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Tempo novo

por Miguel Bastos, em 14.03.16

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Está aí o “tempo Novo”, de que falava Sampaio da Nóvoa. O tempo novo chegou, mas sem Nóvoa. As eleições legislativas já tinham dado uma derrota ao PS. Mas, mesmo assim, António Costa formou governo. Mesmo sem ter vencido, mesmo sem coligação. Mas com o apoio da esquerda, que esteve sempre fora do “arco da governação”. 

 

Depois disso, Marcelo venceu as eleições, sem depender da simpatia dos partidos que o apoiaram, ou toleraram. O “tempo novo”, começado com António Costa, seguiu, com Marcelo. A sua tomada de posse em vários atos, e em vários dias, apagou as últimas resistências. Em Lisboa, foi a pé para o Parlamento, teve uma cerimónia espiritual com as várias religiões e um espetáculo musical com músicos populares. No Porto, desfilou nos Aliados, telefonou para a Rádio Comercial e visitou o Bairro do Cerco, com a população a aclamar “Marcelo,Marcelo”.

 

Foi, também, no Porto (Gondomar, vá!), que o CDS elegeu a sucessora de Paulo Portas. Assunção Cristas vai-se distanciando do PSD e aproximando de António Costa , ao realçar que o voto útil já não faz sentido. O importante é quem tem condições de formar governo. Por isso, as pessoas devem votar no CDS e não no PSD.

 

Este é o “tempo novo”. Surpreendentemente, tem política. Quem diria?

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Assunção levanta a crista

por Miguel Bastos, em 28.01.16

assuncao cristas.png

Assunção Cristas está em campanha para a presidência do CDS. Na terça feira, deu um “Oscar” de realizador a António Costa, pelo melhor filme de ficção. Ontem, falou de um sonho cor de rosa, “um cor-de-rosa bastante avermelhado”. No primeiro caso, Assunção Cristas quer "interromper este filme”. No segundo caso, talvez não seja preciso fazer nada, porque o "despertador de Bruxelas acordou Costa do sonho cor-de-rosa”.

 

Formada na “Universidade do soundbite”, Assunção Cristas gosta de metáforas e trocadilhos. Eu, também gostava de sugerir alguns. Por exemplo, sobre a vitória de Marcelo: “É a vitória da esquerda da direita e a derrota da frente de esquerda”. Ou sobre o projecto de orçamento: “Costa não é Fitch”. O próprio nome da candidata dá para imensos trocadilhos. Sobre a sua candidatura: “A Assunção de Cristas: ex-ministra assume candidatura à liderança do CDS”. Sobre a sua atitude “Assunção levanta a Crista”. E por aí fora.

 

A candidata diz que não é muito ideológica, mas assume-se como democrata-cristã. Podia fazer um trocadilho com “democrata-crista”, mas isso seria demasiado óbvio.

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Tudo na mesma

por Miguel Bastos, em 10.12.15

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Tudo na mesma, como a lesma. Se as eleições fossem hoje, a coligação PSD/CDS ganhava, o PS ficava em segundo, seguia-se o Bloco, a CDU e o PAN. Todos os partidos sobem nas intenções de voto. Com excepção da CDU. Mas, como sabemos, a CDU ganha sempre. Portanto, ganham todos. São dados da sondagem da Católica (para a RTP, Antena 1, JN e DN - o gráfico é do DN).

 

Mais dados curiosos: a maioria dos inquiridos acha que Passos Coelho deveria ter sido  primeiro-ministro, que é, agora, um líder mais popular do que António Costa. A maioria dos portugueses, considera que o PS deveria ter viabilizado um governo PSD/CDS. Será que estes dados vão servir reforçar o discurso da “ilegitimidade”, da coligação de direita? Talvez. Mas há outro dado curiosos. É que, a maioria dos inquiridos considera que António Costa é melhor solução para o país, como primeiro-ministro.

 

Confuso? Talvez não. Passos Coelho é o preferido, mas se não puder ser… Em certos países viria aí uma corrente de indignação. Mas, em Portugal, tendemos a encolher os ombros. Somos um país de gente porreira.

