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Tomaste banhinho?

por Miguel Bastos, em 27.11.25

- Ena, tás todo cheirosinho!
- Nota-se, minha linda?
- Nota-se. Tomaste banhinho?
- Sim. Lavei-me por baixo e tudo.
- E consegues, meu gordalhufo?
- Consigo. Tenho os braços compridos.
- Haja alguma coisa comprida, nesse corpinho.
- Do que está à mostra, claro!
- E do que está escondido, aposto!
- Olha-me esta! Tu queres ver...?!
- Não, não quero. Mas obrigada, por teres perguntado.

Ai, estes dois! Um dia destes, casam-se.

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Engravidar

por Miguel Bastos, em 02.10.25

Encontrámos a Maria José num restaurante.



 

- Então, vocês continuam juntos?

- Sim.

- Que parvoíce, claro que estão juntos. Se estão a jantar juntos, é porque continuam juntos.

- Nós sabemos que começa a ser raro.

- E têm filhos?

- Não. (Na altura, não tínhamos).

- Eu também não. Mas estão a pensar ter?

- Sim. Já andamos a falar do assunto.

- Eu também, mas até agora não deu. O problema é que, só agora, é que eu sinto que estou a ter alguma estabilidade, em termos profissionais. Estão a percerber?

- Estamos.

- Primeiro são os estudos, depois o estágio, depois começar a trabalhar. Tive muito tempo fora, mudei de empresa - mais do que uma vez - e de casa e de cidade. E, claro, temos de ter alguém. E, depois, é preciso perceber se ele quer ter filhos, e se nós queremos ter filhos e se queremos ter filhos com aquela pessoa, e se temos condições para ter filhos, não é?

- Sim

- Eu não sei como é que é com vocês, mas eu nunca quis ter só um filho. É que eu sou filha única e sofri imenso por ser filha única, não ter com quem brincar e tal, e depois o meu pai passava muito tempo fora e eu estava sozinha com a a minha mãe, que trabalhava imenso... estão a ver? Portanto eu sempre disse que, se fosse para ter filhos era para ter, pelo menos, uns três. Ou até mais. Dois, parece-me pouco. Um, nem pensar. Para filha única, já basto eu. Eu acho que os meus pais também se arrependeram por ter só um filho, porque agora só falam em netos e "quando é que nos dás netos?" e "de que é que estás à espera?" e tal. A verdade é que, até agora, não deu. Mas, agora, também pode ser tarde de mais. Porque ainda não estou velha, mas também não já não sou nova. Claro que acho que ainda dá para eu ter um filho, mas não sei se dá para ter três ou quatro. O Afonso também gostava de ter muito filhos, mas só nos conhecemos há três anos e, de qualquer maneira, também se nos tivéssemos conhecido mais cedo eu não ia estar disponível para ter filhos, porque a minha vida andava numa roda viva. De maneira que não sei. Eu gostava muito de engravidar, mas não sei ... o que é que vocês acham?

- O que é nós achamos, Maria José?

- Sim.

- Que, se continuares assim, não vais conseguir engravidar.

- Porquê, nota-se que eu estou nervosa?

- Nota-se, nota-se... E assim, nervosa, não vais conseguir engravidar.

- Têm razão. Tenho que relaxar.

- Isso. Ajuda muito. Mas sabes que não é suficiente, não sabes?

- Ai, mas o resto eu tenho feito. E muito! Eu estou uma louca na cama!

- E uma lady na mesa?

- Ah! Ah! Bem, vou deixar-vos jantar. Foi muito bom ver-vos.

- Igualmente. Bom jantar. E relaxa!

- Isso é que é mais difícil. Mas vou tentar.

 



Já vos disse que gostamos muito da Maria José? É uma pena ser tão nervosinha.

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Troglodita

por Miguel Bastos, em 24.09.25

Ontem, ouvi o discurso do presidente da República, na Assembleia Geral da ONU. Começou em inglês, introduziu o português, derivou para o francês, aflorou o espanhol, regressou ao inglês. O presidente a falar de paz e cooperação e, eu, a pensar no Jorge e no Manel. Os dois foram colegas de liceu e continuam amigos. Bom aluno, o Jorge gostava de línguas estrangeiras, foi para a universidade estudar línguas modernas, tornou-se professor. O Manel saiu cedo da escola, para ajudar o pai nas canalizações. Permanecem inseparáveis. Pensei neles, enquanto ouvia o presidente a alternar o discurso, de uma língua para a outra. Disse, um dia, o Manel - à espera da noite, numa tarde de copos

- Eh, Jorge, tu és um gajo "muita" troglodita, não és?

