no mundo inteiro. Escritor brilhante, observador atento, pessimista e provocador. Em “Nostromo”, Conrad inventou um país chamado Costaguana. Mas é evidente que este país é baseado numa história verídica. Uma história que se repete: no mesmo país, noutros países semelhantes. Uma história que se repete, até aos dias de hoje. Como prova o dia de hoje.

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O Haiti é aqui

por Miguel Bastos, em 19.07.17

[Foto: Paulo Nuno Vicente]

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No livro "Barroco Tropical", José Eduardo Agualusa descreve-nos uma Luanda em decadência. O protagonista é um escritor, casado com a filha de um militar do regime. Vivem no topo de um arranha céus. Mas o prédio está inacabado. No topo, vivem os ricos. Nos andares enterrados no solo, vivem os indigentes, os traficantes, as prostitutas, os marginais. Normalmente, não se cruzam. Mas vivem debaixo do mesmo tecto. "Que alegoria tão forte", pensei. Angola deve ser isto.

 

O livro lembrou-me uma canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil chamada "Haiti". Na altura, o Haiti tinha sido arrasado por um furação. Um dos muitos que, regularmente, assolam o país, demasiado habituado a furacões e miséria. E, perante as miséria do Brasil, a dupla canta "O Haiti é aqui". O Haiti pode ser ali, no Brasil; ou ali, em Angola. E pode ser aqui, em Portugal? Pode. 

 

A Rita Colaço foi à Jamaica. Não foi em lua de mel. Não foi em cruzeiro. Foi em reportagem. O bairro da Jamaica, fica no Seixal, às portas de Lisboa - a antiga capital do império. É um conjunto de esqueletos de betão abandonados por um construtor falido. As pessoas - sem casa, sem terra, sem emprego - foram ocupando os prédios, piso a piso. Preencheram-nos de tijolos e gente. Abaixo do solo não está gente, como no livro de Agualusa. Mas estão dejectos de gente, a corroer a saúde da gente e do prédio. As fundações estão em perigo e um dia, enquanto as entidade discutem a solução para o problema, a casa vem abaixo.    

 

Jamaika também é Portugal, diz Rita Colaço. Pois é, Rita. E "o Haiti é aqui".

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É o raça

por Miguel Bastos, em 12.07.17

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Lá em casa, tivemos sempre  problemas com o "raça". Assim mesmo, com artigo masculino. Perante a minha irrequietude, a minha mãe dizia: "o raça do rapaz não pára quieto". Ou "o raça do rapaz nunca está calado". O "raça", portanto. O "raça", dizem os dicionários mais nobres, é uma expressão popular para exprimir descontentamento, irritação, contrariedade.

 

Lá em casa, o "raça" da torneira não funcionava, apesar dos esforços do meu pai. O "raça" do vizinho estacionava a camioneta à nossa porta. E o "raça" do forno queimava o assado de domingo. O "raça" levava sempre com a culpas. A raça também.

 

No livro "Brasil: Uma biografia", as historiadoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling contam-nos que, no século XIX, o "raça" dos brasileiros estavam preocupados com a raça. Para "purificarem" a raça brasileira, "ameaçada" pela sobrevivência dos índios e pela proliferação dos negros, os brasileiros queriam importar pessoas brancas e louras da Europa. Que "raça" de ideia!

 

Na Bósnia dos anos de 1990, a coisa foi mais difícil. Sem negros, nem índios, era preciso distinguir o "raça" de um eslavo do sul, do "raça" de outro eslavo do sul. Neste caso, a religião, explica Tim Butcher no livro "O Gatilho", serviu para dividir o que Deus uniu. E, depois de divididos, foi o "raça". Chamaram "limpeza étnica" à matança mais suja, levada a cabo na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial.

 

"Raça" é isto: na Cova da Moura ou na cidade de Mossul. E é o raça.  

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Rosa Choque

por Miguel Bastos, em 11.04.17

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Tudo é cor-de-rosa, na minha vizinha. Os brincos - duas argolas grandes e brilhantes. As unhas - longas e pontiagudas. As pálpebras - contrastando com o rímel negro. E, ainda, a carteira, a camisola e o cinto. Tudo rosa. No colo, um livro aberto. As letras são negras, as páginas são brancas, mas os nomes parecem-me cor de rosa: Gerson, Vanda, Neide… A minha vizinha mexe os lábios (cor-de-rosa, claro!) enquanto lê. As vezes percebem-se algumas palavras, sussurradas. 

 

Por descuido, lê mais alto. “Oi, quirida!”; “Não, tou no trem”; “Por volta dáis nóvi, amor”. Afinal, está ao telefone. Tudo é rosa, na vida desta mulher. A roupa, o corpo, o livro, a voz. “Não quirida, pode bôtar pra você. Basta squentar. Eu quando chégar tomo um leite. Amanhã, pego cedo lá na fábrica”. Volta, por instantes, ao Seu Gerson e a Dona Neide. Depois, atende outro telefonema no “cêlulá”: “Não si preocupi, Seu Vítor. Esqueci não. Amanhã, vou receber. Depois a gente ácerta nossas contas”.

 

Afinal, nem todo é rosa na vizinha. Enterro os olhos no meu livro. Curiosamente, fala de escravos no Brasil. É um bom livro, acho eu. Mas isso sou eu, que tenho uma vida bastante mais cor-de-rosa.

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Que medo, Brasil!

por Miguel Bastos, em 19.04.16

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O congresso brasileiro votou a favor da destituição da Presidente Dilma Rousseff.  Foi um espetáculo degradante. Cerca de 60% dos deputados que votaram contra Dilma, têm problemas com a justiça. Sobre Dilma, haverá suspeitas, mas não há acusação. Li, em vários sítios, de que nem é preciso haver. Está na cara! Não sejamos ingénuos: o governo o PT, Lula e Dilma têm muita coisa para explicar. Mas, em caso de assalto, deixar os ladrões a guardar o cofre não é, apenas, pouco prudente. É mesmo estúpido….

 

Há razões éticas e estéticas para nos arrepiarmos com o espectáculo degradante da votação no congresso: as claques, as canções, as declarações de voto, os empurrões, as dedicatórias. Criticou-se o Governo e o PT por politizar um processo judicial. Mas, o que se viu não foi qualquer tipo de argumentação jurídica. Foi gente a insultar Dilma, a agradecer a Deus, a elogiar a ditadura militar. A humilhar a democracia, na casa da democracia.

 

Este Brasil mete medo.

 

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