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Viva a República!

por Miguel Bastos, em 05.10.20

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Acho a designação "Implantação da República" interessante. Porquê "implantação", se foi uma revolução, como a de Abril? Mas, depois, penso nos vários significados da palavra. Na arquitetura, por exemplo, "implantar" refere-se ao espaço onde vai nascer um edifício. Na agricultura, ao ato de criar raízes. E, assim sendo, implantação faz sentido. Plantaram-se umas coisas na I República, com os seus 45 governos; e na II, com o seu governo de 48 anos; mas só houve frutos em 1974, com uma nova revolução: republicana, mas, sobretudo, democrática. Viva a República!

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Benfica

por Miguel Bastos, em 17.09.20

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Luís Filipe Vieira está preocupado: com o sistema de justiça; com o funcionamento dos media; com a opinião pública; com a qualidade da democracia; com o emergência do populismo e da demagogia; com os princípios do Estado de Direito; com as conquistas de Abril. Luís Filipe Vieira é candidato à presidência. Do Benfica.

[Foto: Rodrigo Antunes - Lusa]

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Reconhecer Amália

por Miguel Bastos, em 11.08.20

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“E Ceausescu pede Amália”, escreve Miguel Carvalho em “Amália - Ditadura e Revolução”. Em 1975, o presidente da Roménia comunista estava de visita ao Portugal do PREC e pediu para ouvir a cantora que, por essa altura, em Portugal, era chamada de “fascista” ou “princesa da PIDE”. Antes de ser adoptada pelo Estado Novo como produto de exportação, Amália (como o fado, em geral) tinha sido alvo da sobranceria dos intelectuais do salazarismo. Com o 25 de Abril, voltou a sofrer do mesmo tipo de discriminação. Agora da bancada contrária.

Amália não precisou do 25 de Abril para atravessar a cortina de ferro. Em 1969, esteve, inclusivamente, na capital do império vermelho. Também não precisou do 25 de Abril para cantar as melodias de Alain Oulman, e a poesia de Ary dos Santos, David Mourão-Ferreira ou Manuel Alegre. Fê-lo sem olhar às convicções políticas de quem a rodeava, e isso nem sempre lhe foi reconhecido.

A perseguição política que lhe fizeram, depois do 25 de Abril, foi tão absurda como a apropriação que lhe tentaram fazer, durante o Estado Novo e, mais tarde, durante a consolidação da democracia. Amália nem sempre terá sido hábil na gestão do seu relacionamento com os poderes políticos, mas foi sempre muito hábil na gestão da sua carreira artística. E foi pelo meio artístico que foi sendo resgatada. Não pelos artistas de antigamente, mas pelos novos artistas emergentes de então: António Variações ou Carlos Paião, primeiro; Madredeus ou Dulce Pontes, mais tarde.

“Amália - Ditadura e Revolução” é um contributo rigoroso para conhecermos Amália, no contexto social e político em que a sua carreira se desenvolveu. Mas é, também, um contributo extraordinário para nos reconhecermos a nós próprios: enquanto indivíduos e enquanto portugueses.

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Das Caldas

por Miguel Bastos, em 16.03.18

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16 de março de 1974. Foi uma tentativa de acabar com a ditadura. Mas, quando penso no Levantamento das Caldas, dá-me sempre vontade de rir. Não é pela questão política. É porque penso noutras coisas. Deve ser da louça. Ou, então, da minha imaturidade.   

 

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Corta Rentes

por Miguel Bastos, em 26.05.16

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Gosto de livros avassaladores. Daqueles que geram leituras compulsivas. “Portugal, a Flor e a Foice” é um desses livros. Na ressaca do 25 de Abril (e a talhe de foice) Rentes de Carvalho faz uma radiografia de Portugal e dos Portugueses. E corta rente nas história e nos mitos que nos têm vendido, ao longo dos séculos. Só no primeiro capítulo (pouco mais de 20 páginas), Rentes corta Portugal, de alto a baixo. Aqui vai…

 

D. Afonso Henriques era ambiciosos e falso; D. Pedro, um sádico; Vasco da Gama um saqueador, D. Manuel, um novo rico, assassino de judeus; D. Sebastião, um fanfarrão; D. João IV, um fracote. E se os reis não foram coisa, a República não trouxe melhorias. Os primeiro homens da República eram ineptos. Já Salazar, consegue impor a sua vontade. Aos que o apoiam, deixa roubar. Aos que discordam, manda matar. Tudo, com a benção da igreja.