- Sou um gajo o quê?

- Troglodita.

- Porque é que dizes isso?

- Então, falas muitas línguas!

- Poliglota, queres tu dizer!

- Ou isso. É a "mema" m**da! É a "mema" m**da!

 

Volto a pensar na ONU. Se estiver atenta, a organização ainda vai adicionar estes dois à lista do património da UNESCO.

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Primo Basílio

por Miguel Bastos, em 18.02.25

primo.jpg 

Presidenciais de 91. Depois de ter vencido Freitas do Amaral, Mário Soares voltava a enfrentar um nome histórico do CDS. Nessa noite, Basílio Horta iria fazer um comício na minha terra. Eu e o Carlos passámos pela casa do Afonso. "O Afonso não está", diz-nos o irmão, a sorrir, "foi ver o primo Basílio". Os dois irmãos eram muito diferentes. O Renato vivia com o pai e era todo "Soares é fixe!". O Afonso vivia com a mãe e tinha sido todo "Prá frente, Portugal!". Já o Carlos, ao meu lado, era todo "Quero lá saber!". Disse o Carlos: "É um tipo fixe, o Renato. Só não percebi a do primo Basílio". Tentei explicar-lhe que Basílio era o candidato às eleições presidenciais, mas ele interrompeu logo: "Ah, então é isso. Eu não tenho pachorra nenhuma para política". "Nota-se", respondi. "Mas porque é que ele disse 'primo'? Eles são primos?". "Por causa do livro do Eça de Queiroz", respondo. "Ah, não tenho pachorra para ler". "Também se nota", respondo. "Ai sim?" (de repente, o Carlos mostrou-se zangado) "Por acaso está escrito na minha cara?!". "Não. Mas, se estivesse, também não ias ler, pois não"?

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SUVir na vida

por Miguel Bastos, em 09.04.24

O que é que aconteceu ao carro do Fernando? Um SUV: todo inchado, todo jeitoso. O Fernando também andava todo inchado, com o SUV. Bem bonito, por sinal. A arrancar dores, aos cotovelos, e espanto, às sobrancelhas. O SUV era o corolário de uma vida de trabalho e de empenho. Brinquei com ele: "Estás a SUVir na vida!" Sorriu, orgulhoso. Conheci o Fernando, andava, ele, num carrito italiano amachucado, que herdara do pai. Mais tarde, o Fernando conseguiu comprar uma carrinha, com espaço para albergar as três crianças que, entretanto, lhe foram florescendo. O Fernando deve ter tido mais carros, mas estive vários anos sem o ver e, quando o reencontrei, tinha acabado de comprar o SUV.

Pergunto ao Fernando, que passa, notícias do SUV. O Fernando, do SUV, teve um AVC. A sigla é menos jeitosa, é certo. Mas ele, aparentemente, está mais jeitoso. Dizem-lhe que está mais novo, que está mais leve, desde que deixou o SUV, pesadão, na garagem. Vejo, agora, o Fernando, a seguir caminho, rua abaixo, de mochila às costas. Também acho que nunca o tinha visto tão novo, nem tão inchado.

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Prova de esforço

por Miguel Bastos, em 06.02.24

- Fui ao médico e ele assustou-me.
- Então porquê?
- Tenho as análises todas avariadas. O médico não gostou do eletrocardiograma, nem do raio x, nem do raio que o parta.
- Mas o que é que diziam os exames?
- Colesterol, ácido úrico, diabetes, tensão alta, arritmia...
- Bem, não te falta nada!
- Foi o que o médico me disse.
- E o que é que ele te receitou.
- Uma data de medicamentos, exames e mais exames, e uma dieta rigorosa.
- Pois...
- Nada de fritos, nada de assados, nada de cerveja, nada de digestivos. Só me deixa beber um copo de vinho e fumar dois cigarros por dia.
- Quando é que voltas ao médico?
- Daqui a duas semanas. O médico era para me fazer uma prova de esforço...
- E não fez?
- Não e não me queria dizer porquê.
- Como assim?
- "Ah, deixe lá isso" e tal. E eu "Então, doutor, não vou fazer a prova de esforço". E o tipo "Ah, temos tempo".
- Se calhar, quer ver o resultado dos outros exames e da dieta.
- Foi o que ele me disse, mas eu voltei a insistir.
- E ele?
- Ele, depois de lhe ter perguntado mais duas ou três vezes "porquê", vira-se para mim e disse: "Ó, homem, se você faz uma prova de esforço, agora, fica-me estendido no chão, com um ataque cardíaco". Estás a ver o sacana?!
- Então, tu perguntaste, ele respondeu!
- Eh, pá, mas não precisava de dizer daquela maneira! "Fica-me estendido"?! Sacana do gajo, pá!

