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O Haiti é aqui

por Miguel Bastos, em 19.07.17

[Foto: Paulo Nuno Vicente]

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No livro "Barroco Tropical", José Eduardo Agualusa descreve-nos uma Luanda em decadência. O protagonista é um escritor, casado com a filha de um militar do regime. Vivem no topo de um arranha céus. Mas o prédio está inacabado. No topo, vivem os ricos. Nos andares enterrados no solo, vivem os indigentes, os traficantes, as prostitutas, os marginais. Normalmente, não se cruzam. Mas vivem debaixo do mesmo tecto. "Que alegoria tão forte", pensei. Angola deve ser isto.

 

O livro lembrou-me uma canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil chamada "Haiti". Na altura, o Haiti tinha sido arrasado por um furação. Um dos muitos que, regularmente, assolam o país, demasiado habituado a furacões e miséria. E, perante as miséria do Brasil, a dupla canta "O Haiti é aqui". O Haiti pode ser ali, no Brasil; ou ali, em Angola. E pode ser aqui, em Portugal? Pode. 

 

A Rita Colaço foi à Jamaica. Não foi em lua de mel. Não foi em cruzeiro. Foi em reportagem. O bairro da Jamaica, fica no Seixal, às portas de Lisboa - a antiga capital do império. É um conjunto de esqueletos de betão abandonados por um construtor falido. As pessoas - sem casa, sem terra, sem emprego - foram ocupando os prédios, piso a piso. Preencheram-nos de tijolos e gente. Abaixo do solo não está gente, como no livro de Agualusa. Mas estão dejectos de gente, a corroer a saúde da gente e do prédio. As fundações estão em perigo e um dia, enquanto as entidade discutem a solução para o problema, a casa vem abaixo.    

 

Jamaika também é Portugal, diz Rita Colaço. Pois é, Rita. E "o Haiti é aqui".

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Pesadelo em ar condicionado

por Miguel Bastos, em 26.06.17

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Ainda as chamas lavravam em Pedrógão Grande e Castanheira de Pêra. Ainda as labaredas se alastravam em Góis e Pampilhosa da Serra. Ainda o fumo toldava a visão dos que trabalhavam no meio do fogo. E já havia quem exigisse fumo branco. Começou  "O Pesadelo em Ar Condicionado", pensei, roubando o título de um livro de Henry Miller.

 

O pesadelo decorre, invariavelmente, no Monte Olimpo, com os clientes do costume. Uns permancem na frescura do ar condicionado. Outros, deslocam-se aos locais, em viaturas velozes e climatizadas, que replicam o Olimpo em quatro rodas. Chegados ao local (um qualquer, que só tem nome durante a desgraça), permanecem o tempo mínimo exigível e, depois, regressam ao Olimpo: o palco de todas as questões e discussões; de todas as conclusões e ilações.

 

É, por isso, que é tão importante o trabalho dos repórteres, que permanecem nas terras devastadas pelo fogo. Para que seja ali (e não, no Monte Olímpo) que se fale dos incêndios.. Fala-se com gente real e tangível; que troca os "bês" pelos "vês"; que falha na concordância entre sujeito e predicado. "E agora?", pergunta o repórter Nuno Amaral, na Antena 1. Agora, "é andar para a frente"... diz Lucinda. Ermelinda, sujeita com todos os predicados (nascida, batizada e casada em Alvares, no concelho de Góis), está em concordância com a primeira. Esta gente concorda no essencial, para não se perder nas discordâncias verbais do Monte Olimpo. 

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Olhe que não, D. Helena!

por Miguel Bastos, em 25.11.16

marcelo olhe que nao.jpg

A D. Helena era uma crente fervorosa do PSD. Mas afirmava, entre duas vassouradas, que não gostava do Marcelo. Porque não percebia nada do que ele dizia. “Olhe que não, D. Helena!", repetia-lhe eu, "Olhe que não”. Mas ela não cedia. Gostava do Santana, que, ainda por cima, era mais giro. Estávamos, ainda, na ressaca do cavaquismo. Rebelo de Sousa liderava o PSD, mas não o coração das donas helenas. Nessa altura, difundiu-se a ideia que, sendo um intelectual, Marcelo não chegava ao povo.

