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"Vocês ouviram o que o gajo disse, esta manhã?" Dissemos que sim, com a cabeça. "Vou ter que entalar o gajo". Estávamos nos incêndios. A nossa colega, jornalista veterana, estava indignada com as declarações do presidente da câmara. Já não me lembro o que é que o autarca tinha dito, mas eram críticas duras ao governo. Aguardávamos o presidente, que estava reunido com o ministro. Foi o primeiro a sair. "Lamento, mas vou ter que entalar o gajo". O presidente vinha a arrastar os pés, exausto. "Ai, coitado! Já viram como é que ele está?" Pediu-nos uns minutos. Quer aguardar pelo ministro, depois poderá fazer declarações. "Não tem que o fazer", diz a nossa colega. O presidente olha para ela, espantado. "O senhor não está bem." O autarca confirma: "Pois não. Não posso estar." "Há quantas horas não dorme?", insiste a colega. O autarca diz que vai dormindo: uma, duas horas - quando pode, onde pode. O seu município arde, há vários dias. "Pois, mas não pode ser. Tem que dormir, senão não chega ao próximo incêndio". "Talvez não", responde, "mas também não sei o que é que vai chegar. Já ardeu quase tudo." Chegou o ministro. Falou o ministro. Falou o presidente e ninguém o "entalou". A única pessoa que parecia entalada, era a nossa colega: "Vão por alguma coisa deste presidente, no ar? Eu não vou". E vai atrás dele, "Olhe que eu estou mesmo preocupada consigo. O senhor não está bem"...
O autarca parece que tem fogo no rabo, mas não tem. Tem fogo na cabeça (é impossível não ter). E tem fogo nos pés. Estão protegidos, por um par de botas robustas. Usa as botas, para apagar as brasas. Usa a cabeça, para apagar as chamas. Chama os bombeiros, ao telefone. Chama a atenção, aos transeuntes. Uns, passam demasiado depressa. Outros, passam demasiado devagar. Outros, já não passam. A estrada foi fechada. A estrada foi reaberta. A estrada voltou a fechar. Não há helicóptero. Já há, mas nunca mais chega. Já chegou, mas não pode atuar. Não pode atuar, por causa do capacete de fumo. Ponha o capacete, senhor António, por causa do fogo. Tire a mota, senhor António, por causa do fumo. O autarca parece cansado. Nega estar cansado. Não tem tempo para o cansaço. Mas tem os olhos vidrados. E tem fogo na cabeça. Vai ser difícil, o rescaldo. Por mais água que ponha na cabeça
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"Ardeu tudo, lá em cima", lamentava o jovem autarca, "Foi muito mau. Nem sei como é que não foi pior". A ideia era simples: visitar as terras que tinham ardido, no verão anterior. Tentar perceber o que estava recuperado, o que estava por recuperar, e se havia alterações na gestão da floresta. "As pessoas", dizia-me, "estão sempre a perguntar porque é que não se fecha esta ou aquela estrada. Isso não faz sentido." "Porquê?", pergunto. "Porque as estradas não são para fechar. São para circular". "Interessante", digo, "podemos gravar"? "Não, porque isto é muito polémico. No ano passado, ficámos isolados a combater o fogo, porque fecharam as estradas e os bombeiros não conseguiam passar. Portanto, a questão que deve ser feita é 'porque é que se fecham as estradas?'" "E qual é a sua resposta?", insisto. "Porque tem de ser, claro. Mas tem de ser, porque se deixa plantar eucaliptos até à beira das estradas. De resto, deixa-se plantar eucaliptos em todo o lado. E, depois, deparamo-nos com frentes de fogo de 50 km, ou mais." "Mas acha que as coisas vão melhorar?" O autarca escolheu os ombros: "Eu acho que sim. Mas, se calhar, ainda vão piorar - antes de começarem a melhorar." Premonitório. Esta conversa foi anterior a 2017. E continua-se a ter de fechar as estradas.