por Miguel Bastos, em 21.11.25
Já ia na página 100, quando, finalmente, cheguei a "Space Oddity". “Restam”, pensei, “300 páginas, para os restantes 30 discos”. Pareceu-me pouco, muito pouco. Mas, ao mesmo tempo, senti que estas páginas foram necessárias para perceber como é que David se tornou Bowie. Ao contrário de outros artistas que, talvez, tenham nascido com uma queda mais natural para a música, David Bowie teve que procurar muito, observar muito, copiar muito, tentar muito, experimentar muito, falhar muito - até encontrar o seu caminho. E se, a seguir, esse caminho não foi linear, já foi por decisão própria: por razões estéticas, artísticas, pessoais. Por vezes, alguns dos caminhos escolhidos levaram-no a becos que pareciam sem saída. Mas, a verdade é que conseguir sair sempre.
“Starman" é uma biografia muito interessante de David Bowie. Mostra a personagem com as suas qualidades, mas também com os seus (muitos) defeitos. O livro realça, ainda, alguns paradoxos. Retenho quatro, de maior dimensão. Nos anos 70, Bowie está no auge da sua criatividade, mas vive obcecado com a ideia de sucesso. Nos anos 80, lança alguns dos seus piores discos, mas é (finalmente) uma estrela planetária. Nos anos 90, o sucesso acumulado transforma-se (finalmente)em riqueza acumulada, mas Bowie quer-se afirmar como artista alternativo. Nos anos 2000, quando parecia estar na fase mais feliz da sua vida, com o nascimento da filha do seu segundo casamento e dois discos bem sucedidos, tem um problema cardíaco que o afasta dos palcos e da vida pública. Para sempre, sabermos depois.
"Starman" apresenta-se como um biografia "definitiva". Não me parece que seja. Mas, não deixa de ser uma boa biografia, que me levou a ouvir, de novo, a obra de Bowie. Acabo de me aperceber, por exemplo, que "Heathen" (o penúltimo, antes do problema cardíaco) é um excelente disco. É estranho que, na altura, não me tivesse apercebido.