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Direita, esquerda, volver

por Miguel Bastos, em 07.12.15

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Enquanto, em Portugal, discutimos se Passos Coelho é do centro moderado, ou se o governo de António Costa é de esquerda radical, há um país onde a direita radical existe mesmo. Em França, a Frente Nacional cresce, de eleição para eleição. O partido de Marine Le Pen tem, agora, mais de sete milhões de eleitores. Em algumas regiões, a percentagem anda à volta de 50%. Ou seja, Marine Le Pen tem, cada vez mais, hipóteses de vir a ser Presidente da República.

 

Esta possibilidade limita o otimismo que alguns depositavam na recuperação da popularidade de François Hollande, depois dos atentados de Paris. Antes dos atentados, a popularidade de Hollande era mais baixa do que a de Cavaco, em Portugal.

 

A expectativa de que a Europa estava a virar à esquerda, com a vitória de Hollande, foi contrariada pela eleição de Merkel, na Alemanha. A vitória de Tsipras, na Grécia, foi contrariada pela vitória de Cameron, no Reino Unido. Não se pode, portanto, falar de viragens à esquerda ou à direita. A estrada da Europa tem muitos ziguezagues. Mas, quando a direita é extrema, a Europa corre o risco de se despistar.

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Os políticos têm cor?

por Miguel Bastos, em 26.11.15

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Os políticos têm cor? Aparentemente, sim. Sempre se falou da “laranjinhas” ou dos “vermelhos”. Mas, até agora, a cor era dos partidos, não dos políticos em si. Acontece que, pela primeira vez, temos uma ministra “de cor”. De resto, o governo vai ser liderado por um primeiro-ministro com mais “cor”, do que o costume. António Costa tem origem goesa.

 

É quase inevitável que a cor dos políticos seja assunto. Do mesmo modo que ser político e mulher, ainda é assunto. Na edição de ontem, o Público começou a sua análise à composição do governo por aqui. Na altura, ainda não se sabia que o governo ia ter um secretário de Estado de origem cigana e uma secretária de Estado invisual. Porquê? “Porque estamos em 2015”, como disse o novo primeiro-ministro canadiano.

 

O tema da “diversidade” é sempre delicado. Afinal, não se deve convidar pessoas para o governo, “apenas” porque são mulheres, ou negros. Mas, a composição do governo reflete o nível de desenvolvimento de uma sociedade. E aquilo que temos visto, é que a formação dos governos reflete, ainda, uma sociedade estratificada, elitista, demasiado fechada sobre si. Que isso esteja a mudar, só pode ser bom sinal. “Porque estamos em 2015”.

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Os gostos discutem-se

por Miguel Bastos, em 24.11.15

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Cavaco chamou António Costa. Chamou ontem, para impor condições. Chamou hoje, para António formar governo. António Costa vai, mesmo, ser primeiro-ministro.

 

Pela primeira vez, na história da democracia portuguesa, não vai governar quem teve mais votos, mas antes quem conseguiu o apoio no parlamento. Pela primeira vez, há uma solução que inclui os partidos à esquerda do PS. Se isso é bom ou mau, é o que se vai ver.

 

Toda a gente andou a discutir a questão da constitucionalidade. De repente, ficámos todos constitucionalistas. Depois, discutimos a legitimidade. Bem, foi tudo legítimo. A coligação ganhou, legitimamente, as eleições. O Presidente convidou, legitimamente, Passos Coelho para formar governo. A oposição chumbou, legitimamente, o governo. Cavaco Silva ouviu, legitimamente, quem achou que devia ouvir. E, final e legitimamente, convidou António Costa a formar governo.

 

Foi tudo legal e foi legítimo. Isso não quer dizer que se ache bem. E que se goste do processo e do resultado. Mas isso, são gostos. E os gostos discutem-se, feliz e legitimamente.

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One night stand

por Miguel Bastos, em 11.11.15

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Enquanto se fingia discutir o programa do governo, foram chegando as moções de rejeição ao presidente da Assembleia da República. À tarde o governo cairia. Mas antes, pela hora do almoço, numa sala do Parlamento, sem presença de público ou jornalistas, assinaram-se  vários acordos “não sei de quê” entre o PS e os partidos à sua esquerda. Primeiro, entrou um partido e saiu. Depois, entrou outro partido e saiu. E, finalmente, o terceiro. Falaram, à vez, com o PS e nem sequer se sentaram. Enquanto o governo afirmava que caía de pé, a oposição de esquerda assinava acordos, de pé.