 

O povo também não sai bem na fotografia. Acolhe Filipe de Espanha, com a mesma alegria que irá acolher a ditadura de Salazar. Esbanja o ouro do Brasil, como ,mais tarde, irá esbanjar o volfrâmio. Louva Salazar; tolera Salazar; finge que combate Salazar. Parte, aos milhões, deixando o país vazio.

 

O mais surpreendente é que o texto foi escrito em 1975. Numa altura em Portugal ainda irradiava amanhãs que cantam. Há uma coisa em que os portugueses são bons. No pessimismo.

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O Presidente feliz

por Miguel Bastos, em 02.05.16

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Passo Coelho disse o óbvio: Marcelo é um presidente feliz. “Pois sou” responde Marcelo, em Itália, antes de regressar a Portugal, para embarcar rumo a Moçambique. Já tínhamos reparado. Marcelo fez uma campanha onde se via que estava feliz. Depois “irradiou felicidade” na tomada de posse; no Concelho de Estado; na ida a Bruxelas; no 25 de Abril. Marcelo está feliz porque está onde sempre quis estar.

 

Na (excelente) biografia de Marcelo, o jornalista Vítor Matos descreve a forma como a família, os amigos, ele próprio, viam o futuro de Marcelo. Ele chegaria a Presidente do Conselho, como Salazar, mas (sobretudo) como Marcelo Caetano. Marcelo Nuno (era assim que Caetano o tratava) não herdou apenas o nome do líder político, que governou Portugal até ao 25 de Abril. Herdou (e cultivou) o gosto pela academia, pelos livros, pela política, pela comunicação.

 

O livro de Matos começa com as lágrimas do amigo Eduardo Barroso ao ouvir a demissão de Marcelo da presidência do PSD e termina com a actividade de Marcelo, republicano, a dirigir uma fundação monárquica. Ao longo do livro, o autor explora as inúmeras contradições e mudanças de rumo de Marcelo. Mas há uma constante: ele sempre quis estar há frente do país. Que é onde ele está agora. Feliz.

 

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Otelo, pá

por Miguel Bastos, em 22.06.15

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No meio de um ambiente cinzento, havia o tio Jorge. Otelo e a irmã gostavam de imitar o tio. Chamavam-lhe a brincadeira dos “pás”. “Eh pá, vamos comprar cigarros”, dizia um. “Eh pá, vamos ao café”, dizia outro. Quando li isto, na biografia de Otelo Saraiva de Carvalho, de Paulo Moura, sorri.

 

Eu também brinquei aos “pás”, com os meus irmãos. Nós dizíamos “brincar aos jovens”. Falávamos ao telefone, íamos à praia, passeávamos de carro, bebíamos “cocktails”, íamos ao cinema e à discoteca. Os exemplos, vinham das novelas. Nós não tínhamos um tio Jorge, cosmopolita e “bon vivant”, que trabalhava numa companhia aérea. Mas dizíamos “pá”.

 

Em 1974, Otelo brincou, de novo, “aos pás”. Foi no 25 de Abril. O estilo manteve-se: “Mónaco e México já caíram nas nossas mãos.”; “Eh pá, palavra de honra? Isso é porreiro, pá”; “Desculpe, lá, qual é o seu nome?”; “Otelo Saraiva de Carvalho”; “Eh, pá!”.

 

Francisco Buarque de Holanda imortalizou a brincadeira numa canção: “Sei que está em festa, pá”; “Eu queria estar na festa, pá”; “Lá faz primavera, pá”. O Chico pá, a falar como o Otelo!

 

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