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Vai chatear o Camões!

por Miguel Bastos, em 05.09.18

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Germano Almeida recebeu o Prémio Camões, no Rio de Janeiro. O escritor ficou surpreendido com a reacção dos cabo-verdianos: "Acho que gostaram mais do prémio do que eu", disse ele. Por isso, dedicou o prémio ao povo de Cabo Verde, mas avisou logo que o dinheiro (100 mil euros) era para ele. Germano Almeida tem muito humor. Por isso, gostava que ele fosse chatear o Camões. Daria um belo livro.

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Carlos Paião

por Miguel Bastos, em 27.08.18
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Para que não restem dúvidas, acho que Carlos Paião era um génio. Muitos concordarão, muitos não. O próprio, creio eu, teria muita dificuldade em aceitar esta classificação. Paião não se levava muito a sério. E, talvez por isso, nunca tenha editado um disco à altura do seu talento, como referiu David Ferreira no texto que acompanha a compliação "Letra e Música - 25 Anos Depois". Amália foi a primeira a perceber o potencial de Paião e gravou o "Senhor extraterrestre", que Gisela João voltou, agora, a cantar.

 
Carlos Paião escreveu para várias pessoas. Ele escrevia muito e bem: letra e música. Era um jovem atento, com um olho clínico para os costumes nacionais e os temas da atualidade. Era irreverente, mas bem comportado. Escrevia de repente e por encomenda. Teve sucessos que permanecem na memória colectiva. Mas também canções menos conhecidas, que merecem ser redescobertas. Carminho recuperou, recentemente, "História linda". Nela, o jovem Carlos conta a história de amor dos pais. Fala da mãe, sempre aflita, porque o marido "tinha um emprego nas ondas do mar". Ironia do destino, o filho morreu pouco tempo depois. Em terra. Fez ontem 30 anos.
 
Não creio, no entanto, que Carlos Paião quisesse ser lembrado por coisas tristes. Ele tinha imensa graça. E, por isso mesmo, acho devia ser levado mais a sério.

 

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Pechinchas

por Miguel Bastos, em 12.07.18

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Como qualquer sopeira, gosto de pechinchas. Por exemplo, gosto de visitar uma certa loja francesa, para comprar a preços do chinês. Peguei no disco "Givin' It Up" de George Benson e Al Jarreau, porque estava barato. O disco abre com um clássico de cada um. O que é mais engraçado é que Jarreau "vocaliza" um instrumental de Benson (Breezin') e Benson "instrumentaliza" um tema de Jarreau (Morning). Mas é mais do que isso. Benson é um guitarrista de jazz que, progressivamente, se foi tornando cantor. Jarreau não é, apenas, um cantor. É um instrumentista genial, que toca voz. Morreu no ano passado e a maioria das pessoas apenas se lembrava do tipo que cantava a música do "Modelo e detetive". Benson e Jarreau têm outra coisa em comum: um talento enorme que, por vezes, foi abafado por opções artísticas duvidosas.

 
Neste disco, de 2006, os dois músicos - que andaram sempre entre o jazz, a soul e a pop -  estão em grande forma. Nota-se a cumplicidade e a despreocupação com o sucesso comercial. Juntam um clássico do jazz (God bless the child, de Billie Holiday), com um tema de soft rock (Summer Breeze, dos Seals and Crofts). Reconhecem, instantaneamente, um clássico soul (Ordinary People, de John Legend). Terminam com o "beatle" Paul McCartney, a cantar Sam Cook.
 
Só não estou mais feliz, por causa do peso na consciência. Afinal, um Euro é um bocado de menos...

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Semear Joy Division

por Miguel Bastos, em 06.07.18

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David Ferreira conta, hoje, que Ricardo Camacho começou a produzir discos, com a ideia de semear os Joy Division em Portugal. A primeira experiência foi a canção "Foram cardos, foram prosas": letra de Miguel Esteves Cardoso, música de Ricardo Camacho, voz de Manuel Moura Guedes. Tocam Vítor Rua e Toli, dos GNR. A beleza da coisa é que, apesar de soar a Joy Division, a canção tem uma melancolia, profundamente portuguesa. Ricardo Camacho iria explorar e aperfeiçoar a sonoridade com Né Ladeiras, António Variações e a Sétima Legião. O Ricardo era um génio. Era mesmo.