 

O DN considera que nem sequer se pode chamar “acordos” aos documentos. É uma “posição conjunta”, cheia de “ses” e “mas”. A “posição conjunta” compromete-se a não votar com a direita uma moção de censura, mas isso não impede que cada partido da “posição conjunta” não possa apresentar as sua própria moção de censura. Nesse caso, António Costa diz que há divórcio. Só que não houve casamento, nem união de facto, nem namoro sequer. Foi uma “one night stand”, à luz do dia. Sem tempo para sentar.

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Atirar lama, é Feio?

por Miguel Bastos, em 09.11.15

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O CDS era contra a Europa e mudou de opinião, para entrar para o governo, acusou António Costa. O CDS respondeu “é mentira” e disse que Costa estava a atirar lama. Esta conversa, de meninos rabinos, tem a sua graça. Argumentos do CDS: o partido já estava a mudar de opinião desde 1998; o Manuel Monteiro é que era anti-europeu; Paulo Portas entrou no partido para “recentrar” o CDS. Bravo, meu caro Diogo! Já agora, não quer explicar que o CDS se encostou à direita com Monteiro, a dar a cara a um projecto político de … PP - Paulo Portas. Ou seja, Portas veio combater a sua própria tendência política.

 

Quando pensamos em eurocepticismo, lembramo-nos mais do Independente do que das declarações de Manuel Monteiro. Está escrito, Diogo, em papel de jornal. E, agora, até há um livro sobre isso. Portas transformou o seu eurocepticismo em euroconsciência e eurocalma. Dois termos que não estão nos dicionário de ciência política, mas que poderão surgir num qualquer dicionário de disparates.

 

Diogo Feio quer, assim, atirar areia para os nossos olhos. O que é parecido com atirar lama. Só que tem menos água.

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A chave para Portugal

por Miguel Bastos, em 05.11.15

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A chave para governar Portugal não está fechada a sete chaves. Está em Chaves - terra de bons pastéis e de bom senso. Chaves era uma espécie de Bélgica, onde à falta de governo, governava-se em duodécimos. De acordo com a reportagem da RTP (minuto 15), a situação não fez alarmar os mercados, mas fez parar obras e pessoal, e disparar o preço da água.

 

Em Chaves, as eleições para a freguesia da Madalena deram confusão. O PSD ganhou, mas a oposição (o MAI - Movimento Autárquico Independente e o PS ) tinha mais mandatos. De modo que, durante dois anos, a terra ficou ingovernável. O que é que mudou, entretanto? Em Chaves, fez-se um governo de unidade. O PSD ficou com a presidência da Junta e com o tesoureiro; o MAI com o secretário. A presidência da Assembleia ficou nas mãos do PS, o secretariado divido entre o PSD e o MAI.

 

Portugal inteiro (como dizia o Almada) pode seguir o exemplo? Bem, a presidência da Assembleia já está nas mãos do PS. O PSD, como ganhou, ficava com o lugar de Primeiro Ministro? António Costa, ainda pode ser o vice? E como é que fica o governo de esquerda? E o bigode, ficava para Paulo Portas?

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Casa dos Segredos

por Miguel Bastos, em 28.10.15

Captura de ecrã 2015-10-26, às 14.31.37.png

Esta capa do jornal i lembrou-me uma crónica de Ricardo Araújo Pereira. Diz o i: “PS só revela acordo quando a queda do governo estiver eminente”. Cito (de cor) Araújo Pereira (esse mestre da ciência política): “mas o ponto não é esse. O ponto não é esse. O ponto só eu e o Pacheco Pereira é que sabemos. E, mesmo assim, não dizemos nada a ninguém”. Ricardo antecipou António Costa e o acordo de esquerda. A coligação ganhou, mas esse não é o ponto. A alternativa existe, mas não dizemos nada a ninguém.

 

Eu sou espectador da Quadratura do Círculo. Muitas vezes, as questões de Carlos Andrade são respondidas com um “ó Carlos, eu já lhe respondo, mas…” ou “eu percebo a sua curiosidade, mas deixe-me dizer-lhe o seguinte”...  - que, geralmente, são formas de não responder. Outra expressão recorrente é “O ponto não é esse” - utilizada, sobretudo, por Pacheco Pereira e glosada pelo humorista. O “e, mesmo assim, não dizemos nada a ninguém” aplica-se, agora, a António Costa, que deixou a “Quadratura” e entrou para a "Casa dos Segredos".

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