 

E, de facto, Marcelo chegava, com facilidade, às páginas dos jornais; aos microfones da rádio; aos corredores do poder; às mesas dos pensadores e dos conspiradores. Mas não conseguia “subir ao povo”, como diz o Carlos do Carmo. Isso mudou, claro.

 

Hoje, Marcelo bate recordes de popularidade. O Presidente da República tem uma avaliação positiva de 97% dos inquiridos pela sondagem da Católica (para a Antena 1, a RTP, o JN e DN). A popularidade de Marcelo coincide com uma altura em que se fala de populismo. São coisas bem diferentes. Estou, até, convencido que ser popular pode ser um antídoto contra o populismo.

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Albergue espanhol?

por Miguel Bastos, em 05.01.16

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Estamos na campanha para as presidenciais. Tenho tentado seguir os debates na televisão. É difícil. São mais de 20. Ontem, até ouvi o debate, na rádio, com 10 candidatos. Isso mesmo, dez. Enchiam o estúdio da Antena 1. Falou-se do cargo de presidente, de governação, de demitir governos, do Banif. Tino de Rans adaptou António Variações para dizer que “quando os bancos não têm juízo, o povo é que paga”. Foi um debate e pêras!

 

À noite, Miguel Sousa Tavares considerava que há candidatos que procuram, apenas, publicidade. São as presidenciais ao serviço dos 15 minutos de fama, de Andy Warhol. Freitas do Amaral reforçou o óbvio: ninguém deve começar uma carreira política pela Presidência da República. Maria de Belém já tinha dito o mesmo. Mas Maria é candidata a Belém. Freitas já foi e não volta a ser.

 

A democracia é de todos e para todos. Mas, ao ver tantos e tão estranhos candidatos, pergunto-me se deve ser um albergue espanhol. Com todo o respeito pelo setor hoteleiro e pelos espanhóis.

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Não pesco nada

por Miguel Bastos, em 16.12.15

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“Não pesco nada”, pensei. Os noticiários apontavam para resultados diferentes nas negociações em Bruxelas: “Portugal aumenta as quotas de pesca para 2016” (Antena 1); “Portugal sofreu cortes nas quotas de pesca de espécies como o bacalhau” (Primeiro Jornal - SIC ). Afinal, em que é que ficamos?

 

Com mais atenção, verifico que, depois, as notícias vão dar à mesma coisa: Portugal perde capacidade de pescar bacalhau ou pescada, ganha em peixes como o biqueirão ou o lagostim. Qual é a questão, afinal? A questão está no enfoque.

 

Isto vem-nos lembrar que a notícia nunca é “a” realidade. É sempre uma construção. Na Antena 1, valorizou-se o volume das quotas, o que veio contrariar as expectativas. Na SIC, valorizou-se a perda de quotas nas espécies mais consumidas, apenas atenuada pelo aumento das quotas de espécies de menor consumo. Já agora, os noticiários foram editados por dois jornalistas, irmãos, que olharam para a mesma coisa, de formas diferentes. Nuno Rodrigues (Antena 1) viu o copo meio cheio. Bento Rodrigues (SIC) o copo meio vazio.

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Tudo na mesma

por Miguel Bastos, em 10.12.15

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Tudo na mesma, como a lesma. Se as eleições fossem hoje, a coligação PSD/CDS ganhava, o PS ficava em segundo, seguia-se o Bloco, a CDU e o PAN. Todos os partidos sobem nas intenções de voto. Com excepção da CDU. Mas, como sabemos, a CDU ganha sempre. Portanto, ganham todos. São dados da sondagem da Católica (para a RTP, Antena 1, JN e DN - o gráfico é do DN).

 

Mais dados curiosos: a maioria dos inquiridos acha que Passos Coelho deveria ter sido  primeiro-ministro, que é, agora, um líder mais popular do que António Costa. A maioria dos portugueses, considera que o PS deveria ter viabilizado um governo PSD/CDS. Será que estes dados vão servir reforçar o discurso da “ilegitimidade”, da coligação de direita? Talvez. Mas há outro dado curiosos. É que, a maioria dos inquiridos considera que António Costa é melhor solução para o país, como primeiro-ministro.

