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Auf wiedersehen

por Miguel Bastos, em 23.09.21

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Angela Merkel, símbolo da austeridade económica e financeira da União Europeia, está de saída.
Angela Merkel, símbolo do acolhimento aos refugiados contra a hesitação da União Europeia, também.
Ambas (apetece escrever "ambas as duas") vão abandonar a vida política.
Durante os seus mandatos, muitos analistas lamentaram a ausência dos grandes líderes europeus. Demoraram a perceber que, se calhar, tinham uma: ali, mesmo, debaixo do nariz.
 
[Foto: AFP]

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Desafinação

por Miguel Bastos, em 20.05.21

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Em 1999, um professor palestiniano e um maestro israelita fundaram uma orquestra, com músicos árabes e judeus, de Israel e da Palestina, e de vários países do médio-oriente. Edward W. Said e Daniel Barenboim queriam chamar a atenção para o conflito israelo-palestiniano e a Orquestra West-Eastern Divan tornou-se um exemplo de que é possível trabalhar, em harmonia, com pessoas de diferentes religiões, etnias e nacionalidades.
 
O esforço de ambos tem sido compensado com salas cheias e prémios, em todo o mundo. Mas, também houve dissabores: particularmente, em Israel. Em 2001, Barenboim foi criticado por interpretar Wagner (compositor conotado com o antissemitismo), com uma orquestra alemã, em Jerusalém. Dois anos depois, Said morreu. E, no ano seguinte, vários políticos israelitas manifestaram desagrado com o discurso do maestro, quando recebeu um importante prémio, na área da música. Barenboim questionou a violação dos direitos fundamentais dos palestinianos, por parte de Israel, e afirmou que não percebia como é que o povo judeu - alvo de tantas discriminações, perseguições, deportações e mortes - podia ficar indiferente ao sofrimento dos palestinianos.
 
Descendente de judeus russos, Daniel Barenboim nasceu na Argentina e mudou-se para Israel, aos 10 anos. Aos 15 anos, obteve passaporte israelita. Há 15, obteve passaporte palestiniano. Na altura, considerou que um judeu com passaporte palestiniano funcionava como metáfora da solução "dois estados independentes", a única forma de alcançar a paz na região. Mas, a esperança de Barenboim parece ter terminado. O maestro não toca em Israel, há mais de 10 anos. Pior, afirma que não o voltará a fazer. O ouvido de Barenboim não aguentou tanta desafinação.
[Foto: Mohammed Salem / Reuters]

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Rigor alemão

por Miguel Bastos, em 31.03.21

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O governo alemão suspendeu a vacina da AstraZeneca, a menores de 60 anos. Já o tinha feito, a maiores de 65 anos. A próxima decisão poderá permitir a vacina, aos protestantes do norte; ao mesmo tempo que irá desaconselhar a vacina, aos católicos do sul. Ou, então, chega-se à conclusão de que não existem contraindicações - exceto quando administrada às quartas-feiras, da parte da tarde; e aos sábados, da parte da manhã. Lembram-se do rigor alemão? Parece que foi, novamente, abalado. Talvez seja outro efeito secundário da vacina.

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Comprar livros

por Miguel Bastos, em 11.02.21

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Leio esta manhã: "Marcelo Rebelo de Sousa abre a porta à venda de livros". Pelo que percebi, as pessoas não andam a ler, porque a venda de livros tem estado limitada. A partir de hoje, as pessoas vão desligar as novelas e os futebóis, para se dedicarem (finalmente) àquilo que mais gostam: velejar na epopeia grega, desbravar o existencialismo francês, mergulhar no romantismo alemão. Cuidado Cristina, não abordes a lírica camoniana, no programa da manhã, e vais ver as audiências a cair a pique! Ou é isto, ou não estou a ver bem o problema. Excesso de Camões.

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Grande Grande É a Viagem

por Miguel Bastos, em 07.05.20

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Sirvo-me do nome de um disco de Fausto, para falar dos Kraftwerk. São territórios diferentes, mas, em ambos os casos, a ideia de viajem serviu de motor à criação musical. Os Kraftwerk abordaram as viagem de automóvel pelas autoestradas alemãs, em “Autobahn”; as viagens de comboio pela Europa, em Trans-Europe Express; as viagens de bicicleta, em “Tour de France”. Mas a carreira dos Kraftwerk é, toda ela, uma enorme viagem: das aventuras experimentais de Ralf Hütter e Florian Schneider, à consolidação dos Kraftwerk, como quarteto pop. De Radioactivity (1975) até Electric Café (1986), o quarteto transportou a música electrónica do experimentalismo erudito, para a arena pop. E isto, com temáticas pouco habituais na pop-rock - como ciência e a tecnologia - e recusando todos os clichés do género. Os Kraftwerk nunca exibiram ganga, nem cabelo comprido, nem miúdas giras.

