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Botar sotaque

por Miguel Bastos, em 08.02.22

"Eu vou botar um pouquinho de sotaque, um pouquinho só", disse Vinicius de Moraes, antes de oferecer, a Amália, o fado "Saudade do Brasil em Portugal". Foi registado, em 1970, num disco conjunto. Passaram mais de 50 anos, e Caetano (um eterno apaixonado por Amália e pelo fado) repete a gracinha. Bota um sotaque para cantar "Você-Você", com a maravilhosa Carminho - que já cantou o tema de Vinicius e está habituada a cantar com os deuses. A canção está aqui, com um vídeo a registar o momento, mas o disco "Meu coco" merece ser ouvido, de fio a pavio. Começa por nos cantar que "O português é um negro dentre as eurolínguas", para (espero não estar a dar com a língua nos dentes) nos levar aos mais variados "brasis", até desembarcar em "Você-você". Não é, no entanto, o fim da viagem. Depois de um "quase fado", com o bandolim a fazer de guitarra portuguesa, chega a certeza de que "Sem samba não dá". A chegar aos 80 anos, o mais jovem de todos nós, dá-nos um "best off" de inéditos: intemporal e contemporâneo, ousado e familiar. Caetano dá-nos uma obra prima. A obra prima do mano. O mano Caetano.

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Amália extraterrestre

por Miguel Bastos, em 26.01.22

Há cerca de 5 anos, a fadista Gisela João gravou uma canção maravilhosa chamada "O Sr. Extraterrestre". Chamaram-me a atenção para o vídeo, que vi na companhia dos meus filhos. A pequenada adorou. Eu também. Depois, reparei num comentário, no Youtube: "A Amália deve estar às voltas no túmulo". E seguiam-se muitos comentários de apoio ao comentário "Credo", "Horrível", "Isto não é fado, nem é nada", "Tudo isto é triste, nada disto é fado". Não, não é fado. Não, não é triste. E Amália não anda às voltas no túmulo, porque a própria gravou a canção, do genial Carlos Paião. E, se Gisela João recorreu à instrumentação tradicional de fado, Amália não evita bateria, baixo, guitarra elétrica, teclados e efeitos especiais/espaciais. O disco, em si, também é de outro mundo: por fora uma capa em banda desenhada, por dentro um vinil colorido amarelo. Um OVNI, portanto. Amália apresentou a canção, no "Passeio dos Alegre" do Júlio Isidro, enquanto estendia a roupa e cantava "Tenho esta roupa a secar e ainda se vai sujar / Se essa coisa aí ficar a deitar fumo pra fora". Mas, apesar do receio inicial, acaba por simpatizar com o dito senhor, ao ponto de se preocupar: "E vista também aquela camisinha de flanela / Pra quando abrir a janela não se constipar com a aragem". E, como boa portuguesa, "Eu dei-lhe um copo de vinho e lá foi no seu caminho / Que era um pouco em zigue-zague".

Amália gravou o "O Sr. Extraterrestre" há 40 anos. Esta tarde, depois das 4, na Antena 1, Nuno Galopim vai juntar uma série de amigos à volta de Amália, à volta da rádio. Sem voltas no túmulo.

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Amália desaparecida

por Miguel Bastos, em 26.05.21

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Com o alívio das restrições da pandemia, o jornalista Miguel Carvalho regressou à estrada, para apresentar o livro "Amália - Ditadura e Revolução". Escreve o autor, nas redes sociais: "a minha Amália vai estar aqui", "a minha Amália vai estar ali". Pois bem, senhor Miguel Carvalho, deixe-me falar-lhe da minha experiência: a minha Amélia saiu da minha casa, com a sua Amália. Desapareceram, as duas, de braço dado. Estive mais de 15 dias sem as ver. Quando, finalmente, as reencontrei, a minha Amélia entregou-me o seu livro. "Já li", disse ela toda satisfeita, "o livro é muito bom". Isto poder-lhe-á agradar, sr. Miguel. A mim é que não. Anda, para aqui, um tipo consumido...