https://www.rtp.pt/play/p955/e355229/david-ferreira-a-contar

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Quanto mais Kent melhor

por Miguel Bastos, em 04.06.18

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Stacey kent passou por Portugal. Quatro datas (Lisboa, Porto, Figueira da Foz e Aveiro), na companhia da Orquestra Filarmonia das Beiras. Cantou jazz, claro, muito jazz: com bossa nova, samba, pop, chanson, embrulhados em belíssimos arranjos orquestrais. Stacey conversou em português, sorriu muito e abandonou o Teatro Aveirense depois de pôr o público a trautear, em uníssono, "Jardin d'inver", de Henri Salvador. Lindo! Volta sempre, Stacey. Quanto mais Kent melhor... 

 

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Viver e morrer

por Miguel Bastos, em 23.05.18

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Hoje, morreu o escritor Philip Roth. Hoje, é dia de aniversário de Eduardo Lourenço. E, hoje, a RTP vai estrear um documentário sobre o ensaísta. Diz o realizador, Miguel Gonçalves Mendes, que é preciso celebrar as pessoas em vida. Não podia estar mais de acordo. Os últimos dias vieram recordar-nos uma evidência: os velhinhos morrem muito. Até aqueles que estavam mais vivos do que nós.

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O som da Síria

por Miguel Bastos, em 20.04.18
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Ouvi o realizador belga, a dizer que, na Síria, o som é muito importante. A pessoas habituaram-se a ter os ouvidos alerta, para perceber se há guerra nas redondezas. Para perceber a que distância podem estar os tiroteios, os carros de combate, os bombardeamentos. Se podem sair de casa, ou se é melhor abrigarem-se.

 

As pessoas podem tentar ver pela janela. Mas serve de pouco. Os olhos pouco alcançam. Talvez a rua, os vizinhos da frente, o parque das traseiras. E se virem gente aos tiros e bombas a cair, é porque já é tarde de mais. O ouvido é, portanto, fundamental.    

 

Ora, eu, que sou todo ouvidos, a viver numa sociedade dominada pelas imagens, achei isto muito curioso. E deixei-me ficar a ouvir, deliciado, a reportagem sobre o filme "Na Síria", de Philippe Van Leeuw. E, depois, o programa inteiro. O Cinemax, da Antena 1, com edição de Tiago Alves, é um programa sobre cinema feito, apenas, com sons. Sons que nos fazem ver, por antecipação. Por antecipação, como na Síria.

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Peu

por Miguel Bastos, em 06.03.18

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Só uma coisa: o Peu Madureira sempre ganhou o Óscar, ou não? É que devia...

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Tipo Godinho

por Miguel Bastos, em 28.02.18

sergio godinho2.jpg

"Tipo" é tique de linguagem, que passou dos jovens adolescentes aos velhos "tipo" moderno. Mas "tipo" é também cópia, imitação, pechibeque: "tipo azeitão", "tipo serra". Há um tom de comédia, de circo, de farsa, na canção "Tipo Contrafacção". Letra precisa (Godinho), música arrojada (Nuno Rafael), arranjo certeiro (Filipe Melo). Pim, pam, pum. 

 

O novo disco de Sérgio Godinho é de uma economia de meios notável. O mestre assina duas canções e  divide autorias com outros compositores nas restantes, escrevendo as letras depois. Há uma excepção: "Delicado", uma canção de Márcia. Grande parte das canções tem um ou dois músicos, que tocam todos os instrumentos, o que lhe dá uma sonoridade mais artesanal, mas também mais original. Em pouco mais de meia hora, Godinho divide créditos e junta talentos: de "Grão da mesma mó" (David Fonseca) a "Até já, até já" (Pedro da Silva Martins, dos Deolinda). 

 

"Nação valente" fala de nós todos, em geral, e de cada um, em particular, num universo só dele. E não é "tipo". É mesmo genuíno. É mesmo Godinho.

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Godinho na cabeça

por Miguel Bastos, em 26.02.18

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"Quando o teu corpo oscila no meu/ Quando é já carne o que era só céu". É por esta e por outras (muitas outras!), que o novo disco de Godinho não me sai da cabeça.

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