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Ler Norman Mailer

por Miguel Bastos, em 02.02.18

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Levei mais de 30 anos para seguir o conselho de Lloyd Cole: "Read Norman Mailer", cantava ele em "Are you ready to be heartbroken". Convenhamos, o jovem Lloyd parecia uma enciclopédia. Debitava nomes e obras, à velocidade da luz: Arthur Lee, Simone de Beauvoir, Renata Adler, Eva Marie Saint. Tinha ali, num disco de música pop, matéria para ler, ver e ouvir até à idade da reforma. 

 

No terceiro disco, Cole falou de Sean Penn e Madonna. "Sempre a descer", pensei eu. Mal. Entretanto, apaixonei-me pelos dois. Norman também, ao que parece. É famosa a sua entrevista a Madonna. Que eu li enquanto pensava: "Ainda não li Norman Mailer".

 

Demorei mais de 20 anos a comprar o livro "Os nus e os mortos". A primeira obra de Mailer comemorava , então, 60 anos. O autor tinha morrido no ano anterior. Depois, o livro ficou 10 anos a apanhar pó na prateleira. O livre é grande (mais de 700 páginas) e suspeitava que fosse denso. Não me enganei. É grande. É denso. E é uma obra-prima. 

 

Mais de 30 anos depois, devia agradecer a Lloyd. Está velho, como o Norman quando era mais novo, mas bem vestido. Eu não. Serão precisos 30 anos para a próximo verso: "Get a new tailor"? 

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Não dão nada a ninguém!

por Miguel Bastos, em 12.01.18

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 “Querem é tacho!” “Não ligam ao povo!” “Só pensam nos votos!” “Não dão nada a ninguém!” São os políticos: na versão ‘gajo de alfama’, ou na versão ‘homem do norte’. Todos iguais? Claro que não.

 

Salgado Zenha e Mário Soares. Eram da mesma barricada, da mesma luta, do mesmo partido. E muito diferentes. Zangaram-se por causa de Eanes, dividiram o PS, separaram-se. Zenha era parecido com Eanes. Gostava dele. Soares não. Nas presidenciais de 1986, os dois fundadores do PS concorreram, um contra o outro. Zenha tinha o apoio do, então, Presidente da República. Na biografia de Ramalho Eanes, de Isabel Tavares, a secretária de Eanes, que dirigiu a campanha de Zenha, conta uma história, hilariante.

 

“Tínhamos uns lenços verdes e vermelhos para trazer ao pescoço. Uma senhora chega perto de senha e pede-lhe o lenço. Ele responde: ‘Não dou, que este é meu.’ Eu vejo aquilo e faço menção de tirar o meu para lho dar. Diz ele: ‘Não, não dá que esse é seu. Olhe, minha senhora, já não há lenços, já não leva nenhum’ Ele era assim. Deve ter perdido muitos votos”. Pois deve. E para alguém, muito diferente, que pensava mais em votos e menos em lenços. 

 

Os políticos não são todos iguais. Mas é verdade: há políticos que não dão nada a ninguém. Normalmente, perdem eleições.

 

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Zé Pedro

por Miguel Bastos, em 04.12.17

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Miguel Bastos: ... Vamos agora falar do seu irmão, enquanto "o Zé Pedro dos Xutos". Não é o cantor, não é o compositor, não é o guitarrista principal. E, no entanto, é, talvez, a figura mais emblemática da banda. Porque é que acha que isso acontece? Ou, se preferir, o que é que o Zé Pedro tem de especial?   

 

Helena Reis: Eu acho que ele foi sempre o que acreditou mais. Ele queria ter uma banda e queria que ela fosse relevante. Quando os outros lhe lembravam que ainda nem sabiam tocar como devia ser, ele respondia: "temos que ensaiar mais! Nós vamos conseguir e tal..." Ele acreditava sempre. E tinha muita energia, para incentivar toda a gente. 

 

Miguel Bastos: No palco ou fora dele?

 

Helena Reis: Em todo o lado. Ele sempre teve muita facilidade em comunicar com os fãs, no palco, depois dos concertos...  E com as pessoas do meio: jornalistas, agentes, editores,  músicos de outras bandas. Ele sempre foi muito comunicativo. Tem muita energia e adora aquilo que faz. E acho que as pessoas reconhecem esse entusiasmo, essa energia.

 

E é isto. Há pessoas que ficam conhecidas por aquilo que fazem. Outras, por aquilo que são.

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O Haiti é aqui

por Miguel Bastos, em 19.07.17

[Foto: Paulo Nuno Vicente]

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No livro "Barroco Tropical", José Eduardo Agualusa descreve-nos uma Luanda em decadência. O protagonista é um escritor, casado com a filha de um militar do regime. Vivem no topo de um arranha céus. Mas o prédio está inacabado. No topo, vivem os ricos. Nos andares enterrados no solo, vivem os indigentes, os traficantes, as prostitutas, os marginais. Normalmente, não se cruzam. Mas vivem debaixo do mesmo tecto. "Que alegoria tão forte", pensei. Angola deve ser isto.