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Fim do Mundo

por Miguel Bastos, em 18.05.21

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Estava eu a ouvir uma sinfonia de Dvořák, muito jeitosa, na minha telefonia (desculpem o termo, sou antigo) online (a fugir para o moderno), quando vejo as horas e ligo o transístor, noutro posto emissor, para ouvir o noticiário. Depois do noticiário, deixo ficar o transístor ligado mais uns minutos porque, entretanto, o Camané começou a cantar uma modinha dos Xutos e Pontapés muito agradável. Entretanto, o meu computador foi invadido por um "live" no Facebook, de uma senhora pianista que tocava uma variação com temas dos Beatles, que, não sei porquê, me lembrou Keith Jarrett. Enfim, uma mixórdia: tudo a tocar ao mesmo tempo. Não me sentia tão confuso desde o Jackpot 79. Nesse disco, o jovem Marco Paulo cantava a "Mulher sentimental", que eu desconfiava que era a Suzi Quatro - que entrava, logo a seguir. Mais à frente, a Lara Li dizia-se pronta para dançar o fandango, mas, na realidade, a cançoneta tinha um ritmo "disco sound". No fundo, um prelúdio, no mesmo ritmo, para uma rapsódia de canções de Amália no disco 2 do Jackpot. A sinfonia de Dvořák é conhecida como a "Sinfonia do Novo Mundo". À cacofonia, cá de casa, poderemos chamar "Fim do Mundo".

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Decorar livros

por Miguel Bastos, em 18.12.20

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Sou um leitor com alma de decorador. Esta manhã, por exemplo, não me consegui decidir. Onde arrumar "Amália - Ditadura e Revolução", de Miguel Carvalho? Ao lado das biografias políticas de Mário Soares, Otelo Saraiva de Carvalho e Humberto Delgado? Ou junto às biografias artísticas de António Variações, Sérgio Godinho e Caetano Veloso? Podem enviar as vossas sugestões. Mas (lá está, o meu lado de decorador) também podem enviar clássicos de mobiliário de design do século XX. E é isto. Obrigado.

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A sagração de Amália

por Miguel Bastos, em 14.09.20

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Vinha a sorrir, a caminho de casa. Degustava, mentalmente, a promoção "leve 3, pague dois" quando me apercebi que já tinha 1 dos 3 discos acabados de comprar. Voltei para trás, para devolver a gravação da "Sagração da Primavera", de Stravinski, dirigida por Leonard Bernstein para a Deutsche Grammophon. Tinha pouco mais de meia hora para escolher outro disco. Faço uma selecção de 5/6 discos até chegar à final, com duas hipóteses. O meu coração balançou entre um disco de Amália e outro de Madonna. Ganhou Amália, já em tempo de compensação. Voltei para casa a sorrir, desta vez do meu ecletismo.

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Reconhecer Amália

por Miguel Bastos, em 11.08.20

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“E Ceausescu pede Amália”, escreve Miguel Carvalho em “Amália - Ditadura e Revolução”. Em 1975, o presidente da Roménia comunista estava de visita ao Portugal do PREC e pediu para ouvir a cantora que, por essa altura, em Portugal, era chamada de “fascista” ou “princesa da PIDE”. Antes de ser adoptada pelo Estado Novo como produto de exportação, Amália (como o fado, em geral) tinha sido alvo da sobranceria dos intelectuais do salazarismo. Com o 25 de Abril, voltou a sofrer do mesmo tipo de discriminação. Agora da bancada contrária.

Amália não precisou do 25 de Abril para atravessar a cortina de ferro. Em 1969, esteve, inclusivamente, na capital do império vermelho. Também não precisou do 25 de Abril para cantar as melodias de Alain Oulman, e a poesia de Ary dos Santos, David Mourão-Ferreira ou Manuel Alegre. Fê-lo sem olhar às convicções políticas de quem a rodeava, e isso nem sempre lhe foi reconhecido.

