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Injustiça

por Miguel Bastos, em 01.05.23

1 maio.jpg

- Acho injusto haver o Dia do Trabalhador e não haver um dia do estudante.
- Mas existe o Dia do Estudante.
- A sério, pai?!
- Sim.
- E é feriado?
- Acho que não.
- Lá está, a injustiça.
- Porquê?
- Porque quando é Dia do Trabalhador, os trabalhadores não trabalham; mas quando é Dia do Estudante, os estudantes têm de estudar.
- Se calhar, tens razão. Deviam lutar para que o Dia do Estudante fosse feriado.
- Achas, pai?
- Sim, mas perdiam o feriado do Dia do Trabalhador.

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Não há planeta B

por Miguel Bastos, em 19.04.23

"Celebrar o quê? Não há planeta B!", disseram os jovens que mostraram as nádegas (bué original!) escritas com a palavra "ocupa". Ocupa, quem? Ocupa o quê? Ocupemo-nos da rima. Formalmente, é melhor do que a chamada rima pobre - com verbos, no infinitivo, a acabar em "ar" ou "ir". Mas não resiste à análise de conteúdo. "Celebrar o quê?", perguntam. "A democracia", respondemos. "Não há planeta B!", exclamam. "Nem democracia B", afirmamos. Em rima: "A alternativa existente, não dá bom ambiente" ou, ainda, "Calças para cima, em nome do bom clima". Não são rimas excecionais, mas é um começo...

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Ahmad Jamal

por Miguel Bastos, em 18.04.23

ahmad.jpg 

A dada altura, os discos de vinil começaram a rarear. O CD é que era. Era moderno, era "cool" e era caro. O vinil já era. Aproveitei para comprar alguns discos adiados, que, agora, estavam abandonados nas prateleiras. Aproveitei para experimentar outros géneros musicais adiados, como o jazz. Mas, por onde começar? Comprei este disco, sem ouvir. Algo que não costumava fazer. Mas, a papelaria não tinha gira-discos. Não conhecia Ahmad Jamal, mas já conhecia Gary Burton. E conhecia a "Manhã de carnaval", de Luiz Bonfá, que abre o disco. E já sabia que o amor entre o jazz e a música brasileira dava bons filhos. Levei a dupla para casa. A papelaria já faleceu, há uns anos. Ahmad Jamal morreu, há dois dias.

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Morreu Joaquim Pessoa

por Miguel Bastos, em 17.04.23

Morreu o poeta Joaquim Pessoa. Gostava de conhecer melhor o seu trabalho poético. Vou adiando para "um dias destes", que é um local habitado por muitos poetas e escritores. Conheço Joaquim Pessoa, das canções. A rádio e os jornais destacam (bem) a "Amélia dos olhos doces" (Carlos Mendes) e "Lisboa, menina e moça" (Carlos do Carmo). Mas é curto. Ele tem tantas canções! Só no disco "Uma canção para a Europa", que corresponde às canções do Festival de 1976, Carlos do Carmo canta três poemas seus: "Lisboa Menina e Moça" (em parceria com Ary dos Santos), Cantiga de Maio (não confundir com a canção de José Afonso) e "Onde é Que Tu Moras?" (uma das canções da minha vida). Só essa, já era muito. Mas há mais, muitas mais.

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Coração

por Miguel Bastos, em 17.04.23
- E depois, pai, os meninos começaram todos a falar e a fazer barulho...

- Pois, filho, e a professora claro que se zangou.

- E disse que a culpa era minha!

- E não era?

- Não, pai, eu estava caladinho.

- Devias-lhe ter dito, filho.

- E disse, pai, mas professora respondeu "é, é"!

- E, então, o teu coração ficou triste.

- Não, pai, ficou azul e branco. Como sempre!