 

O livro lembrou-me uma canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil chamada "Haiti". Na altura, o Haiti tinha sido arrasado por um furação. Um dos muitos que, regularmente, assolam o país, demasiado habituado a furacões e miséria. E, perante as miséria do Brasil, a dupla canta "O Haiti é aqui". O Haiti pode ser ali, no Brasil; ou ali, em Angola. E pode ser aqui, em Portugal? Pode. 

 

A Rita Colaço foi à Jamaica. Não foi em lua de mel. Não foi em cruzeiro. Foi em reportagem. O bairro da Jamaica, fica no Seixal, às portas de Lisboa - a antiga capital do império. É um conjunto de esqueletos de betão abandonados por um construtor falido. As pessoas - sem casa, sem terra, sem emprego - foram ocupando os prédios, piso a piso. Preencheram-nos de tijolos e gente. Abaixo do solo não está gente, como no livro de Agualusa. Mas estão dejectos de gente, a corroer a saúde da gente e do prédio. As fundações estão em perigo e um dia, enquanto as entidade discutem a solução para o problema, a casa vem abaixo.    

 

Jamaika também é Portugal, diz Rita Colaço. Pois é, Rita. E "o Haiti é aqui".

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É o raça

por Miguel Bastos, em 12.07.17

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Lá em casa, tivemos sempre  problemas com o "raça". Assim mesmo, com artigo masculino. Perante a minha irrequietude, a minha mãe dizia: "o raça do rapaz não pára quieto". Ou "o raça do rapaz nunca está calado". O "raça", portanto. O "raça", dizem os dicionários mais nobres, é uma expressão popular para exprimir descontentamento, irritação, contrariedade.

 

Lá em casa, o "raça" da torneira não funcionava, apesar dos esforços do meu pai. O "raça" do vizinho estacionava a camioneta à nossa porta. E o "raça" do forno queimava o assado de domingo. O "raça" levava sempre com a culpas. A raça também.

 

No livro "Brasil: Uma biografia", as historiadoras Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling contam-nos que, no século XIX, o "raça" dos brasileiros estavam preocupados com a raça. Para "purificarem" a raça brasileira, "ameaçada" pela sobrevivência dos índios e pela proliferação dos negros, os brasileiros queriam importar pessoas brancas e louras da Europa. Que "raça" de ideia!

 

Na Bósnia dos anos de 1990, a coisa foi mais difícil. Sem negros, nem índios, era preciso distinguir o "raça" de um eslavo do sul, do "raça" de outro eslavo do sul. Neste caso, a religião, explica Tim Butcher no livro "O Gatilho", serviu para dividir o que Deus uniu. E, depois de divididos, foi o "raça". Chamaram "limpeza étnica" à matança mais suja, levada a cabo na Europa, depois da Segunda Guerra Mundial.

 

"Raça" é isto: na Cova da Moura ou na cidade de Mossul. E é o raça.  

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Rosa Choque

por Miguel Bastos, em 11.04.17

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Tudo é cor-de-rosa, na minha vizinha. Os brincos - duas argolas grandes e brilhantes. As unhas - longas e pontiagudas. As pálpebras - contrastando com o rímel negro. E, ainda, a carteira, a camisola e o cinto. Tudo rosa. No colo, um livro aberto. As letras são negras, as páginas são brancas, mas os nomes parecem-me cor de rosa: Gerson, Vanda, Neide… A minha vizinha mexe os lábios (cor-de-rosa, claro!) enquanto lê. As vezes percebem-se algumas palavras, sussurradas. 

 

Por descuido, lê mais alto. “Oi, quirida!”; “Não, tou no trem”; “Por volta dáis nóvi, amor”. Afinal, está ao telefone. Tudo é rosa, na vida desta mulher. A roupa, o corpo, o livro, a voz. “Não quirida, pode bôtar pra você. Basta squentar. Eu quando chégar tomo um leite. Amanhã, pego cedo lá na fábrica”. Volta, por instantes, ao Seu Gerson e a Dona Neide. Depois, atende outro telefonema no “cêlulá”: “Não si preocupi, Seu Vítor. Esqueci não. Amanhã, vou receber. Depois a gente ácerta nossas contas”.

 

Afinal, nem todo é rosa na vizinha. Enterro os olhos no meu livro. Curiosamente, fala de escravos no Brasil. É um bom livro, acho eu. Mas isso sou eu, que tenho uma vida bastante mais cor-de-rosa.

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As vidas de Soares

por Miguel Bastos, em 14.12.16

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Acabei, ontem, de ler a biografia de Mário Soares, com a assinatura de Joaquim Vieira. “Uma Vida” é o subtítulo desta biografia. Uma vida cheia. Ao final do dia, a notícia do internamente de Soares, veio lembrar-me que qualquer vida, por mais cheia que seja, chega ao fim. A de Soares ainda não chegou, mas o fim (percebe-se) está próximo.