Comecei este texto a falar de Fausto que, aparentemente, está nos antípodas musicais dos Kraftwerk. Bem, os Beach Boys também. E, no entanto, terão sido uma das principais influências do grupo alemão, que considerava que eles tinham criado a banda sonora perfeita da Califórnia, dos anos 60. Os Kraftwerk queriam fazer algo parecido, aplicado ao contexto industrial alemão. E fizeram-no. Talvez sem saberem que estavam, já, a criar uma banda sonora para o mundo inteiro. E a criar um mundo novo, como os descobridores cantados por Fausto. Florian Schneider morreu, tinha 73 anos. Fim de viagem.

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Peter Handke

por Miguel Bastos, em 10.10.19

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"Ai Miguel, você é tão deprimente!", dizia-me a Maria João. Eu, apenas, pedira à minha explicadora de alemão algumas referências culturais germânicas. A Maria João já tinha encolhido os ombros ao Wim Wenders e torcido o nariz ao Mahler. À pergunta "E o Peter Handke?" veio a resposta "Ai Miguel, você é tão deprimente!", seguido do conselho "Porque é que não lê antes os americanos?". Tenho tentado, Maria João. Mas, já agora, era só para lhe dizer que o Peter Handke ganhou o Prémio Nobel: da Depressão, ou lá o que é.

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Viver sem aprender

por Miguel Bastos, em 10.05.19

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Umas das coisas que sempre me impressionou nos filmes da Segunda Guerra Mundial é a forma como as pessoas continuam a viver: afogadas nas pequenas coisas do quotidiano, indiferentes ao nazismo - mesmo quando ele já se materializa em guerra. Até que, de repente ficam sem trabalho, sem casa, sem direitos, sem filhos, sem pais, sem vida. É sempre inquietante para nós, que já sabemos o fim da história, assistirmos ao comportamento daquela gente. No caso de Else - mulher, alemã, judia, casada com um cristão da alta burguesia - nada conseguia abalar a sua vida burguesa, boémia e frívola: com direito a festas, vestidos, espectáculos e amantes. Mesmo quando teve que abandonar a Alemanha e instalar-se na Bulgária, continuou a ter uma vida irreal: vivia numa casa com empregada, passava férias na praia. Até que o cerco apertou e ela foi perdendo tudo: uma coisa de cada vez.

 

O livro “Tu não és como as outras mães”, de Angelika Schrobsdorff, fala desta mulher (Else, a mãe da autora) que, apesar de ter abandonado a fé judaica, será sempre considerada uma judia e sofrer, na pele, as consequências da sua condição. Mas, o que achei mais chocante é que o livro não acaba com o fim da Segunda Guerra Mundial, com o habitual direito à vitória da justiça, à catarse, à felicidade. E, ao estender-se no pós-guerra, assistimos, através dos olhos de Else - mulher profundamente transformada pela guerra - à repetição dos mesmos comportamentos, da mesquinhez, dos vícios que existiam antes da guerra. Como se os seres humanos (todos nós) fossemos incapazes de aprender a viver, apenas para sobreviver.

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Em alemão

por Miguel Bastos, em 08.11.18

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Ler nunca fez mal a ninguém... Verstehen sie?

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Dentro e fora

por Miguel Bastos, em 27.03.18

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Em Portugal, dizemos que são escapadinhas. O slogan é “vá para fora, cá dentro”.

Em Espanha, as escapadinhas têm outro slogan: “vá para dentro, lá fora”.

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No estrangeiro

por Miguel Bastos, em 08.01.18

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O estrangeiro, dizia alguém, é o país onde todos gostariam de viver. "No estrangeiro", dizem uns, "paga-se menos impostos". Talvez, se esse país for os Estados Unidos. "No estrangeiro", dizem outros, "temos melhores hospitais". Talvez, na Suécia. "No estrangeiro", acrescentam outros ainda, "as mães podem ficar com as crianças, em casa, até aos três anos". É verdade, na Alemanha. É verdade, e pode ser bom. Para quem gosta. A ex-ministra Constança Urbano de Sousa, descobriu, por experiência própria, que na Alemanha não havia creches. E não gostou. Está na entrevista da Notícias Magazine, deste fim de semana.

 

Na Alemanha (esse país estrangeiro e avançado!), a maioria das mulheres casadas deixa de trabalhar quando engravida. Como em Portugal, nos anos 40. O reverso de estar em casa com filhos, nos primeiros 3 anos, é não ter creches, nem carreira profissional. Nos Estados Unidos, os impostos são baixos, mas a qualidade da saúde pública também. E se a Suécia tem saúde, na hora de pagar impostos os suecos têm todas as razões para ficarem doentes.

 

Essa é a vantagem do estrangeiro. Podemos escolher o estrangeiro que quisermos, de acordo com as conveniências de cada momento. Só há um problema: o estrangeiro não existe. Mas, é melhor.

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