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Socialismo dentro de casa

por Miguel Bastos, em 15.04.23

mau maria.jpg 

"A tua vontade, justiça, igualdade / Não chega aqui dentro de casa", canta a Mariazinha, que se vai tornar Marta, numa das melhores criações de José Mário Branco. Sempre foi das minhas canções preferidas. Fala da mulher, dos direitos da mulher, esquecidos na agenda do homem que, por mais de esquerda que fosse, tinha outras preocupações e prioridades. "E fico à espera que me socializes", canta Maria (zinha), já em transformação para Marta. Lembro-me de ouvir a canção a pensar nas mulheres. Como é que é possível que alguém que se queixa do patrão, que luta pelos seus direitos, não se aperceba que, em casa, reproduz o que lhe fazem fora de casa? Sim, muitas vezes, o socialismo fica à porta de casa. Porque não sai de nós próprios, não sai para os outros, é um socialismo só para nós. O que é, obviamente, a negação do socialismo. Pensei, muitas vezes, nesta canção. Extrapolei-a, para pensar que todos nós, explorados, somos, tantas vezes, exploradores dos que nos rodeiam. Mas, hoje, apetece-me voltar a fechar o foco. Porque há um homem, visto como farol da esquerda, que está a enfrentar um processo de assédio sexual em praça pública. Não sei (não sabemos, ainda) se as suspeitas têm fundamento. Mas sei que, em 1972, José Mário Branco já escrevia sobre mulheres que se transformaram em Martas. Martas que cantam: "Sei aquilo que fui e que jamais serei".

Canção aqui: https://youtu.be/Av-bxaTtkYs

Letra aqui: https://genius.com/Jose-mario-branco-aqui-dentro-de-casa-lyrics?fbclid=IwAR1-c6nkKXxyhk6j2fIMKaV58dcoMmWFqYG8nGrDZs1G0HPwQ8V2aVug27E

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Bom tempo

por Miguel Bastos, em 14.04.23

chuva.jpg 

A partir de amanhã, vai estar tão bom tempo, tão bom tempo, que já há avisos de "Cuidado com os agueiros", "Evite sardinhadas junto a espaços florestais" ou "Sr. Eduardo vista a camisola, por favor, para disfarçar a barriga". Vai estar tão bom tempo, dizia eu, tão bom tempo, que dei por mim a fechar o casaco, a abrir o guarda-chuva e a pensar "nunca mais é sábado".

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Coreografar o silêncio

por Miguel Bastos, em 12.04.23

 fado cravo.jpg

"Também se pode coreografar o silêncio?", pergunta Aldina Duarte, a fadista-conversadora da minha rádio. Olga Roriz recorda-se de si própria - coreógrafa em construção: "A minha visão da dança não precisava de música. Eu não precisava da música para dançar". "Que interessante", pensei, porque tendo (penso que todos tendemos) a pensar que não se dança sem música. Mas descubro, na conversa, que cada vez se dança menos. Até em espaços como as discotecas. O que leva as duas conversadoras a refletirem sobre a perda, progressiva, de contacto com o corpo. E, sim, chegam à sexualidade. Uma delícia, este "Fado Cravo". Um programa de corpo inteiro.

www.rtp.pt/play/p9839/e682802/fado-cravo

 

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Páscoa

por Miguel Bastos, em 10.04.23

Estive, aqui, a ver as vossas fotografias de Páscoa. Sim, senhor. Pelo que percebi, gostam - mesmo - desta época. E não é assim-assim. Quando muito, assim-assado. Mas, sobretudo, assado.

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O tio solteiro

por Miguel Bastos, em 06.04.23

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Temos uma relação estranha, eu e o Portugal em Direto. Gostamos um do outro, mas vemo-nos pouco. Sou uma espécie de tio solteiro - desses que toda a gente tem, na família. Mando uns postais, de vez em quando. Faço uma visita, de vez em quando. Trago guloseimas, de vez em quando. Acho que o Portugal em Direto gosta de mim, apesar de eu não morar no estrangeiro, nem ter um descapotável, como alguns desses tios. Hoje, o Portugal em Direto trouxe-me companhia - a jornalista Teresa Silveira que, apesar de ter a vida inscrita na imprensa escrita, parece que nasceu para a rádio.

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