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Ler Norman Mailer

por Miguel Bastos, em 02.02.18

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Levei mais de 30 anos para seguir o conselho de Lloyd Cole: "Read Norman Mailer", cantava ele em "Are you ready to be heartbroken". Convenhamos, o jovem Lloyd parecia uma enciclopédia. Debitava nomes e obras, à velocidade da luz: Arthur Lee, Simone de Beauvoir, Renata Adler, Eva Marie Saint. Tinha ali, num disco de música pop, matéria para ler, ver e ouvir até à idade da reforma. 

 

No terceiro disco, Cole falou de Sean Penn e Madonna. "Sempre a descer", pensei eu. Mal. Entretanto, apaixonei-me pelos dois. Norman também, ao que parece. É famosa a sua entrevista a Madonna. Que eu li enquanto pensava: "Ainda não li Norman Mailer".

 

Demorei mais de 20 anos a comprar o livro "Os nus e os mortos". A primeira obra de Mailer comemorava , então, 60 anos. O autor tinha morrido no ano anterior. Depois, o livro ficou 10 anos a apanhar pó na prateleira. O livre é grande (mais de 700 páginas) e suspeitava que fosse denso. Não me enganei. É grande. É denso. E é uma obra-prima. 

 

Mais de 30 anos depois, devia agradecer a Lloyd. Está velho, como o Norman quando era mais novo, mas bem vestido. Eu não. Serão precisos 30 anos para a próximo verso: "Get a new tailor"? 

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O Haiti é aqui

por Miguel Bastos, em 19.07.17

[Foto: Paulo Nuno Vicente]

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No livro "Barroco Tropical", José Eduardo Agualusa descreve-nos uma Luanda em decadência. O protagonista é um escritor, casado com a filha de um militar do regime. Vivem no topo de um arranha céus. Mas o prédio está inacabado. No topo, vivem os ricos. Nos andares enterrados no solo, vivem os indigentes, os traficantes, as prostitutas, os marginais. Normalmente, não se cruzam. Mas vivem debaixo do mesmo tecto. "Que alegoria tão forte", pensei. Angola deve ser isto.

 

O livro lembrou-me uma canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil chamada "Haiti". Na altura, o Haiti tinha sido arrasado por um furação. Um dos muitos que, regularmente, assolam o país, demasiado habituado a furacões e miséria. E, perante as miséria do Brasil, a dupla canta "O Haiti é aqui". O Haiti pode ser ali, no Brasil; ou ali, em Angola. E pode ser aqui, em Portugal? Pode. 

 

A Rita Colaço foi à Jamaica. Não foi em lua de mel. Não foi em cruzeiro. Foi em reportagem. O bairro da Jamaica, fica no Seixal, às portas de Lisboa - a antiga capital do império. É um conjunto de esqueletos de betão abandonados por um construtor falido. As pessoas - sem casa, sem terra, sem emprego - foram ocupando os prédios, piso a piso. Preencheram-nos de tijolos e gente. Abaixo do solo não está gente, como no livro de Agualusa. Mas estão dejectos de gente, a corroer a saúde da gente e do prédio. As fundações estão em perigo e um dia, enquanto as entidade discutem a solução para o problema, a casa vem abaixo.    

 

Jamaika também é Portugal, diz Rita Colaço. Pois é, Rita. E "o Haiti é aqui".

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Rosa Choque

por Miguel Bastos, em 11.04.17

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Tudo é cor-de-rosa, na minha vizinha. Os brincos - duas argolas grandes e brilhantes. As unhas - longas e pontiagudas. As pálpebras - contrastando com o rímel negro. E, ainda, a carteira, a camisola e o cinto. Tudo rosa. No colo, um livro aberto. As letras são negras, as páginas são brancas, mas os nomes parecem-me cor de rosa: Gerson, Vanda, Neide… A minha vizinha mexe os lábios (cor-de-rosa, claro!) enquanto lê. As vezes percebem-se algumas palavras, sussurradas. 

 

Por descuido, lê mais alto. “Oi, quirida!”; “Não, tou no trem”; “Por volta dáis nóvi, amor”. Afinal, está ao telefone. Tudo é rosa, na vida desta mulher. A roupa, o corpo, o livro, a voz. “Não quirida, pode bôtar pra você. Basta squentar. Eu quando chégar tomo um leite. Amanhã, pego cedo lá na fábrica”. Volta, por instantes, ao Seu Gerson e a Dona Neide. Depois, atende outro telefonema no “cêlulá”: “Não si preocupi, Seu Vítor. Esqueci não. Amanhã, vou receber. Depois a gente ácerta nossas contas”.