 

Confuso? Talvez não. Passos Coelho é o preferido, mas se não puder ser… Em certos países viria aí uma corrente de indignação. Mas, em Portugal, tendemos a encolher os ombros. Somos um país de gente porreira.

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Perfilados do medo

por Miguel Bastos, em 23.11.15

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“A vida sem viver é mais segura”, cantava, a partir de Paris, José Mário Branco. A canção chama-se “Perfilados do medo” (poema de Alexandre O’Neil). Foi registada, em 1971, num disco chamado “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Mudaram-se os tempo, é certo, mas o medo ficou. Ou, pelo menos, vai e volta. Paris tem medo. Bruxelas tem medo. Berlim, Londres e Madrid também têm medo. Toda a Europa tem medo.

 

Por isso, escrevi, aqui, que os terroristas vencem sempre. Não precisam de disparar. Basta meterem medo. Ouvi, esta manhã, na Antena 1 a descrição de Bruxelas, uma cidade paralisada. E ouvi soluções mágicas de ouvintes. Com voz de homem e atitude de macho, ditaram: é preciso bombardear o Estado Islâmico, na Síria. Pode ser uma acção necessária. Mas, não percebo como é que isso impede os terroristas de atacar Paris ou Bruxelas. É que os terroristas estão cá. Muitos deles, são de cá. Portanto, o assunto, não se resolve “lá”. Nem se resolve, passando de “Rebanho pelo medo perseguido” a fera que ataca sem sentido.

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Maria Barroso

por Miguel Bastos, em 07.07.15

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Maria Barroso disse que a fé lhe trouxe “força para viver e força para morrer”. A frase inquietou-me, por acentuar a proximidade entre a vida e morte. Falou-se muito da morte na entrevista de Fátima Campos Ferreira: a morte dos pais, dos sogros, de Salgado Zenha e a quase morte do filho João Soares. Foi nessa altura, que reencontrou a fé. Agora, encontrou a morte. A sua morte.

 

A jornalista da RTP tinha pedido uma entrevista a Maria Barroso, a propósito dos seus 90 anos. Senti esses anos na entrevista - pelo percurso e pela experiência. Mas, ao mesmo tempo, não pareciam 90 anos: no timbre, no ritmo, no discurso, no pensamento. Ouvir Maria Barroso é, talvez, ainda melhor do que vê-la. A sua voz está no cinema, na poesia, na política. A sua voz límpida e afirmativa está na entrevista, inédita (Antena 1, RTP).

 

Num dia estava assim, num outro caiu e morreu. Foi, por isso, que a frase de Maria Barroso me inquietou. Para quem tem fé, vai reencontrar os que ama. Para os outros, apagou-se, simplesmente. Viver, morrer. ON/OFF.

 

PS: A Anabela Mota Ribeiro republicou uma entrevista maravilhosa com Maria Barroso. Está no seu blog.

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Para começar… a rádio

por Miguel Bastos, em 15.04.15

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O meu primeiro contacto diário com os jornais começa… na rádio. A revista de imprensa de João Paulo Guerra, na Antena 1, é uma óptima maneira de começar o dia. Tem uma selecção de temas criteriosa, tem comparação, tem um olhar crítico, tem humor. E tem a credibilidade de um decano do jornalismo.

 

Só mais tarde chegam os títulos ao telemóvel. Só mais tarde chego ao computador,  ou ao quiosque, para saber o que o mundo andou a fazer, enquanto eu dormia.

 

A rádio tem essa capacidade. Chega depressa e não nos faz perder tempo. Bem sei que muita gente acha este media antigo e até anacrónico. No telemóvel, no tablet ou no computador “tenho a informação que quero, há hora que eu quero”. Há um slogan que parece resumir essa realidade: “As notícias não escolhem hora certa”. Só que esse slogan é de uma rádio: a TSF.

 

A rádio não ocupa espaço, nem ocupa tempo. Notícias no telefone ou no tablet? Não dá jeito, enquanto se lava a cara, se escovam os dentes, se prepara o pequeno almoço. Enquanto faço isso, vou sabendo do mundo. Quando chego aos outros media, já sei por onde começar.

 

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