A perseguição política que lhe fizeram, depois do 25 de Abril, foi tão absurda como a apropriação que lhe tentaram fazer, durante o Estado Novo e, mais tarde, durante a consolidação da democracia. Amália nem sempre terá sido hábil na gestão do seu relacionamento com os poderes políticos, mas foi sempre muito hábil na gestão da sua carreira artística. E foi pelo meio artístico que foi sendo resgatada. Não pelos artistas de antigamente, mas pelos novos artistas emergentes de então: António Variações ou Carlos Paião, primeiro; Madredeus ou Dulce Pontes, mais tarde.

“Amália - Ditadura e Revolução” é um contributo rigoroso para conhecermos Amália, no contexto social e político em que a sua carreira se desenvolveu. Mas é, também, um contributo extraordinário para nos reconhecermos a nós próprios: enquanto indivíduos e enquanto portugueses.

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Amália

por Miguel Bastos, em 23.07.20

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Já 100 anos e ainda tanto por descobrir.

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Carlos Paião

por Miguel Bastos, em 27.08.18
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Para que não restem dúvidas, acho que Carlos Paião era um génio. Muitos concordarão, muitos não. O próprio, creio eu, teria muita dificuldade em aceitar esta classificação. Paião não se levava muito a sério. E, talvez por isso, nunca tenha editado um disco à altura do seu talento, como referiu David Ferreira no texto que acompanha a compliação "Letra e Música - 25 Anos Depois". Amália foi a primeira a perceber o potencial de Paião e gravou o "Senhor extraterrestre", que Gisela João voltou, agora, a cantar.

 
Carlos Paião escreveu para várias pessoas. Ele escrevia muito e bem: letra e música. Era um jovem atento, com um olho clínico para os costumes nacionais e os temas da atualidade. Era irreverente, mas bem comportado. Escrevia de repente e por encomenda. Teve sucessos que permanecem na memória colectiva. Mas também canções menos conhecidas, que merecem ser redescobertas. Carminho recuperou, recentemente, "História linda". Nela, o jovem Carlos conta a história de amor dos pais. Fala da mãe, sempre aflita, porque o marido "tinha um emprego nas ondas do mar". Ironia do destino, o filho morreu pouco tempo depois. Em terra. Fez ontem 30 anos.
 
Não creio, no entanto, que Carlos Paião quisesse ser lembrado por coisas tristes. Ele tinha imensa graça. E, por isso mesmo, acho devia ser levado mais a sério.

 

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Vácuo Pulido Valente

por Miguel Bastos, em 22.12.16

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 "Para o alemão ou o inglês medianamente educado", diz Vasco Pulido Valente, no Observador, "Portugal (fora Ronaldo e o turismo) é um vácuo". Ora, eu como não sou inglês, nem alemão, nem (sequer) medianamente educado (ao contrário de Vasco) gosto de encontrar coisas portuguesas, no meio do vácuo. Por exemplo: há uns tempos, encontrei um teatro em França de que gostei muito. Fazia-me lembrar arquitetura portuguesa. E era: o Théâtre Auditorium de Poitiers (que, curiosamente, é conhecido pela sigla "TAP") é uma obra de Carrilho da Graça.

 

Sim, temos arquitetura de nível mundial. Mas os franceses, (lá está!) não são "alemães ou o ingleses medianamente educados". E temos dois Pritzker, conhecidos como o Nobel de Arquitetura, mas o prémio é americano. E, também, temos prémios Nobel, propriamente ditos, mas são suecos. Uma amiga minha chama-se Amália, mas é romena. E a Carminho foi convidada para cantar Jobim, que é brasileiro.

 

No meio disto tudo, o reconhecimento (inglês) de Paula Rêgo, só pode ter sido engano. E o reconhecimento (alemão) de Siza, também. Ou, então, o "alemão ou o inglês medianamente educado" não querem é saber de Vácuo. Fazem bem.

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