 

“Uma vida” é um trabalho de fundo: com investigação, entrevistas, base bibliográfica sólida, trabalho jornalístico. Há até pontos em que as biografias dos dois se cruzam. Joaquim Vieira começa por referir que conheceu Soares, antes do 25 de Abril em Paris: Mário era um exilado célebre do regime, e Joaquim um jovem com simpatias albanesas. Mais tarde Soares, Presidente, zanga-se com Joaquim, jornalista do Expresso, por causa do famoso caso do “fax de Macau”.

 

Mas os dois respeitam-se, isso é visível ao longo do livro. Mais de 800 páginas de acção, crime, intriga, sexo, corrupção. Enfim, todas as coisas que fazem um bom “thriller” ou uma aventura de James Bond. No final, sabe a pouco. Porque Soares parece ter mais do que uma vida, teve várias. Umas correram melhores do que outras. E ele sempre assumiu isso. É a vida!

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Um rapaz chamado Soares

por Miguel Bastos, em 21.11.16

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Durante muitos anos, agarrei-me a Mário Soares. Tinha lido, num jornal, que Soares, sempre fora atento e curioso, mas nunca tinha sido grande aluno. O artigo dizia que havia alunos que não eram bons, porque não queriam saber de nada; e alunos que não eram bons, porque queriam saber de tudo. Era o caso de Soares. Eu assumi que era um desses: “um aluno-Soares.”

 

Até que descubro, na (excelente) biografia de Soares, de Joaquim Vieira, que o jovem Soares não se interessava por nada. Não gostava de estudar, não sentia curiosidade por nada, que não fosse política. Seria, então, um teórico fascinado pela grandes narrativas políticas? Não, não tinha paciência, gostava mais de acção. Que tipo de acção? Queria ser um grande professor, gerir a escola do pai? Não era bem isso. Queria ser engenheiro ou arquiteto, fazer estradas e pontes? Não, não tinha competências técnicas para isso, nem queria ter. Acção armada? Nem pensar, não é do seu género. Nem sequer irá à tropa. Acção, para Soares, era fazer papéis, colar cartazes, viajar, fazer contactos, fazer discursos. Ou seja, além de ter sido, sempre, um menino-família; Mário Soares já era um boy, numa altura em que não havia “jotas”, nem partidos.

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Idade do Ferro

por Miguel Bastos, em 14.11.16

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Rita Ferro resolveu escrever um livro sobre o seu avô: António Ferro. O homem da propaganda de Salazar tentou criar uma política que moldasse a cultura e as artes ao regime. O projeto era  característicos dos regimes totalitários que grassavam a Europa dos anos 30 e 40: em Itália, na Alemanha, na União Soviética. Fiquei com algumas reservas, relativamente a Rita Ferro: o livro é um romance histórico (não será o meu género preferido) e o DN colocava como título da entrevista “Ainda há gente que quer matar-nos por causa do nosso avô António Ferro”. Achei exagerado.

 

Tinha lido a entrevista de manhã, em papel, mas, quando, ao final do dia, passei pela edição on line do DN reparei que o texto tinha muitos comentários. Não sei o que achei mais lamentável: se os comentário a criticar a autora, por ser neta de um fascista e não fazer a sua autocrítica; se os que apoiavam a autora, criticando a “corrupção” da democracia e defendendo a ditadura de Salazar. À vezes penso que não estamos, sequer, na Idade do Ferro. Estamos na Idade da Pedra.

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Cohen morreu de velho

por Miguel Bastos, em 13.11.16

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O rock trouxe a cultura da eterna juventude. Mas, Leonard Cohen nunca foi jovem. E nunca foi rock. O seu pai fora alfaiate e ele vinha dos livros: era incapaz de se vestir mal. Conheci Cohen, em 1985, com “Dance me to the end of love”. Não gostei: um cantor velho, com uma voz estragada, e uma música que (não sei porquê) me lembrava Demis Roussos. A minha opinião começou a mudar com o disco seguinte ("I’m your man") e com a descoberta do seu primeiro disco. Foi, então, que percebi que uma série de músicas, que eu gostava, eram, afinal, de Cohen: "Suzanne"; "So Long, Marianne"; "Hey, That's No Way to Say Goodbye". E comecei, também, a perceber melhor os elogios e declarações de amor dos músicos que eu admirava, na altura. Muitos deles entrariam no disco “I’m your fan”.

 

Leonard Cohen fazia-me lembrar Woody Allen. Não foi hippie, não foi jovem, não usava calças de ganga, nem cabelos compridos. Esteve sempre fora do rock e fora do tempo. Nasceu velho e morreu morreu. É isso, Cohen morreu de velho. E, mesmo assim, a sua morte dói-nos.

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