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O rapaz escreveu no livro de física "O Lima destilado a 4 ºC " e desenhou "O Lima a ser parido por uma pipeta". O rapaz não foi um mau rapaz, mas , também, não foi um grande aluno - e, entretanto, tornou-se um grande artista: Amadeo de Souza-Cardoso. A exposição "A Marginália de Amadeo” (curadoria de Samuel Silva) percorre as margens dos livros do artista e revela um talento precoce no desenho, antes de chegar à pintura. Uma exposição, fascinante, para ver no Museu Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante.

O compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos vai estar em destaque na programação da Casa da Música, para 2026. "Porquê Villa-Lobos?", perguntei. O diretor artístico da Casa da Música devolveu-me a pergunta: "E porque não?" E, depois, defendeu que o compositor brasileiro é um dos grandes compositores dos séculos XIX e XX, mas que, infelizmente, ainda não é tão conhecido como devia. Para além da apresentação integral das "Bachianas Brasileiras" (são 9), a programação vai colocar a obra de Villa-Lobos em diálogo com outros compositores como Bach (naturalmente), mas, também, Bartók, Lopes-Graça ou Ginastera - compositores que aprofundaram a relação entre a música erudita e a música popular.
"Conheces a Ornella Vanoni?!”, espantou-se a minha amiga italiana, “Não sabia que ela era conhecida, em Portugal!”. Respondi-lhe que, na minha geração, não era - “Eu é que sou um tipo esquisito”. Nos anos 90, tinha engraçado com um tema novo que me chegara à rádio: chamava-se “Insieme a te”. Percebia-se que a canção era nova, tinha uma produção moderna, mas a cantora tinha um charme que remetia para o passado. Entretanto, encontrei outras canções de Ornella, numas coletâneas de música italiana dos anos 60, que tínhamos lá na rádio. E, a seguir, descobri que já conhecia algumas canções, como “Senza fine” e “L'appuntamento”. Esta última é a adaptação de “Sentado à beira do caminho”, de Roberto Carlos. Finalmente, soube que Ornella gostava tanto de música brasileira, que até gravou um disco inteiro com Vinicius e Toquinho. “Senza Paura” vem desse disco. Nesta apresentação, com Fiorella Mannoia, Ornella ainda estava cheia de vida. Agora, perdeu-a, aos 91 anos.

Foi o encore mais original de sempre. Laurie Anderson entra em palco, para uma citação budista e uma aula de Tai Chi. Lou Reed, lembra Laurie, era um fervoroso praticante daquela arte marcial. De tal forma que, na China, era mais conhecido como praticante de Tai Chi, do que como músico. A plateia sorriu, antes de acompanhar a aula de Tai Chi, de Laurie. Aos 78 anos, a artista realizou movimentos elegantes e precisos, no palco; com o público (atabalhoado) a tentar seguir os movimentos, na plateia - chocando mãos, braços e ombros.
Laurie já tinha evocado Lou, passou por "Big Science" e, até, cantou "Beautiful Red Dress": uma canção tão pop, tão pop, que, na altura, colocou a artista - geralmente acompanhada de etiquetas a dizer "avantgarde", "pós-coiso", e "ciber-cena" - a dançar na MTV. E, agora, a dançar, também, no Rivoli. Não se pense, contudo, que foi uma viagem nostálgica ao passado futurista. Laurie tem um olhar no presente - atento, empático, acutilante. Fala do avó sueco, para abordar o tema dos migrantes e dos refugiados. Fala de Nova Iorque, para dizer que as cidades são um posto avançado no combate ao nacionalismo. Fala de Trump, para falar de Mamdani. Fala do mestre budista, para dizer que é preciso estar atento ao mundo e lutar - com consciência - mas sem entrar em depressão. Isto, numa noite em que depressão Cláudia insistiu em descarregar água sobre os manifestantes. Mas estes seguiram estrada fora, serenos, depois de uma aula de Thai Chi.
Os dois juntos, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=t3SYR-ENPMM