 

Afinal, nem todo é rosa na vizinha. Enterro os olhos no meu livro. Curiosamente, fala de escravos no Brasil. É um bom livro, acho eu. Mas isso sou eu, que tenho uma vida bastante mais cor-de-rosa.

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Um rapaz chamado Soares

por Miguel Bastos, em 21.11.16

mario soares boy.jpg

Durante muitos anos, agarrei-me a Mário Soares. Tinha lido, num jornal, que Soares, sempre fora atento e curioso, mas nunca tinha sido grande aluno. O artigo dizia que havia alunos que não eram bons, porque não queriam saber de nada; e alunos que não eram bons, porque queriam saber de tudo. Era o caso de Soares. Eu assumi que era um desses: “um aluno-Soares.”

 

Até que descubro, na (excelente) biografia de Soares, de Joaquim Vieira, que o jovem Soares não se interessava por nada. Não gostava de estudar, não sentia curiosidade por nada, que não fosse política. Seria, então, um teórico fascinado pela grandes narrativas políticas? Não, não tinha paciência, gostava mais de acção. Que tipo de acção? Queria ser um grande professor, gerir a escola do pai? Não era bem isso. Queria ser engenheiro ou arquiteto, fazer estradas e pontes? Não, não tinha competências técnicas para isso, nem queria ter. Acção armada? Nem pensar, não é do seu género. Nem sequer irá à tropa. Acção, para Soares, era fazer papéis, colar cartazes, viajar, fazer contactos, fazer discursos. Ou seja, além de ter sido, sempre, um menino-família; Mário Soares já era um boy, numa altura em que não havia “jotas”, nem partidos.

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Dois russos no comboio

por Miguel Bastos, em 17.10.16

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Entrei e olhei à volta. Tentei escolher um bom lugar, ao pé da janela. Normalmente, tento seguir a máxima da canção e procuro uma “janela virada para o mar”. Sentei-me e, enquanto procurava  o meu livro, olhei para o lado. A senhora, ao meu lado, estava a ler. Não é verdade que o ser humano só tenha olhos para acidentes e desgraças. Existe, por exemplo, uma enorme curiosidade por tentar ver o jornal ou o livro do vizinho. Como se os livros, fossem janelas, que os outros abrissem para nós. A senhora ao meu lado lia Tolstói.

 

“Que engraçado”, disse eu “também estou a ler um livro de um autor russo”. Ela sorriu, fechando ligeiramente o livro, deixando o polegar esquerdo a marcar a página, e mostrou-me a capa de Ana Karenina. Então, estendi-lhe o meu Nabokov e senti uma certa cumplicidade. “Sabe que nunca li nada dele?”, disse ela. E, assim, dois estranhos seguiram, lado a lado, cada um com o seu russo. E eu a hesitar se devia olhar para o meu russo ou falar dos russos com a vizinha. Depois, o comboio parou e a senhora saiu. E eu olhei para o meu Nabokov que dizia “Não, eu não pronunciei nenhuma destas palavras”. Eu também não. Mas, gostaria.

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Apanhado na esquina

por Miguel Bastos, em 05.08.16

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No ano passado, Mario Vargas Llosa foi notícia por se ter envolvido numa relação extra conjugal, com Isabel Preysler. Isabel é uma senhora que aparece nas revistas sociais. Foi casada com Julio Iglesias. É mãe de Enrique. É gira. Mario é um escritor, premiado com o Nobel. Foi candidato à presidência do Perú, mas perdeu para Alberto Fujimori, que transformou o regime numa ditadura. Mario tinha um casamento com 50 anos, que acabou depois do romance com Isabel ter saído na capa de uma revista. Mario estava habituado a ser capa das revistas: mas eram literárias ou de referência, não eram cor-de-rosa.

 

O novo romance de Vargas Llosa, Cinco Esquinas, mistura as coisas do primeiro parágrafo: sexo, revistas de escândalos, dinheiro, política, Perú, Fujimori. Imediatamente, a leitura torna-se apaixonada e compulsiva. Passamos, rapidamente, do lixo ao luxo; dos jogos eróticos aos jogos de poder; da penthouse ao bairro da lata. A escrita virtuosa de Vargas Llosa trespassa pelo novo livro do mestre. A dada altura, o escritor opta por uma espécie de polifonia. A cada parágrafo muda o protagonista, o discurso, a linguagem. Aumentando, ainda mais, o ritmo da história. Mas, no final, sabe a pouco. Porque será? Será demasiado parecido com a realidade?

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