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Puro e duro

por Miguel Bastos, em 30.01.24
- Sabes o é que devíamos fazer?
- Não.
- Sexo.
- Eu sabia que vinha aí badalhoquice...
- Badalhoquice, não. Estou a falar de coisas puras. Sexo: puro e duro.
- Não, obrigado. Nunca faria sexo contigo.
Não, porquê? Tu és divorciada, eu também. Somos jovens, cheios de vida...
- Porque eu só faço sexo, quando há amor. Percebes?
- Percebo, querida. No fundo, estás com medo é do amor. Sabes que, se fizeres sexo comigo, vai haver amor. 
- Bem, tu, para além de atrevido, tens cá um ego!
- Tenho, tenho. E, então, posso-te levar para a cama?
- Não.
- E desafiar-te para um pequeno-almoço?
- Torradas com muita manteiga e café duplo?
- Sim. Vamos lá? Estás a ver como nos entendemos bem?
- Só ao pequeno-almoço!
- Já é um começo! Agora imagina, nós, a tomarmos um pequeno-almoço, depois de...
- Ai, pá, não sei como é que eu te aturo!

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Mai frei

por Miguel Bastos, em 12.12.23
- E como é que se diz "meu amigo", em inglês?

- My friend.

- Mai frei?

- Não, avô, "my friend".

- Foi o que eu disse: "mai frei".

Sai de cena e regressa, de óculos escuros e com uma boina escocesa, que lhe trouxemos, enterrada na cabeça.

- Ei, "mai frei", acabo de chegar de Inglaterra...

- Da Escócia, avô.

- Ou isso. E estou com uma sede... ah, já não me lembro!

- De quê?

- Como é que se diz "filho da puxa", em inglês, mas bem explicado?

- Son of a b...

- Isso. E estou com uma sede "sana biche".

Rimo-nos todos, durante vários anos. "Mai frei" e "sana biche" entraram para o léxico da vida familiar. Uma vida boa, "mai frei". Já a morte (convenhamos) é um bocado "sana biche".

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No cemitério

por Miguel Bastos, em 13.04.23

 

- Já não vinha a este cemitério, há imensos anos.
- Isso é bom sinal.
- Porquê?
- Então, é sinal que não te têm morrido pessoas próximas.
- Mas eu não vinha para funerais.
- Ai não?
- Não, vinha fazer introspeção, pensar nos males do mundo e mais não sei o quê.
- Ahhh.
- Foi a minha fase gótica, estás a ver?
- Compreendo.
- A sério? Eu não.
- Não?
- Se eu,agora,visse esse adolescente, deitado num banco de pedra, armado em existencialista da treta, acho que lhe dava um par de estalos.
- Não acredito.
- Dava, dava. Romantizar o sofrimento... que estupidez! Ele vem de qualquer forma, não é preciso procurá-lo.
- Estás a falar do teu pai?
- Estou. Era um tipo cheio de vida e eu, no cemitério, a ouvir música.
- The Cure e essas coisas?
- Sim, ainda me custa ouvi-los.

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Antena 2

por Miguel Bastos, em 13.12.22

antena2.jpg

A Antena 2 é uma velha amiga. Não nos vemos muitas vezes. Mas, sempre que nos reencontramos, é como se nos tivéssemos visto no dia anterior. As saudades matam-se depressa e a conversa sai-nos com facilidade. E, depois, a Antena 2 é generosa. Prepara-me uma sandes, serve-me um chá, conta-me novidades. Obrigado, querida Antena. É sempre bom voltar a ver-te, voltar a ter-te. Esta semana, posso ficar no sofá da sala?

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